Política à parte: em trincheiras opostas, líderes do PL e do PT se tratam como ‘irmãos’
Personagens centrais da polarização, Lindbergh Farias e Sóstenes Cavalcante travam embates calorosos na Câmara sem abandonar amizade de décadas
Dentro do plenário, as brigas são homéricas. Cada um com a missão de defender seu próprio partido, os líderes do PT, Lindbergh Farias, e do PL, Sóstenes Cavalcante, discordam em absolutamente tudo: temas sobre o governo Lula, o antecessor Jair Bolsonaro, a economia, a política externa, os atentados do 8 de janeiro e uma eventual anistia aos condenados geram calorosos embates entre a dupla de deputados cariocas. As divergências ensejam debates entre os dois na mídia, provocações nas redes sociais e ações na Suprema Corte, marcando suas posições como os principais representantes da direita e da esquerda na Câmara dos Deputados.
Recentemente, a dupla aumentou essa cisão durante o motim protagonizado pelos apoiadores de Bolsonaro. Enquanto Sóstenes estimulava a tomada à força do plenário, Lindbergh gritava que aquele ato reprisava o fechamento do Parlamento durante a ditadura. Os trabalhos só foram liberados após o líder oposicionista anunciar um acordo para a votação das pautas defendidas pelo grupo, versão que foi logo desmentida: “Não houve nenhuma negociação com esse pessoal que está fazendo chantagem”, disse o petista. A queda de braço entre os dois marca a atuação da dupla desde o início do ano, quando assumiram as lideranças de seus partidos.
Do Salão Verde para fora, no entanto, o relacionamento é completamente diferente. Parceiros de longa data, os líderes mantêm uma relação fraterna, têm encontros com empresários e banqueiros e até fazem troça das disputas travadas. “Lindbergh é mais do que um amigo. É um irmão”, afirma Sóstenes. “Mas em nenhum tema ideológico a gente pensa igual, é tudo diferente. Eu o conheço desde 1992, fui do movimento estudantil e era de esquerda. Quando veio a primeira carteira de trabalho, aos 17 anos, caí fora e nunca mais quis saber da esquerda”, ironiza.
Pastor da Assembleia de Deus, Sóstenes militou pelo impeachment de Fernando Collor – o movimento dos Caras Pintadas foi puxado pelo atual líder do PT. Em 2004, mais de uma década depois, Lindbergh foi eleito prefeito de Nova Iguaçu, e ainda rendeu um cargo ao amigo Sóstenes como seu auxiliar. À época, a região da Baixada Fluminense era um reduto do petismo no Brasil. Mas, garante o bolsonarista, são outros tempos.
Em meio ao processo por tentativa de golpe, no qual Bolsonaro é apontado como o líder de uma organização que tentou uma ruptura institucional, as divergências entre os dois ficaram ainda mais nítidas. É de Lindbergh, por exemplo, a iniciativa de pedir uma investigação por tentativa de obstrução do processo – ação que foi acatada pelo STF.
Em seus discursos no plenário, o petista costuma ressaltar que o roteiro golpista continha até uma tentativa de assassinato das autoridades. “Eu disse brincando uma vez para o Sóstenes: ‘A sua situação é mais difícil que a minha’. Existe um livro que trata sobre como vencer um debate sem ter razão. Mas não tem jeito. Num debate sobre o golpe, é difícil de eles ganharem”, afirma Lindbergh.
Com a proximidade do fim do julgamento, a disputa retórica entre o petista e o bolsonarista tende a aumentar nos próximos dias. Nada, porém, que abale a amizade. Em tempos tão conturbados, a dupla dá um bom exemplo de que, apesar das diferenças, ainda é possível conviver dentro da política.





