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Ramagem engrossa lista de bolsonaristas que deixaram o país para escapar da Justiça

Ao contrário do que alegam os “exilados”, não há perseguição política ou ideológica, mas sim fartas evidências de crimes

Por Anna Satie Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Bruno Caniato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 nov 2025, 06h00 • Atualizado em 28 nov 2025, 12h24
  • No último dia 18 de novembro, o ex-policial federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi um dos 370 deputados que votaram a favor da aprovação do PL Antifacção na Câmara. O que não se sabia era que o parlamentar depositara o seu voto remotamente, de Miami, para onde havia se mudado com o objetivo de escapar da pena de dezesseis anos, um mês e quinze dias de prisão em regime fechado por seu papel em conspiração golpista no final de 2022. Ramagem, cujos passaportes estavam suspensos pela Justiça desde junho, apresentou um atestado médico à Câmara em 9 de setembro e seguiu de carro para Roraima, onde já foi superintendente da Polícia Federal. De lá, pode ter saído do Brasil pela fronteira com a Guiana ou a Venezuela e dali pegou voo para Miami. Em solo americano, tornou-se mais um entre dezenas de bolsonaristas condenados ou investigados que fugiram do país para não prestar contas à Justiça.

    Desde a revelação da fuga, a situação de Ramagem só piorou. Logo que soube da mudança clandestina de endereço, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ordenou sua prisão preventiva. Quatro dias depois, na terça 25, o STF declarou o trânsito em julgado da ação — ou seja, a condenação dele se tornou definitiva. Moraes também determinou a perda do mandato parlamentar e do cargo de delegado da Polícia Federal e a inclusão do nome de Ramagem no banco de presos e foragidos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). No mesmo dia, a Câmara aprovou um parecer proibindo que deputados registrem presença e participem de votação enquanto estiverem no exterior, salvo em missões oficiais.

    APOSTA ERRADA - Zambelli: cidadania italiana não impediu que ela fosse presa
    APOSTA ERRADA - Zambelli: cidadania italiana não impediu que ela fosse presa (Lula Marques/Agência Brasil)

    Embora seja mais um caso de gente em busca de impunidade, a fuga de Ramagem embute uma preocupação adicional: ele não é um condenado qualquer. Diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência por três anos, pode dispor de informações sensíveis para o Brasil. Apesar de ter deixado a função em 2022, a PF apreendeu um telefone e um computador da Abin em endereços ligados a ele dois anos depois, em 2024. À época, disse que não sabia que os aparelhos estavam com ele e que certamente não eram usados havia anos. No cargo, atuou em conjunto com agentes e organismos de inteligência de vários países, com quem também compartilhou informações sensíveis. À frente da agência, segundo a Procuradoria-Geral da República, montou um núcleo clandestino dentro do órgão, aparelhando recursos estatais para espionar adversários políticos, acusação pela qual foi condenado. De resto, é o único do núcleo principal da trama golpista que escapou das grades, coisa que não conseguiram os outros seis acusados, incluindo Bolsonaro, três generais de quatro estrelas e um almirante.

    arte exilados

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    Ramagem passa agora a integrar uma legião de personagens no exterior com histórias parecidas. O caso mais conhecido é o da deputada Carla Zambelli (PL-SP), presa em Roma em julho deste ano, dois meses após ter fugido do Brasil, também por via terrestre, pela Argentina, antes de passar pelos Estados Unidos e chegar à Itália, onde imaginou que estaria livre da Justiça. “Como cidadã italiana, sou intocável”, disse em junho. Condenada pelo STF a mais de quinze anos de prisão por invadir os sistemas do Judiciário e por perseguir, de revólver em punho, um homem pelas ruas, ela aguarda sua extradição. Outro parlamentar “autoexilado” é Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se mudou para Dallas (EUA) em fevereiro e por lá permanece, sem previsão de retorno, alegando ser perseguido por Moraes — no Supremo, enfrenta denúncias de interferir no julgamento do pai e de articular sanções contra o Brasil junto ao governo de Donald Trump, acusação que já o transformou em réu.

    A lista de foragidos bolsonaristas vai muito além dos três deputados. Primo de Eduardo, Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, foi indiciado pela PF no início do ano por participar do 8 de Janeiro e fugiu para a Argentina, juntando-se a cerca de sessenta envolvidos na depredação pública em Brasília que também cruzaram a fronteira e encontram-se foragidos no país vizinho. A diáspora bolsonarista, no entanto, antecede a trama golpista: entre 2020 e 2022, os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, investigados por incitar ataques à democracia, deixaram o país, respectivamente, rumo aos EUA e ao Paraguai. Santos vive na Flórida e Eustáquio mora na Espanha — ambos se beneficiam do status de asilados políticos, e os pedidos brasileiros para a extradição deles vêm sendo rejeitados pelas autoridades locais.

