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O drama familiar

Separados de vez pela Lava Jato, Emilio e Marcelo Odebrecht não se falam mais

Emílio e Marcelo Odebrecht, pai e filho, comandaram por vinte anos a maior empreiteira do Brasil. Os dois também operaram a maior e mais bem organizada estrutura de corrupção já descoberta na história do capitalismo, segundo a Transparência Internacional. Calcula-se que, em pouco mais de uma década, a empresa tenha pago 788 milhões de dólares (3 bilhões de reais) em propinas em doze países. Era um esquema tão sofisticado que a organização tinha até um banco em Antígua, no Caribe, só para movimentar o dinheiro sujo. O esquema veio à luz quando os dois revelaram seus segredos — naquele que também é conhecido como o maior acordo de delação do planeta.

O pai vai cumprir pena de quatro anos de prisão domiciliar. Marcelo, condenado a 47 anos, está nesse regime desde 2017. Donos de um patrimônio que já atingiu 12 bilhões de reais, Marcelo e o pai nunca se entenderam bem. A Lava-Jato os separou de vez. Desde que o nome da empreiteira surgiu no escândalo, Emílio queria fazer um acordo com o Ministério Público. No início das investigações, os advogados chegaram a discutir na Procuradoria-­Geral da República a possibilidade de um acordo que previa o pagamento de uma multa bilionária e preservava diretores e sócios da empresa. A negociação vazou. Marcelo foi apontado como o autor do vazamento.

Emílio achava que o acordo era o melhor caminho para salvar a empresa, mas o filho defendia uma estratégia mais ousada: buscar o apoio do ex-presidente Lula e da então presidente Dilma Rousseff para blindar a empreiteira. Marcelo acreditava que a amizade de seu pai com Lula poderia evitar o pior. O avanço das investigações, porém, inviabilizou qualquer plano heterodoxo e, em 2016, os executivos e sócios fecharam a delação, que envolveu mais de quatro centenas de políticos por recebimento de propina e caixa dois, incluindo os ex-­presidentes Lula, Dilma e Temer.

Hoje, pai e filho não se falam mais. Emílio vive praticamente recluso em Salvador, na Bahia. Marcelo está confinado num condomínio em São Paulo. Sua rotina reveza a prática de exercícios físicos com a análise de documentos da empresa. Ele acredita que ainda conseguirá garimpar novas provas de corrupção e, com elas, negociar mais benefícios com a Justiça. Seu sonho é voltar a dar as cartas na Odebrecht — mas, antes disso, quer minar a influência que o pai ainda exerce na empresa. No fim do ano passado, a central de monitoramento da Vara de Execuções Penais recebeu o alerta de que a tornozeleira eletrônica de Marcelo havia sido removida, um indício de fuga. A polícia foi imediatamente acionada. Era apenas um alarme falso.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2019, edição nº 2629

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