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‘Nossos intelectuais toleraram corrupção explícita’, diz ex-ministro do PT

Em livro, Cristovam Buarque diz que governos Lula e Dilma deixaram o Estado ser capturado por empreiteiras, políticos, sindicatos e servidores públicos

Por Hugo Marques - 26 nov 2019, 17h30

O título do novo livro do ex-senador Cristovam Buarque diz tudo: Por que falhamos – O Brasil de 1992 a 2018. E diz tudo na primeira pessoa do plural: nós. Cristovam propõe uma autocrítica em nome da esquerda brasileira. Ele foi do PT por 15 anos, chegou a ser governador do Distrito Federal, e só saiu do partido em 2005, depois de ser defenestrado do Ministério da Educação pelo presidente Lula. Ele então passou pelo PDT e hoje está no PPS.

No livro, Cristovam aponta 24 erros dos governos que se diziam “de orientação progressista e democrática”. Um dos focos do livro é o sexto erro, um capítulo que se chama: Permitimos o domínio da corrupção. Para Cristovam, quem mais tinha a função de pensar era quem mais deixava tudo acontecer. “Nossos intelectuais toleraram de maneira subserviente a corrupção explícita”, escreve o professor. Numa conversa com VEJA, ele acrescenta vários exemplos dessa subserviência: “Deixamos construir um estádio de 2 bilhões de reais (Estádio Mané Garrincha, em Brasília, erguido durante o governo do petista Agnelo Queiroz) e as universidades não fizeram nenhum protesto contra a corrupção”.

As críticas mais fortes são direcionadas a Lula e ao PT, principalmente durante as eleições de 2018, quando o ex-presidente, já condenado, insistiu em ser candidato à Presidência. “A amarra aos líderes foi uma das principais causas da nossa derrota em 2018”, diz Cristovam no livro. “Para proteger nossos líderes, subestimamos a corrupção diante da qual fomos omissos, sem acusar, julgar, punir nem ao menos criticar os responsáveis pela cobrança de propinas, depredação de estatais e de fundos de pensões”.

Cristovam chama a atenção para o título do 11º erro destacado no livro: Adotamos o culto à personalidade. “Eu digo que cometemos tantos erros que um dos nossos líderes foi preso pela corrupção”, diz o ex-senador a VEJA. “Critico o culto à personalidade, isso nos obscureceu a mente, ninguém consegue criticar Lula, caímos no messianismo”.

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Para o ex-senador, a esquerda brasileira passou a criar falsas narrativas e a defendê-las. “Um dos nossos erros é criar falsas narrativas e acreditarmos nelas”, diz. Ele cita dois exemplos: A narrativa que o Bolsa Família levou 30 milhões para a classe média e que o Ciência sem Fronteiras ia promover o desenvolvimento científico do país. Para ele, essas falsas narrativas — ou mentiras — são uma forma de ocultar os problemas. “As cotas ajudam a pular o muro, e não a derrubar o muro”, diz ele.

Cristovam deixa claro que a tática dos partidos de esquerda entregou a eleição para Bolsonaro: “Ele não ganhou, nós perdemos, porque ficamos sem projetos que seduzissem os eleitores”. O livro vai ser lançado na semana que vem, mas o autor já começou a receber reclamações de acadêmicos. “Muitos amigos meus disseram que não aceitam o ‘nós’, que quem errou foi Lula, que quem errou foi Dilma sozinha”, diz o ex-ministro.

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