O circo chinês

Antes mesmo da estreia no Congresso, parlamentares do PSL são impiedosamente criticados pela própria base por causa de uma viagem à China

Por Eduardo Gonçalves - 25 jan 2019, 07h00

O ano legislativo ainda nem começou, mas a novata bancada do PSL — a segunda maior da Câmara — já está em pé de guerra. Uma comitiva com onze deputados (dez do PSL e um do DEM) e uma senadora do PSL fez uma viagem à China, no dia 15 de janeiro, e foi metralhada por críticas de seus correligionários. Bancada pelo governo chinês, a viagem, que se encerra nesta sexta-feira 25, foi organizada por dois assessores do gabinete do deputado Alexandre Frota — que só não se juntou ao passeio porque sua mulher está prestes a ter um filho. Os parlamentares da bancada governista se maravilharam com a internet 5G, ilhas artificiais, o trem-bala movido a energia solar e outros portentos tecnológicos produzidos pelo que um dos viajantes definiu como “socialismo light”. Mas, na quarta-feira 16, Olavo de Carvalho, em seu influente canal no YouTube, cismou com a tecnologia de reconhecimento facial da Huawei que os deputados iriam experimentar um dia depois. O filósofo de O Jardim das Aflições disse que trazer o sistema para o Brasil seria abrir o país à tecnologia chinesa de “controle comportamental”. Nas redes sociais, bolsonaristas radicais caíram sobre a comitiva brasileira na China.

O ORIENTADOR – Olavo de Carvalho com Junio Amaral (à esq.) e Steve Bannon

O ORIENTADOR – Olavo de Carvalho com Junio Amaral (à esq.) e Steve Bannon //Reprodução

Segunda maior vendedora de celulares do mundo, a Huawei, de fato, tem um histórico caviloso: foi acusada de espionagem nos Estados Unidos, e um de seus diretores foi preso recentemente na Polônia. Mas a empresa atua no Brasil há vinte anos e fornece equipamentos de sinal 3G e 4G a companhias de telecomunicação brasileiras — se o objetivo era espionagem, ela já está mais do que bem posicionada e não precisaria do reconhecimento facial, até porque a China ajudou a construir alguns satélites em operação no Brasil. Mas que importa? O barraco transcontinental já estava armado, e a fábrica de fake news andava a todo o vapor, fazendo circular montagens em que os deputados posam em frente a um painel com os rostos de Mao, Lenin e Marx. A deputada Carla Zambelli foi até ameaçada de morte com tiro de fuzil. Vinicius Aquino, assessor de Frota que cultiva a proximidade com diplomatas da embaixada chinesa no Brasil (“Vou à festa de aniversário deles”), foi levianamente acusado de tráfico de drogas, crime punível com pena de morte na China.

Com a defasagem do fuso horário e as dificuldades para driblar o controle da internet na China, os deputados demoraram a se inteirar da virulência dos ataques que receberam no Brasil. Carla Zambelli lamentou a falta de unidade da direita: “Fomos oposição por muito tempo. Sabemos brigar e xingar adversários, mas não construir algo em conjunto”. Ela até cogitou voltar mais cedo ao país, mas foi demovida pelos companheiros. Por WhatsApp, o grupo pediu que o presidente Jair Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo defendessem a excursão chinesa — mas não houve manifestação pública de nenhum dos dois. Marcado com antecedência, um compromisso com o embaixador brasileiro na China, Paulo Estivallet de Mesquita, só não foi cancelado porque os parlamentares insistiram em mantê-­lo. Durou pouco menos de uma hora, e o embaixador recusou posar para fotos com o grupo. “Fomos tratados como adolescentes em um passeio sem autorização dos pais”, queixa-se o deputado Luis Miranda, do DEM.

Bem mais tranquila foi, dias antes, outra viagem internacional de membros do PSL: cinco deputados estiveram nos Estados Unidos — pagando do próprio bolso, garantem — para ouvir, em Richmond, na Virgínia, orientações de Olavo de Carvalho sobre como não ser um “parlamentar geleia”, que se rende ao politicamente correto, conforme definiu Heitor Freire, deputado cearense presente ao curso. “Olavo diz coisas que vão me nortear não só no Parlamento, mas na vida”, afirma Freire. “É  o maior filósofo da história do Brasil”, ecoa o cabo Junio Amaral, também presente às aulas. Na sexta-feira 18, Olavo teve um encontro com Steve Bannon, o grande estrategista da nova direita americana. O brasileiro explicou ao americano que seus cursos de filosofia se desenvolvem “em espiral”, sem um método rígido. Bannon disse que nesse ponto divergia de Olavo: é preciso método, afirmou. Até para a loucura, alguém poderia acrescentar.

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Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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