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Máquinas de destruir reputações

“Pega ladrão!” E se quem está gritando é o próprio ladrão?

Quem não gosta de saber que os papéis de empresas brasileiras estão se valorizando no exterior? Ou que o dólar está caindo? Ou que o investimento está subindo e a perspectiva de crescimento se fortalecendo? É falso, porém, acreditar que, para tudo isso acontecer, seja necessário sufocar críticas ou mesmo destruir conquistas civilizatórias.

“Você gosta tanto de fazer discurso lacrador que vai acabar tendo velório com caixão lacrado” — mensagens nesse tom agressivo têm sido disparadas na internet de forma covarde e anônima para calar vozes dissonantes e restringir o debate público à profundidade de um pires. Reportagens e notícias falsas são divulgadas com um objetivo: destruir a credibilidade de pessoas acusadas de “torcer contra o país”. Em alguns casos, usa-se o batido artifício de pegar uma operação financeira complexa e totalmente lícita de alguém que vai contra a nova ordem para vesti-la como se fosse um grande esquema de corrupção.

Tira-se proveito, enfim, da ignorância alheia e da disponibilidade mental para aceitar qualquer coisa. O modus operandi às vezes beira o absurdo. Exemplo recente: em um vídeo que circula na internet, uma proeminente política religiosa, hoje em Brasília, alerta os fiéis sobre os livros de feitiçaria do diabo distribuídos pelos professores. Exemplo mais antigo: parlamentares postos na luz da ribalta incitam o ódio pedindo a alunos que gravem as aulas de professores não alinhados com suas ideias. Estudei numa boa escola particular de São Paulo em que a maior parte dos professores era de esquerda e os alunos, majoritariamente, de direita. E daí? Que influência tiveram aqueles ótimos mestres? A meu ver, prepararam os jovens de direita para trabalhar suas ideias com maior consistência.

Se ainda restasse dúvida quanto aos ventos que sopram no Brasil, uma emissora de televisão, famosa por bajular e adular poderosos para gozar de benefícios e varrer para debaixo do tapete os próprios escândalos no sistema financeiro, ressuscitou o velho slogan excludente da ditadura: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. De um tempo para cá, forças diversas se aglutinaram no país pelo fim da corrupção e das regalias com dinheiro público e pela justa e óbvia racionalidade econômica. Parte dessas forças utiliza agora essas bandeiras como biombo de uma pauta obscurantista, de cunho religioso “em nome da pátria” — o que inclusive prejudica a reputação dos religiosos iluministas brasileiros e até de parcela da direita esclarecida.

Àqueles que consideram esse tipo de expediente nacionalista “necessário”, recomendo uma visita aos Estados Unidos, não só à Disney e a Miami, mas também à Califórnia e a Nova York, lugares mais miscigenados e cosmopolitas, onde há um enorme desenvolvimento humano e financeiro, com amplo espaço não só para a liberdade de expressão, mas também para a liberdade civil. Quem se lembra da “caça aos marajás” promovida por um presidente brasileiro, enquanto este escondia a sua corrupção e a de seus pares? Muitas vezes, quando alguém grita “pega ladrão!”, é bom saber se não é o ladrão quem está gritando.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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