Os efeitos politicamente desastrosos do desfile em homenagem a Lula no Rio
Folia alimentou o discurso da oposição e ainda deixou o presidente na mira da Justiça Eleitoral
Tudo parecia pronto para exaltar Lula na primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O prefeito da cidade, Eduardo Paes (PSD), colocou um camarote com capacidade para 500 pessoas à disposição dos convidados do presidente, incluindo uma sala vip para ele e a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. O clima era de beija-mão, com ministros e parlamentares fazendo fila para tirar fotos com o petista, homenageado pela Acadêmicos de Niterói. O samba-enredo também estava na ponta da língua dos aliados. O menu do espaço reservado incluía uísque, cerveja, gim, vodca, queijo de cabra e salmão. A expectativa era de festa, mas a folia acabou de forma melancólica na Quarta-Feira de Cinzas. A Acadêmicos de Niterói foi rebaixada com sua ode ao presidente. Já Lula não foi vaiado, como temiam seus assessores, mas testemunhou um desfile desastroso politicamente, principalmente por contrariar conservadores e evangélicos. Na ressaca do Carnaval, ele ainda poderá enfrentar problemas com a Justiça Eleitoral.
De camarote, a oposição gostou do que viu. Consolidado nas pesquisas como o principal adversário de Lula na corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) comemorou o fracasso da Acadêmicos de Niterói e seu homenageado: “Lula é sempre uma ideia ruim, seja para governar o país, seja para um samba-enredo. O próximo rebaixamento vai ser do Lula e do PT”, provocou o Zero Um numa rede social. Em linha com a cartilha petista, o desfile também reservou um lugar de destaque — negativo, obviamente — para Jair Bolsonaro. Na comissão de frente da escola, um ator com máscara do palhaço Bozo fez gestos imitando armas com as mãos e flexões de braço mal executadas, em referência direta ao capitão. Na parte traseira de um carro alegórico, havia um grande palhaço com roupa de presidiário, sentado atrás das grades, usando uma tornozeleira eletrônica em uma das pernas. “Está claro que houve abuso de poder político e econômico”, afirma o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN).
Coordenador da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, Marinho comparou a situação com as sentenças do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que condenaram o ex-presidente à inelegibilidade por abuso de poder, uma delas com base em uma reunião com embaixadores de países estrangeiros para desacreditar as urnas eletrônicas. “Isso não chega nem perto da repercussão do desfile”, diz o líder oposicionista. “Se isso não é motivo de punição, não tenho dúvidas de que o que aconteceu com Bolsonaro foi um excesso que deve ser corrigido.” A VEJA um ministro do TSE disse que “provavelmente” houve propaganda eleitoral antecipada no desfile. Ele ponderou, contudo, ser cedo para determinar “a extensão e a gravidade” de supostos crimes eleitorais, o que demandará investigação formal e produção de provas. Para o advogado eleitoral Thiago Boverio, houve no mínimo “condescendência” do potencial candidato Lula, que usufruiu eleitoralmente do evento. “Em nada influencia o fato de a escola ter sido rebaixada. O cenário do impacto eleitoral não diminui com o insucesso, mas seria ainda mais amplo se ganhasse, em razão de uma maior divulgação”, argumenta.
Punido pelo júri, o desfile também não agradou à população. Um levantamento da plataforma Brandwatch em redes sociais, portais de notícias e demais ambientes digitais abertos mostrou que a homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula despertou sentimento negativo em 39% das publicações analisadas, com 35% de sentimento positivo e 26% de sentimento neutro. Os posts críticos recorreram, majoritariamente, a argumentos jurídicos, acusando o petista justamente de propaganda eleitoral antecipada. Antes mesmo de o enredo desandar na avenida, a oposição já usava o caso para desgastar Lula. Pré-candidato à Presidência, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), conseguiu dezenas de milhões de visualizações com um vídeo, feito por inteligência artificial, apresentando um samba-enredo questionando “cadê a picanha?”, numa referência a uma promessa da última campanha do presidente.
Na avenida, a Acadêmicos de Niterói dedicou uma ala aos chamados “neoconservadores”, que trazia fantasias ironizando a “família tradicional”, com um homem, uma mulher e os filhos dentro de uma lata de conserva. No livreto oficial das escolas distribuído aos jurados, o carnavalesco da Acadêmicos de Niterói, Tiago Martins, declarou sua intenção de enquadrar os evangélicos como parte de “um bloco conservador que defende pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação às Forças Armadas, interesses do agronegócio e dos valores tradicionais da família” no Congresso. A iniciativa causou indignação em evangélicos. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que vai usar imagens das alegorias e fantasias para explorar críticas ao “preconceito religioso”. A bancada evangélica no Congresso disse que o “ataque” foi financiado com dinheiro público federal, “obrigando o cidadão cristão a custear a própria humilhação”. É verdade que todas as escolas de samba da elite carioca receberam 1 milhão de reais da Embratur, vinculada ao Ministério do Turismo, mas nenhuma delas fez como a Niterói, usando o dinheiro para louvar o presidente.
A frente parlamentar também prometeu acionar a Procuradoria-Geral da República em busca da responsabilização cível e criminal dos envolvidos, declarando que não aceitará que “a fé da maioria dos brasileiros seja tratada como objeto de sátira em troca de palanque político”. O samba desafinou justamente num momento em que Lula tentava se aproximar dos evangélicos. Pesquisa Genial/Quaest divulgada no início de fevereiro mostrou que, entre eleitores evangélicos, 61% desaprovam o governo Lula, e só 34% declaram aprová-lo. Entre os católicos, são 52% os que aprovam e 42% os que desaprovam o trabalho do presidente. No geral, 49% desaprovam o governo, contra 45% que o aprovam.
Dentro do governo houve quem tentasse minimizar os danos. Assessores de Lula alegaram que ele não tinha ingerência sobre as decisões da escola, o que não é completamente verdade, já que, a pedido do presidente, a palavra “soberania” foi incluída no samba-enredo. Nos salões do Planalto, vende-se a ideia de que o saldo foi positivo. Nas ruas, onde realmente importa, a percepção é outra. Lula, que esperava protagonizar mais um grande ato de exaltação e glorificação, colheu uma tremenda propaganda negativa.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983






