Risco de derrota de Lula eleva a tensão no PT ao ampliar incertezas sobre futuro do partido
O problema mais profundo para a sigla é construir uma geração de lideranças capaz de falar com um eleitorado que mudou
Em setembro de 2025, Luiz Inácio Lula da Silva admitiu pela primeira vez o que todo mundo já sabia: disse que só não iria para sua sétima candidatura à Presidência da República “se tiver algum problema de saúde ou se aparecer algum candidato melhor”. A saúde do presidente continua boa, e candidato melhor, ao menos para o PT, não apareceu — e pode demorar a aparecer. Considerada um assunto delicado dentro do partido, a questão sobre quem vai levar o bastão da maior legenda de esquerda do país após a saída de cena de seu líder histórico está longe de ter um fim. Influenciado pela crença de que Lula teria um novo mandato e poderia, aos 81 anos, conduzir com certa tranquilidade sua sucessão, o debate sempre foi cercado de algum desconforto e muita procrastinação, mas o cenário pode mudar rapidamente no caso de derrota de Lula para Flávio Bolsonaro (PL), algo a cada dia menos improvável.
Desde que Lula foi preso pela Lava-Jato, em abril de 2018, a urgência de ter um nome para sucedê-lo já era evidente. Sem alternativas viáveis, o petista tentou até ser candidato da cadeia, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas teve sua candidatura barrada pela Justiça Eleitoral e cedeu seu lugar a Fernando Haddad. Pouco antes de ser levado à prisão, discursou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista ao lado de Manuela d’Ávila e Guilherme Boulos. A ela disse que representava “gente nova disposta a enfrentar a negação da política”. A ele afirmou: “Você tem futuro, meu irmão. Não desista nunca”. Os dois mais Haddad passaram desde então a ser citados como alternativas de uma renovação à esquerda com o ocaso de seu líder histórico, mas nada disso virou realidade.
As urnas das últimas eleições também trouxeram más notícias a quem poderia ser o futuro do PT ou da esquerda. Haddad sofreu a quarta derrota eleitoral seguida ao ser batido no primeiro turno por Tarcísio de Freitas em São Paulo. Gleisi Hoffmann, outra ex-ministra e ex-presidente do PT citada como alternativa no pós-Lula, chegou em quarto lugar na disputa ao Senado pelo Paraná, com meros 13% dos votos. Manuela (PSOL) foi a terceira no Rio Grande do Sul, com 17%. Ambas foram derrotadas por uma dobradinha de direita. Boulos nem disputou a eleição, mas seu PSOL foi um dos partidos que não atingiram a cláusula de barreira. João Campos (PSB), tido como a nova cara da esquerda, perdeu a eleição ao governo de Pernambuco para Raquel Lyra (PSD) ainda no primeiro turno.
Quem salvou o PT do fracasso total e deixou alguma esperança para o futuro foram os de sempre: os petistas do Nordeste. Um deles é Camilo Santana, no Ceará, que liderou a estratégia de reeleição do governador Elmano de Freitas, num duelo difícil contra o ex-governador Ciro Gomes (PSDB). Outro é Rui Costa, que se elegeu senador e ajudou a reeleger Jerônimo Rodrigues, dando ao PT o sexto mandato consecutivo na Bahia, também num duelo complicado contra ACM Neto (União Brasil). Ambos já foram tratados como candidatos a sucessor de Lula. Também subiu na hierarquia petista o governador do Piauí, Rafael Fonteles, reeleito com 71% dos votos. Nos três casos, além da vitória ao governo, a chapa liderada por eles elegeu os dois senadores em cada estado — algo raro para a esquerda no país.
Não à toa, os três rumaram para Brasília para socorrer Lula na difícil tentativa de reeleição. Camilo Santana ganhou espaço na coordenação ao lado de Edinho Silva, presidente do PT, enquanto Rui Costa e Jaques Wagner foram chamados a participar da reorganização da campanha. Fonteles foi para Brasília na segunda 5 e lá permaneceu por três dias — participou de reuniões para redirecionar a maneira como a campanha deve usar as redes sociais, em estratégia que terá o apoio de políticos eleitos pela esquerda para o Congresso e que acumularam capital político nas plataformas durante o primeiro turno.
Coube a uma quase estrangeira dentro do PT colocar um dedo importante na ferida. A ex-senadora e ex-ministra Kátia Abreu, que se filiou ao partido neste ano e coordena a campanha de Lula no Tocantins, criticou a composição da coordenação nacional da campanha depois do primeiro turno e classificou o grupo como formado por “paulistas sem voto” durante uma reunião do partido em Brasília, na terça. A cobrança não se restringiu à comunicação: defendeu maior participação de lideranças regionais, em especial de nomes com força eleitoral fora do eixo paulista. A VEJA ela disse que não há nenhum nome despontando para ser o sucessor de Lula e que talvez não seja o caso de discutir isso agora. “Se você tratar disso muito cedo, você enfraquece o governo de plantão e cria uma expectativa de poder maior que o poder”, defende.