    AUTOEXILADO - Eduardo Bolsonaro: vivendo em Dallas, ele virou réu por tentativa de obstrução da Justiça
    AUTOEXILADO - Eduardo Bolsonaro: vivendo em Dallas, ele virou réu por tentativa de obstrução da Justiça (Reprodução/Instagram)
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    Dispersos pelo mundo, os bolsonaristas exilados compartilham uma característica central: o discurso de perseguição política no Brasil. O chavão da “ditadura de toga”, que denuncia supostos abusos do STF contra apoiadores do ex-presidente, tornou-se mote de manifestações pelo planeta, ainda que de forma modesta — desde 2023, atos reuniram dezenas de brasileiros em capitais como Nova York, Londres, Roma, Madri e Buenos Aires. “A grande maioria não cometeu crime algum, nem mesmo de depredação”, sustenta o advogado Ezequiel Silveira, que representa quarenta investigados e 600 famílias de envolvidos no 8 de Janeiro. Em novembro, bolsonaristas chegaram a realizar um ato contra Moraes em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, mas a busca por apoio político não colou — o presidente Javier Milei assim como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, ambos de direita, ignoraram a cantilena bolsonarista.

    FORAGIDO - Allan dos Santos: com mandado de prisão de 2021, teve extradição negada pelos EUA
    FORAGIDO - Allan dos Santos: com mandado de prisão de 2021, teve extradição negada pelos EUA (Reprodução/Instagram)

    Atualmente, tramitam pelo mundo 61 pedidos de extradição, emitidos pelo STF e formalizados pelo Itamaraty, relativos à trama golpista. Os esforços, no entanto, não são nada simples e exigem a cooperação das autoridades locais para localizar, prender e julgar cada um dos nomes na mira da Justiça brasileira — o processo pode ser ainda mais lento se os réus têm asilo político ou cidadania daquele país. Professora de direito internacional na USP, Maristela Basso explica que as extradições costumam ser ágeis quando envolvem crimes flagrantes, como tráfico de drogas, corrupção ou homicídio, mas tornam-se mais subjetivas se há bases para suspeitar de abusos humanitários. “Uma alegação de perseguição política tem grande peso, pois é o principal elemento que pode impedir uma extradição e também o argumento mais difícil de se refutar nos tribunais”, diz. Em última instância, o sucesso depende das relações diplomáticas, já que os tratados internacionais exigem que uma extradição seja ratificada pelo chefe de Estado.

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    Os três deputados no exterior deveriam ser um constrangimento para a Câmara, onde os processos de perda de mandato avançam lentamente. Quem decide qual será o rito é o presidente, Hugo Motta (Republicanos-­PB), que pode liquidar o processo já na Mesa Diretora ou enviá-lo para a Comissão de Constituição e Justiça — a última opção foi a escolhida para o caso contra Carla Zambelli, que ainda não tem nem relator designado. O presidente da comissão, Paulo Azi (União Brasil-BA), acredita que o processo contra Ramagem deve receber o mesmo destino. O grupo faz apenas uma análise prévia da legalidade, mas quem decide é o plenário. “O Parlamento se empoderou muito nos últimos anos, e há um questionamento crescente do papel do Judiciário e principalmente do Supremo”, diz Antonella Galindo, professora de direito constitucional da UFPE. Ela lembra que a Câmara aprovou a suspensão da ação contra Ramagem, decisão que foi parcialmente aceita pelo STF, que deixou fora do processo os crimes cometidos quando ele já era deputado. Outra possibilidade para a perda de mandato é o excesso de faltas (deixar de ir a um terço das sessões de cada ano). “Deixar o país sem aviso e sem prazo de retorno, priorizando interesses particulares, configura abdicação ao cargo pelo deputado”, defende Márlon Reis, advogado da ONG Rede pela Soberania, que na última semana enviou uma representação a Hugo Motta pedindo que o cargo de Eduardo Bolsonaro seja declarado vago por abandono.

    CAMPANHA - Bolsonaristas em ato em Nova York: discursos no exterior pedem anistia e criticam Moraes e STF
    CAMPANHA - Bolsonaristas em ato em Nova York: discursos no exterior pedem anistia e criticam Moraes e STF (Reprodução/Instagram)

    Em que pese a complexidade das investigações, todos os réus pela trama golpista foram submetidos a julgamentos regulares, respeitando o devido processo legal e o direito à defesa. Ao contrário do que alegam os “exilados”, não há perseguição política ou ideológica, mas sim fartas evidências de crimes. Ao condenar os acusados pela tentativa de golpe, as instituições demonstraram rigor, eficiência e respeito aos princípios constitucionais — cabe, agora, esperar que as autoridades, brasileiras e de outros países, consigam fazer com que os responsáveis paguem pelos seus crimes.

    Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972

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