Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Que pacote!

Coluna publicada em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604

No genial capítulo CXXIII de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o personagem-título se põe a meditar sobre seu cunhado, o Cotrim. Qual seria o verdadeiro Cotrim? Diziam que ele era avarento, e Brás Cubas tinha razões para concordar com essa opinião. Mas… “a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit”. Cotrim “não era perfeito, decerto”. Tinha, por exemplo, o hábito de logo mandar aos jornais a notícia das ações de benemerência que praticava. Mas… “desculpava-se dizendo que as boas ações eram contagiosas, quando públicas, razão a que não se pode negar algum peso”. Brás Cubas vai assim, de argumento a contra-argumento, e chega ao ponto principal:

“Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado nesse particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais”.

O Cotrim que surge dessas linhas é um tipo acabado do período, o ricaço que se fez no pujante comércio da compra e venda de escravos. Os traficantes detinham as maiores fortunas. Para citar um exemplo da vida real, o prédio recentemente incendiado do Museu Nacional foi levantado por um traficante, Elias Antônio Lopes. Quando da chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, Lopes cedeu-lhe a propriedade, não sem antes calcular, com razão, que o presente lhe renderia favores. A mansão do traficante tornou-se, pelos 81 anos seguintes, a sede da monarquia brasileira.

O outro lado é duro de engolir, mas estamos diante de uma questão civilizacional

Brás Cubas estaria usando da ironia para entregar o cunhado? Ou racionalizava para, a si mesmo, tornar aceitável a personalidade do parente? Uma das grandezas do trecho é a irresolução que desemboca em ambiguidade. O memorialista está diante de uma questão de valores, que representam avanço ou atraso civilizacional, como era a questão da escravidão e do tráfico. O Brasil todo, àquela altura do século XIX, estava diante desse entrave ao avanço civilizacional que era a escravidão. Brás Cubas por um lado a denuncia e por outro tenta justificá-la. Afinal o escravismo se constituía num arraigado meio de tocar a vida e os negócios, e bulir com ele poderia significar um fatal desacerto na economia e nos mercados.

Se até aqui se buscou recuperar no passado um impasse civilizacional brasileiro foi porque o segundo turno da eleição presidencial tem como favorito um candidato que: (1) tem como herói um coronel que durante quatro negros anos, 1970-74, comandou o principal centro de torturas de São Paulo; (2) ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, homenageou a memória desse coronel, Carlos Alberto Brilhante Ustra, saudando-o como “o terror de Dilma”; (3) defende a ideia de que a ditadura não foi ditadura; (4) declarou que o erro do regime então vigente foi não ter matado mais; (5) prega a violência como meio de enfrentar a violência; (6) considerou “uma fraquejada” ter gerado uma menina; (7) foi acusado pela ex-mulher de tê-la ameaçado de morte; (8) menospreza os negros que recuperaram o direito aos antigos quilombos; (9) menospreza o direito dos índios a suas terras; (10) incentiva o desapreço a homossexuais; (11) debocha da expressão “direitos humanos”; (12) cogita retirar o Brasil do Acordo de Paris sobre o meio ambiente. Se semelhante conjunto não configura um pacote de retrocesso civilizacional, qual o faria?

A conquista humana dos direitos e das liberdades percorreu um longo caminho. Começou lá atrás, no século XVIII, com as Luzes e as revoluções Francesa e Americana. No século XX culminou com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em reação à barbárie da II Guerra Mundial. O Brasil, sempre atrasado, foi resolver a questão da escravidão só em 1888, oito anos depois da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E só nos últimos trinta anos, na vigência da atual Constituição, conseguimos destravar as causas das mulheres, dos negros, dos índios, da diversidade sexual e do respeito ao meio ambiente. O outro lado, na eleição binária que nos desafia, é duro de engolir. Mas está em jogo uma encruzilhada civilizacional que a seu jeito, e cada qual em seu devido contexto histórico, se equipara à que se impunha a Brás Cubas.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604