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Novos movimentos elevam tensão entre Tarcísio e Flávio para definir quem vai enfrentar Lula

A decisão do governador de São Paulo de adiar encontro com Bolsonaro expõe desconforto com a candidatura do filho de ex-presidente

Por Laísa Dall'Agnol Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Isabella Alonso Panho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Pedro Jordão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 jan 2026, 06h00 • Atualizado em 23 jan 2026, 11h17
  • O complexo, arrastado e tenso desafio de xadrez entre o clã Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ganhou, em um espaço de 48 horas, lances que chacoalharam o tabuleiro. Tudo começou na segunda-feira 19, quando Jair Bolsonaro pediu para receber o político do Republicanos na Papudinha, em Brasília, onde está preso por tentativa de golpe de Estado. No dia seguinte, o governador celebrou a autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF, “satisfeito de ele ter me dado essa oportunidade, porque vou lá visitar um grande amigo”. O meio político ferveu porque uma parte especulava se o capitão teria mudado de ideia e decidido apoiar o aliado em vez de Flávio Bolsonaro para a Presidência. O primogênito, na mesma terça-feira, quis tirar qualquer dúvida: “Tarcísio vai ouvir da boca de Bolsonaro que está fazendo um grande trabalho como governador e que sua reeleição é fundamental para a estratégia nacional de derrotar o PT. Eleições presidenciais estão descartadas para ele”, disse. Horas depois, Tarcísio citou “o cumprimento de compromissos em São Paulo” e desmarcou a visita.

    A sequência de lances deixou claras duas constatações. A primeira é que Tarcísio não desistiu de disputar a Presidência e que, por isso, não iria receber o “beijo da morte” de Bolsonaro no encontro na prisão. Preferiu ganhar tempo — tem até o início de abril — porque a política pode mudar rápido. A segunda certeza é que a sua relação com o clã dificilmente será a mesma. A família Bolsonaro se calou sobre o gesto, mas a sua legião de apoiadores tratou de espalhar que era necessário, mais do que nunca, dar tração à candidatura de Flávio, inclusive buscando um palanque próprio ao governo de São Paulo, o estado que abriga um quinto do eleitorado do país.

    INDICAÇÃO - O ex-presidente: escolha de coordenador da campanha do filho foi divulgada logo após o cancelamento da visita
    INDICAÇÃO - O ex-presidente: escolha de coordenador da campanha do filho foi divulgada logo após o cancelamento da visita (Sergio Lima/AFP)

    O desfecho aprofunda uma desconfiança antiga do bolsonarismo com Tarcísio. Capitão da reserva do Exército, como Bolsonaro, além de engenheiro, o governador fazia carreira pública como um técnico com capacidade reconhecida quando Bolsonaro o levou a ser ministro da Infraestrutura e depois o tirou da cartola para ganhar o comando de São Paulo em 2022. Desde então o bolsonarismo sempre esperou que Tarcísio agisse com a maior fidelidade possível, abrindo espaço no Palácio dos Bandeirantes para os aliados e comprando todas as suas bandeiras, inclusive as radicais. Tarcísio se equilibrou com acenos pontuais ao capitão, mas tentou mostrar a face de gestor eficiente, que prioriza o enxugamento do Estado e a visão liberal na economia, temas que podem levá-­lo a atrair um eleitorado mais amplo.

    É exatamente essa a guerra decisiva que vai se travar agora. Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira mostra que Flávio avançou em intenções de voto desde que lançou sua candidatura em dezembro e que tem índices parecidos com os de Tarcísio, mas a sua rejeição é uma das maiores — mais de 6 pontos superior à do concorrente, o que pode ser decisivo numa eleição apertada como a que se desenha para outubro. “A rejeição do Flávio é equivalente à do Lula. Ao mesmo tempo que o nome Bolsonaro larga bem nas pesquisas, porque tem recall e uma parcela muito leal do eleitorado, ele também tem seu próprio limite”, avalia o cientista político Eduardo Grin, da FGV. A leitura dos aliados de Tarcísio é que ele teria mais campo para avançar ao centro e capacidade maior para atrair partidos grandes, com dinheiro e tempo de TV, como as siglas do Centrão, PSD e MDB, que hesitam em emprestar apoio a Flávio, assim como amplos setores do mercado financeiro, do agronegócio e do empresariado.

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    PRESSÃO - O senador do PL: palanque forte em São Paulo é fundamental para o projeto presidencial do Zero Um
    PRESSÃO – O senador do PL: palanque forte em São Paulo é fundamental para o projeto presidencial do Zero Um (Evaristo Sa/AFP)

    Nos últimos dias, Tarcísio dedicou-se a articular com ministros do Supremo, como Moraes e Gilmar Mendes, um alívio nas condições carcerárias de Bolsonaro. Para surpresa de alguns, fez dobradinha com a ex-­primeira-dama Michelle Bolsonaro, que conversou com os magistrados e adotou uma postura mais moderada no trato com o STF, o que a diferencia totalmente do comportamento de Flávio e seus irmãos Carlos e Eduardo. A articulação foi vista como um movimento não só para obter a prisão domiciliar do ex-presidente, como para consolidar a imagem de que Tarcísio e Michelle podem formar a melhor dupla para representar a direita em outubro. A ex-primeira-dama, aliás, não tem manifestado apoio a Flávio. Tarcísio, por sua vez, fez até agora só declarações protocolares a respeito da candidatura do Zero Um.

