Personagens ligados ao 8 de Janeiro disputam em 2026 o controle político do DF
A página dos acontecimentos que marcaram o país está longe de ser virada e promete inflamar o embate eleitoral no ano que vem
O Supremo Tribunal Federal deve concluir até o fim do ano o julgamento dos principais envolvidos na trama golpista ocorrida no governo passado. O ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como líder do movimento, já foi condenado e começou a cumprir a pena de 27 anos de prisão. Outros trinta acusados, entre eles ex-ministros e militares de alta patente, além de mais de 1 000 pessoas que participaram da invasão e depredação dos prédios do Congresso, do Planalto e do STF, também estão com o destino praticamente sacramentado. Em tese, os últimos julgamentos marcariam o fim desse capítulo deplorável da história. O que se desenha, porém, é justamente o contrário. Mais de três anos depois, a baderna na Praça dos Três Poderes vai ser tema da campanha do presidente Lula, que tentará o quarto mandato, de seu adversário, quem quer que seja, e estará presente de corpo e alma nos embates que serão travados na capital federal. Brasília terá como candidatos personagens importantes que estiveram diretamente envolvidos nos acontecimentos do dia 8 de janeiro.
O governador Ibaneis Rocha (MDB), por exemplo, estava tirando uma “soneca” naquela fatídica tarde de domingo, enquanto manifestantes avançavam sobre a Praça dos Três Poderes. Acusado de omissão, ele passou pelo constrangimento de ser afastado do cargo por ordem do Supremo. A vice-governadora Celina Leão (PP) assumiu o lugar dele pelos dois meses seguintes. Na época, o governo federal, suspeitando de conivência das forças policiais com os ataques, decretou uma intervenção na segurança pública do Distrito Federal e nomeou como interventor o jornalista Ricardo Cappelli (PSB), então secretário-executivo do Ministério da Justiça. Ele coordenou as tensas negociações que resultaram na prisão dos manifestantes acampados em frente do quartel-general do Exército, foi responsável pelo afastamento da cúpula da Polícia Militar e, por causa de sua atuação, conquistou certa notoriedade política, particularmente em setores da esquerda local. Os três vão enfrentar as urnas em outubro de 2026.
Em seu segundo mandato, Ibaneis Rocha vai disputar uma vaga no Senado, Celina Leão é candidata a lhe suceder e Cappelli tenta liderar uma frente de esquerda para chegar ao Palácio do Buriti. O ex-interventor, inclusive, já fala como candidato. “O 8 de Janeiro é o meu cartão de apresentação, uma marca de organização, mas não será minha pauta principal de campanha. A agenda que eu quero debater é o caos na saúde, o colapso da educação e abandono das cidades do DF”, afirma ele, que hoje ocupa o cargo de presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Não será uma missão muito fácil. As urnas de Brasília foram amplamente favoráveis ao bolsonarismo nas últimas duas eleições. Favorita, segundo as pesquisas, a vice-governadora conta com o apoio declarado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que deve concorrer ao Senado pela capital. As duas têm como bandeiras a anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro.
A menos de um ano das eleições, evidentemente que tudo pode mudar. Antes de se apresentar como candidato da esquerda, Cappelli terá de vencer obstáculos em seu próprio campo político. O principal deles é convencer o PT a apoiá-lo. O partido já tem como pré-candidato o ex-deputado distrital Leandro Grass, que hoje comanda o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão responsável pela restauração das obras de arte destruídas no 8 de Janeiro. Tanto o lado de Cappelli quanto o de Grass acreditam numa solução que passe pela desistência de um deles para unificar o campo progressista. Há ainda um quarto personagem se apresentando para a disputa e que também promete usar o 8 de Janeiro em seu favor.
O ex-governador José Roberto Arruda está em campanha para tentar voltar ao cargo e aparece bem colocado nas pesquisas. Condenado por corrupção no “mensalão do DEM”, ele ainda precisará driblar os entraves judiciais e políticos que podem inviabilizar sua candidatura. Sem partido, Arruda deixou o PL de Jair Bolsonaro no início de outubro após a legenda definir o apoio a Celina Leão. “Eu sou o único candidato que não está metido nessa confusão, um episódio lamentável, que maculou a imagem de Brasília, mostrou a incompetência de alguns políticos da cidade e revelou uma falha inacreditável de nossas forças de segurança”, alfineta. A página do 8 de Janeiro está longe de ser virada e promete inflamar o embate eleitoral no ano que vem.
Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2025, edição nº 2973