A disputa das forças internas sobre os rumos do partido deve se acirrar em caso de derrota de Lula e pode mesmo se tornar uma guerra quase geográfica. Atualmente, enquanto os donos dos votos estão no Nordeste, o comando financeiro e burocrático da legenda está no Sudeste, notadamente em São Paulo. “Teremos uma disputa dura. O grupo paulista pode perder força. Pode ser que Lula entenda que será necessário renovar de maneira substancial o partido e dar mais espaços na Executiva Nacional para o pessoal do Nordeste”, avalia Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP. Já no caso de vitória petista, a tendência é manter a estrutura partidária e que o próprio Lula aponte o sucessor, como fez com Dilma Rousseff em 2010. “Vamos perceber, no primeiro ano de um novo mandato, quem seriam os potenciais sucessores”, diz Grin.
Os paulistas, é claro, rejeitam a pecha de mandarem demais no partido. Deputado federal reeleito em São Paulo, Nilto Tatto lembra que Jaques Wagner era a primeira alternativa de candidatura à Presidência em 2018, após a prisão de Lula, mas ele recusou a missão, que acabou caindo no colo de Haddad. Segundo Tatto, o fato de o ex-ministro da Fazenda vir de quatro derrotas consecutivas também não o elimina como alternativa. “Ele é um quadro político que vai ajudar nesse processo de sucessão, independentemente de ser o nome dele que vai estar na frente ou não”, afirma.
A sucessão de Lula, porém, não será apenas uma disputa entre nomes. O problema mais profundo para o PT é construir uma geração de lideranças capaz de falar com um eleitorado que mudou. A eleição de 2026 evidenciou uma dificuldade que o partido já vinha enfrentando: sua relação com jovens, evangélicos, trabalhadores a serviço de novas formas de emprego, empreendedores e parcelas da população que não têm mais vínculo com o velho universo sindical que ajudou a formar a identidade petista — e que forjou o próprio Lula. O desafio do partido, na visão de Tatto, é traduzir suas bandeiras para uma geração que se relaciona com trabalho, política e informação de maneira diferente. Para Gutierres Barbosa, membro da coordenação nacional do núcleo evangélico do PT, a religião não é um compartimento isolado da vida política, e, entre os evangélicos, há trabalhadores por aplicativo, autônomos, pequenos empreendedores, pessoas que alternam empregos formais e informais e jovens para quem a promessa de estabilidade profissional parece uma coisa distante. “A melhor sucessão para o partido vai levar em conta quem é que vai ter essa capacidade”, entende Barbosa.
Sem Lula, outro risco para o PT é perder a hegemonia da esquerda no Brasil. Na atual eleição, o presidente conseguiu um feito inédito: todas as legendas médias e grandes desse campo político estão unidas em torno de sua candidatura, incluindo PDT, PSB, PSOL e Rede, que já disputaram eleições contra o PT. Para Paulo Lamac, presidente da Rede, que conta em seus quadros com duas das três mulheres mais votadas para a Presidência da República (a ex-senadora Heloísa Helena e a ex-ministra Marina Silva), se Lula conquistar mais um mandato, essa possibilidade de disputa interna no campo da esquerda será mais forte. “Nossa federação com o PSOL tem condição de compor uma chapa à sucessão do presidente Lula. O que nos levou a fazer campanha para Lula e para o PT, o que nunca tinha acontecido, foi um grande esforço para enfrentar a extrema direita”, afirma. Para a cientista política da UFPE Priscila Lapa, a oportunidade será a maior em muitos anos para uma reorganização do campo progressista. “Ela passa necessariamente por uma descapitalização do poder do PT em certa medida. Não pode ser demais, porque não se joga fora a legenda mais orgânica, mas tem que haver para não herdar a rejeição petista”, entende. Para ela, a discussão sobre o futuro da esquerda talvez não seja sobre partidos e pessoas, mas sobre agendas. “Os nomes são viáveis ou inviáveis a partir do que eles vão mostrar para o eleitor e da capacidade de dialogar para além da bolha do PT e dos partidos de esquerda”, diz. Também não se pode descartar que o próximo candidato a presidente desse bloco hoje em torno de Lula seja um nome fora da esquerda tradicional, como o vice Geraldo Alckmin.
Será difícil, no entanto, que o PT abra mão de continuar tendo candidatos a presidente. Apesar do risco de perder com Lula, a sigla ainda é de longe a maior da esquerda: elegeu setenta deputados federais (cinco a mais do que tem hoje), enquanto o segundo, o PSB, fez quinze (dois a menos). “O PT é um partido muito maior do que os outros. É natural que tenha candidatura em 2030, 2034. Quem tem mais força apresenta o nome que disputa”, resume o deputado reeleito Zeca Dirceu (PT-PR). A discussão sobre esse nome, no entanto, que vinha sendo conduzida em banho-maria, vai ganhar tração no caso de derrota de Lula. O desconforto interno, evidente nos bastidores, só tende a aumentar.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016