    Emissários do governador atuam nos bastidores para tentar virar o jogo. Um deles é Diego Torres Dourado, irmão de Michelle e ex-assessor de Tarcísio, que vai visitar Bolsonaro no próximo dia 28. Também com acesso privilegiado ao ex-presidente, o bispo Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra, é entusiasta de Tarcísio, embora não descarte Flávio. Ele foi autorizado por Moraes a visitar Bolsonaro com frequência para lhe dar assistência espiritual, indicado por outro apoiador de Tarcísio, o pastor Silas Malafaia, que não pode falar com Bolsonaro porque é investigado em processo no STF.

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    arte Tarcísio

    Rodovalho, que conhece Bolsonaro há cerca de vinte anos e que foi seu companheiro como deputado entre 2007 e 2010, diz que viu o ex-presidente pela última vez em dezembro, quando o achou “preocupantemente debilitado”. Ele afirma estar “empenhado em ajudar na eleição”, conta que vai se encontrar com Flávio no final do mês e que, embora veja potencial, acha que a candidatura do Zero Um “não é tão fácil quanto seria com o presidente Bolsonaro, que já tem uma aceitação”. Ele diz que Tarcísio governa um estado grande e pontua bem nas pesquisas, o que faz dele um nome bastante competitivo. “Se Flávio sair (da disputa), Tarcísio será um grande nome”, afirmou Rodovalho a VEJA.

    Logo após o imbróglio da visita de Tarcísio, o senador postou montagem de IA dele ao lado do pai, com um jingle em ritmo de funk que dizia: “O capitão voltou, em 2026 o Brasil confirmou, é o Flávio, é o Flávio o novo presidente”. O clipe mostrava a última pesquisa com a curva ascendente de intenção de voto. Além disso, anunciou que o senador Rogério Marinho (PL) desistiu de disputar o governo do Rio Grande do Norte para ser o coordenador da sua candidatura e dos palanques nos estados. Marinho, que ainda tem mais cinco anos de mandato, diz que renunciou a seu projeto político a pedido de Jair Bolsonaro. “Neste momento difícil, ele me pede que me some à luta do seu filho Flávio, para que juntos possamos resgatar o país”, afirma.

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    ESTRATÉGIA - Michelle: aproximação com Tarcísio e divergência com enteados
    ESTRATÉGIA - Michelle: aproximação com Tarcísio e divergência com enteados (PL Mulher/.)

    A postura da cúpula do PL e do núcleo próximo ao clã depois do episódio foi a de não botar lenha na fogueira. Um cacique graúdo da legenda afirma que o governador de São Paulo não vai “fazer um papelão de se indispor com Bolsonaro” e que qualquer briga “é péssima para ambos”. Essa mesma liderança diz que as últimas pesquisas consolidaram o nome de Flávio e que a chapa “Tarcísio/Michelle é assunto encerrado no PL”. Do lado do governador, a ordem é seguir articulando até abril, na convicção de que Flávio será “desistido” pelo próprio Bolsonaro, porque o ex-presidente vai se dar conta de que o governador é o melhor nome para derrotar Lula pela direita. Até quinta-feira 22, Tarcísio esperava por uma nova data para visitar Bolsonaro.

    Há outros candidatos tentando trafegar pela pista da direita e eles podem ser decisivos nessa equação. Com Tarcísio no páreo seriam menores as chances de fragmentação, já que ele poderia atrair governadores como Ratinho Jr. (Paraná) e Romeu Zema (Minas Gerais), coisa que Flávio dificilmente conseguiria. Na última semana, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, repostou discurso do governador gaúcho, Eduardo Leite (PSD), sobre a possibilidade de a sigla ter candidato ao Planalto. “Se Tarcísio se apresentar, há uma chance real de apoiarmos. Quando Flávio se apresenta, aumentam as chances de o PSD ter candidato”, disse Leite. Para o diretor de risco político da AtlasIntel, Yuri Sanches, a disputa na pré-campanha, por ora, não é contra Lula, mas dentro da direita. “É sobre quem será capaz de encarnar, de forma mais convincente, o desejo de mudança de parte do eleitorado. O crescimento de Flávio sinaliza força, mas também evidencia o desafio de unificar um campo político ainda fragmentado”, afirma.

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    DE OLHO - Kassab: sem Tarcísio, cacique indica que o PSD lançará um nome da sigla para o Planalto
    DE OLHO – Kassab: sem Tarcísio, cacique indica que o PSD lançará um nome da sigla para o Planalto (Yuri Murakami/f2.8 news/Folhapress/.)

    Desde que Jair Bolsonaro começou a ter uma nova candidatura posta em xeque por seguidas condenações judiciais, a grande pergunta sempre foi sobre quem levará a bandeira da direita, que arrastou ao menos metade do eleitorado em 2018 e 2022. Partidos mais ao centro alimentaram a perspectiva de uma aliança que unificasse a oposição, com o apoio de Bolsonaro, mas sem um Bolsonaro encabeçando a chapa. “O sonho de consumo de Kassab e do Centrão era domesticar o bolsonarismo”, pontua Grin. Esses dois grupos dentro do mesmo campo político vêm desde então fazendo lances discretos no tabuleiro da sucessão. Os movimentos acentuados da última semana, alguns até surpreendentes, mostram que o jogo ganhou tensão, mas segue truncado e longe do fim.

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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