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Os bastidores da entrada do Centrão na poderosa Casa Civil de Bolsonaro

Considerado pelos bolsonaristas mais radicais como símbolo da velha política, o grupo se prepara para se amarrar ao Planalto — e vice-versa

Por Daniel Pereira Atualizado em 23 jul 2021, 08h36 - Publicado em 23 jul 2021, 06h00

Em 2018, o candidato à Presidência Jair Bolsonaro prometia acabar com a “velha política” e jamais negociar com líderes de partidos, que estariam acostumados a mercadejar apoio com o governo de turno em troca de cargos e recursos públicos. Na convenção do PSL, legenda a que o ex-capitão se filiou para disputar a eleição daquele ano, o general Augusto Heleno, atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, deixou claro que o alvo a ser batido era o chamado Centrão, comparado por ele a um grupo de ladrões. Passados três anos, a relação entre esses personagens mudou completamente. Hoje, o candidato à reeleição Jair Bolsonaro tem no Centrão a sua principal base aliada no Congresso, com a qual conta para aprovar projetos, garantir alguma estabilidade política e, de quebra, impedir o avanço de pedidos de impeachment. A fim de selar a aliança entre as partes, o presidente fez exatamente o que dizia repudiar e distribuiu a siglas como PP, PL e Republicanos o comando de estatais e até de ministérios. Agora, Bolsonaro se prepara para a concessão definitiva: empossar o Centrão na poderosa Casa Civil, que desde fevereiro do ano passado é comandada por generais.

REFORÇO - Faria: o ministro das Comunicações anunciou que vai se filiar ao PP -
REFORÇO - Faria: o ministro das Comunicações anunciou que vai se filiar ao PP – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na terça-feira 20, o presidente telefonou para o senador Ciro Nogueira (PI), comandante do PP, para sondá-lo sobre a possibilidade de ele assumir a Casa Civil, que é responsável por coordenar o trabalho de todos os ministérios e, por isso, é geralmente chefiada por pessoas da extrema confiança do mandatário da vez. No primeiro mandato de Lula, a pasta foi confiada a José Dirceu e, depois, a Dilma Rousseff. Na gestão de Michel Temer, a Eliseu Padilha, a quem cabia costurar e chancelar os acordos de coxia dos deputados do MDB. Ciro Nogueira, que estava no exterior ao receber o telefonema do presidente, já havia sido sondado meses atrás, mas as conversas para que ele assumisse um posto no governo não evoluíram. Até o fechamento desta edição, a ideia era remanejar o general Luiz Eduardo Ramos da Casa Civil para a Secretaria-Geral da Presidência, hoje sob a batuta de Onyx Lorenzoni, que assumiria uma nova pasta a ser criada. Se esse roteiro for seguido à risca, os generais terão de bater continência para Ciro Nogueira, o novo capitão do time. Sorte de Bolsonaro que Heleno já disse ter mudado de opinião sobre aqueles que antes demonizava.

A rendição definitiva de Bolsonaro à política que um dia repudiou ocorre no pior momento vivido pelo presidente desde a sua posse. Pesquisas mostram que metade da população reprova a sua gestão. Nas sondagens eleitorais, o ex-capitão aparece atrás de Lula nas simulações de primeiro e segundo turnos. Os catalisadores do desgaste presidencial, como as crises econômica e sanitária, ainda não foram debelados. Mesmo com a pandemia, houve manifestações de rua contra Bolsonaro. A possibilidade de impeachment também está de volta às conversas de políticos. Bolsonaro sofre pressão de todos os lados e, acossado, aposta as fichas no Centrão, que foi decisivo tanto para derrubar Dilma Rousseff quanto para evitar a destituição de Temer. O convite a Ciro Nogueira é uma tentativa de amarrar de vez o aliado à armada governista (e manter o presidente no cargo).

AGRADO - Flávia Arruda: nomeação para melhorar relações com o Congresso -
AGRADO - Flávia Arruda: nomeação para melhorar relações com o Congresso – Marcos Corrêa/PR

Político com atuação destacada no bastidor, Ciro Nogueira apoiou os últimos ocupantes do Palácio do Planalto e pretende estar ao lado dos próximos, independentemente de qual espectro ideológico eles sejam. Foi ele quem acertou com Bolsonaro, em meados do ano passado, o ingresso do Centrão no governo. A reunião entre os dois foi intermediada pelo senador Flávio Bolsonaro (Patriota-­RJ). O Zero Um e o “Zero Cinco”, apelido do qual Ciro Nogueira diz não gostar, tornaram-se parceiros inseparáveis, a ponto de serem padrinhos das indicações de Nunes Marques para o Supremo Tribunal Federal (STF) e da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo. O presidente quer que a dupla e a efetivação de Ciro Nogueira na Casa Civil melhorem a relação do Planalto com o Senado, que votará as indicações de Augusto Aras para um novo mandato na Procuradoria-Geral da República e de André Mendonça para o STF. A ascensão do líder do Centrão também pode ajudar Bolsonaro a resolver dois de seus problemas. Um deles é encontrar um partido que abrigue seus principais aliados. O PP está de portas abertas para receber essa turma. O ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD), por exemplo, já anunciou que deve ingressar na sigla.

O outro problema de Bolsonaro é contar na campanha eleitoral com a aliança formal de legendas de médio e grande portes, a fim de garantir acesso a boas fatias da propaganda eleitoral e da bolada do fundo eleitoral. O PP de Ciro Nogueira tem esses ativos. O senador não gosta da pecha de “Zero Cinco”, mas não descarta a possibilidade de ser o Zero Dois nas urnas. Quando fala de sucessão presidencial, ele costuma dizer que um bom perfil de vice para Bolsonaro é alguém exatamente como ele — do Nordeste e de uma sigla forte.

Publicado em VEJA de 28 de julho de 2021, edição nº 2748

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