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Polêmica sobre classificar PCC e CV como terroristas vira novo capítulo da polarização

Com isso, o país deixa de fazer um debate mais sério sobre o tema

Por Heitor Mazzoco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 mar 2026, 08h00 •
  • Uma tática comum de qualquer oposição política é não desperdiçar nenhuma chance de explorar a fraqueza do governo de ocasião. Nem sempre isso é eficaz ou, pior, representa o melhor para o país. Esse é o caso da retomada da discussão sobre se organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) devem ou não ser classificadas como grupos terroristas. O assunto veio à tona pela primeira vez há cerca de um ano, quando o governo dos Estados Unidos passou a designar os cartéis mexicanos e o Tren de Aragua, da Venezuela, como terroristas. No começo deste mês, o Departamento de Justiça sinalizou que a medida poderia ser estendida às facções brasileiras, ao afirmar em nota oficial que se trata de uma “ameaça real”. Em um esforço para conter qualquer medida unilateral, o chanceler Mauro Vieira ligou para o seu homólogo americano, Marco Rubio, para argumentar contra a ideia.

    Foi o que bastou para políticos do campo bolsonarista agarrarem a proposta para se apresentar como linha-­dura contra o crime e martelar a ideia de que a esquerda petista é leniente com bandidos. Em teoria, parece jogo ganho, já que o maior calcanhar de aquiles do governo Lula nas pesquisas de opinião é a segurança pública, justamente uma das principais preocupações dos eleitores nesta pré-campanha. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, foi o que mais explorou o assunto. Em uma de suas lives na internet, afirmou: “Lula tem pavor de decretar CV e PCC como grupos terroristas. Não é somente para proteger a sua base eleitoral de criminosos, mas, sim, para proteger a si próprio”. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, reforçou: “Nós, da direita, temos que taxar, sim, de organização terrorista o Comando Vermelho e o PCC”. Até o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse enxergar na mudança de classificação uma “oportunidade” para abrir o “caminho da cooperação” e “fazer um combate ainda mais efetivo” ao crime.

    ATAQUE - Eduardo Bolsonaro: chance de vincular Lula ao crime
    ATAQUE - Eduardo Bolsonaro: chance de vincular Lula ao crime (@bolsonarosp/Instagram)

    A expansão do PCC e do CV é, de fato, um problema sério. Quase 30 milhões de brasileiros vivem em áreas comandadas por organizações criminosas. Esses grupos se valem de violência extrema, corrompem agentes do Estado e enfronham-se em atividades legais para lavar dinheiro. Mas eles não praticam seus crimes motivados por “xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”, como está definido na lei que tipifica o terrorismo no Brasil. Existem até duas propostas na Câmara com a finalidade de alterar essa definição. Há, porém, riscos embutidos na mudança. O primeiro é que daria ao presidente americano Donald Trump uma desculpa para intervir militarmente no Brasil. O segundo é que poderia resultar em punições injustas contra empresas brasileiras. “Um banco, por exemplo, que tem entre seus clientes, sem saber, um integrante do grupo criminoso pode acabar sendo sancionado pelos Estados Unidos”, diz Roberto Goulart de Menezes, professor de relações internacionais da Universidade Nacional de Brasília (UnB). Terceiro ponto importante: a mudança não melhora em nada o combate aos bandidos. Ao contrário, pode dificultar a troca de informações sobre os criminosos entre os dois países. “O desafio nessa questão é o de encontrar um equilíbrio entre cooperação internacional contra o crime organizado e a preservação da soberania”, diz Maristela Basso, professora da Universidade de São Paulo (USP). Como mostra a especialista, um problema desse nível merece um debate mais sério.

    Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

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