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Coluna publicada em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604

Por Sidclei Sobral - 12 out 2018, 07h00

No genial capítulo CXXIII de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o personagem-título se põe a meditar sobre seu cunhado, o Cotrim. Qual seria o verdadeiro Cotrim? Diziam que ele era avarento, e Brás Cubas tinha razões para concordar com essa opinião. Mas… “a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit”. Cotrim “não era perfeito, decerto”. Tinha, por exemplo, o hábito de logo mandar aos jornais a notícia das ações de benemerência que praticava. Mas… “desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas, razão a que não se pode negar algum peso”. Brás Cubas vai assim, de argumento a contra-argumento, e chega ao ponto principal:

“Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado nesse particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.

O Cotrim que surge dessas linhas é um tipo acabado do período, o ricaço que se fez no pujante comércio da compra e venda de escravos. Os traficantes detinham as maiores fortunas. Para citar um exemplo da vida real, o prédio recentemente incendiado do Museu Nacional foi levantado por um traficante, Elias Antônio Lopes. Quando da chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, Lopes cedeu-lhe a propriedade, não sem antes calcular, com razão, que o presente lhe renderia favores. A mansão do traficante tornou-se, pelos 81 anos seguintes, a sede da monarquia brasileira.

O outro lado é duro de engolir, mas estamos diante de uma questão civilizacional

Brás Cubas estaria usando da ironia para entregar o cunhado? Ou racionalizava para, a si mesmo, tornar aceitável a personalidade do parente? Uma das grandezas do trecho é a irresolução que desemboca em ambiguidade. O memorialista está diante de uma questão de valores, que representam avanço ou atraso civilizacional, como era a questão da escravidão e do tráfico. O Brasil todo, àquela altura do século XIX, estava diante desse entrave ao avanço civilizacional que era a escravidão. Brás Cubas por um lado a denuncia e por outro tenta justificá-la. Afinal o escravismo se constituía num arraigado meio de tocar a vida e os negócios, e bulir com ele poderia significar um fatal desacerto na economia e nos mercados.

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Se até aqui se buscou recuperar no passado um impasse civilizacional brasileiro foi porque o segundo turno da eleição presidencial tem como favorito um candidato que: (1) tem como herói um coronel que durante quatro negros anos, 1970-74, comandou o principal centro de torturas de São Paulo; (2) ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, homenageou a memória desse coronel, Carlos Alberto Brilhante Ustra, saudando-o como “o terror de Dilma”; (3) defende a ideia de que a ditadura não foi ditadura; (4) declarou que o erro do regime então vigente foi não ter matado mais; (5) prega a violência como meio de enfrentar a violência; (6) considerou “uma fraquejada” ter gerado uma menina; (7) foi acusado pela ex-mulher de tê-la ameaçado de morte; (8) menospreza os negros que recuperaram o direito aos antigos quilombos; (9) menospreza o direito dos índios a suas terras; (10) incentiva o desapreço a homossexuais; (11) debocha da expressão “direitos humanos”; (12) cogita retirar o Brasil do Acordo de Paris sobre o meio ambiente. Se semelhante conjunto não configura um pacote de retrocesso civilizacional, qual o faria?

A conquista humana dos direitos e das liberdades percorreu um longo caminho. Começou lá atrás, no século XVIII, com as Luzes e as revoluções Francesa e Americana. No século XX culminou com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em reação à barbárie da II Guerra Mundial. O Brasil, sempre atrasado, foi resolver a questão da escravidão só em 1888, oito anos depois da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E só nos últimos trinta anos, na vigência da atual Constituição, conseguimos destravar as causas das mulheres, dos negros, dos índios, da diversidade sexual e do respeito ao meio ambiente. O outro lado, na eleição binária que nos desafia, é duro de engolir. Mas está em jogo uma encruzilhada civilizacional que a seu jeito, e cada qual em seu devido contexto histórico, se equipara à que se impunha a Brás Cubas.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604

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