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O medo que move os senadores na CPI do Crime Organizado

Colunista Robson Bonin analisa a nova comissão, criada após a megaoperação no Rio, e aponta riscos de politização e de esvaziamento das investigações

Por Marcela Rahal Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Robson Bonin Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 nov 2025, 13h42 • Atualizado em 4 nov 2025, 14h02
  • A instalação da CPI do Crime Organizado, aprovada no Senado, nasceu sob o signo do medo — e da conveniência eleitoral. A avaliação é do colunista de VEJA, Robson Bonin, que comentou o tema no programa Ponto de Vista, apresentado por Marcela Rahal, nesta terça-feira (4).

    Segundo Bonin, a criação da comissão é uma reação direta à forte repercussão da megaoperação policial no Rio de Janeiro, que colocou o tema da segurança pública no centro da agenda política e revelou a inércia de Brasília diante da escalada do crime organizado.

    “Essa CPI nasceu do desespero da classe política. Quando o senador Alessandro Vieira apresentou o requerimento, ele mesmo admitiu que o texto estava engavetado há meses. Faltava coragem — até o medo de perder a eleição falar mais alto do que o medo de enfrentar o crime”, afirmou Bonin.

    De um tema esquecido à urgência eleitoral

    O colunista lembrou que o requerimento da CPI estava parado no Senado havia meses, mas voltou à pauta após a operação que deixou mais de 120 mortos nas comunidades da Penha e do Alemão. A pressão veio de todos os lados: da opinião pública e dos políticos, temerosos de parecer omissos em um ano pré-eleitoral.

    “Os senadores estavam com medo de participar de uma CPI que investiga facções criminosas. Mas agora o medo de perder voto superou o medo das facções”, resumiu Bonin.

    O movimento, avalia o jornalista, é claramente político: a classe política tenta mostrar serviço em uma das áreas que mais preocupa os brasileiros — a segurança pública, hoje o segundo tema mais citado nas pesquisas de opinião, atrás apenas da economia.

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    CPI sob risco de esvaziamento

    Apesar da promessa do relator designado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), de “evitar a politização”, Bonin alerta que nenhuma CPI escapa da disputa partidária — e que, neste caso, o risco é ainda maior.

    “Toda CPI é uma investigação política. O Senado quer dar uma resposta simbólica à população, mas não parece disposto a enfrentar o cerne do problema. Por exemplo, não querem ouvir líderes de facção como Marcola ou Marcinho VP. Então que tipo de CPI é essa?”, questionou.

    O colunista aponta que a comissão deve se limitar a debates técnicos e institucionais, evitando qualquer tema que possa gerar constrangimento político.

    “Ao que tudo indica, não teremos o ‘Marcola na TV Senado’. O que veremos é uma CPI de fachada, com muita teoria e pouca coragem”, criticou.

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    A face nacional da crise da segurança

    Bonin ressaltou ainda que a insegurança deixou de ser um problema localizado e se tornou uma tragédia nacional, com facções controlando áreas em vários estados.

    “O Rio institucionalizou o domínio do crime em partes do território. E agora vemos o mesmo cenário se repetir em Fortaleza, no Ceará, onde facções expulsam moradores de suas casas e impõem suas próprias leis”, disse.

    O jornalista destacou que o avanço das facções e a ausência de uma resposta efetiva do Estado alimentam o sentimento de abandono e a demanda por soluções imediatas — mesmo que radicais.

    O desafio: evitar a desmoralização

    Para Bonin, o sucesso da CPI dependerá da disposição dos senadores em enfrentar o problema de frente, sem ceder ao cálculo eleitoral.

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    “O risco é que essa CPI se torne mais uma vitrine política, dessas que começam com discursos inflamados e terminam desmoralizadas, sem punição e sem resultado”, alertou.

    Ele concluiu com uma observação ácida sobre o clima em Brasília:

    “No fundo, o que moveu essa CPI não foi a coragem de enfrentar o crime — foi o medo de perder voto. E esse é sempre o pior combustível para se fazer política de segurança.”

    A CPI do Crime Organizado surge como resposta tardia e politicamente conveniente à pressão popular por segurança. Mas, como alerta Bonin, sem coragem para ouvir os protagonistas do crime ou investigar suas conexões com a política, a comissão corre o risco de morrer antes mesmo de começar — vítima do mesmo medo que a criou.

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