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O tamanho da cilada em que Lula se meteu com a questão do aborto

Pesquisas mostram que pauta de costumes enfrenta alta resistência do eleitorado. Mesmo assim, o ex-presidente trouxe tema para o centro do debate político

Por Rafael Moraes Moura Atualizado em 11 abr 2022, 09h44 - Publicado em 9 abr 2022, 08h47

Enquanto vê o presidente Jair Bolsonaro demonstrar poder de recuperação nas pesquisas, subir nas intenções de voto e reduzir a diferença, o ex-presidente Lula (PT) se meteu em uma cilada eleitoral na última semana ao avançar por conta própria no espinhoso terreno da chamada “pauta de costumes”. É justamente um árido território em que as milícias digitais bolsonaristas preparam duros golpes na candidatura lulista em um momento em que ambos os lados estão atrás de votos do eleitorado evangélico, que pode mais uma vez ser decisivo na definição do resultado. Na última terça-feira, o petista disse que o aborto deveria ser transformado em “questão de saúde pública” e “todo mundo ter direito”. Dois dias depois, tentou se corrigir em entrevista a uma rádio cearense: “Eu sou contra o aborto. O que eu disse é que é preciso transformar essa questão do aborto numa questão de saúde pública”. O estrago, no entanto, já estava feito.

As falas de Lula repercutiram no mundo político, mas um estudo da Fundação Perseu Abramo, ligada ao próprio PT, já havia dado um sinal de alerta à legenda, ao apontar que a descriminalização do aborto é “rejeitada pela ampla maioria, exceto em caso de estupro”. Os pesquisadores ouviram um universo de 64 pessoas, com renda de até cinco salários mínimos para a realização de entrevistas. Esses eleitores foram considerados pelo PT como o extrato social “não polarizado”, aqueles que nem gostam nem desgostam do partido — e que frequentemente são classificados como indecisos. Ou seja, são pessoas cujos votos Lula deveria estar indo atrás, ao invés de espantar. “Apenas entre os jovens (mulheres e homens) foi encontrada alguma disposição em discutir o assunto – ainda que não haja defesas entusiasmadas da descriminalização”, constatou o estudo.

Em outubro do ano passado, VEJA informou que, para reanimar a militância , o governo Bolsonaro pretendia retomar a pauta de costumes para afugentar votos do petista. A surpresa aqui é Lula pautando o debate por conta própria e se tornando uma espécie de cabo eleitoral do atual chefe do Executivo. “O Lula tem de falar para todo mundo, não apenas para a esquerda. Tem de ter um papel de estadista, buscar construir acordos dentro das divergências. Não pode construir um outro tipo de cercadinho que só fala pro grupo historicamente ligado a ele. Quem quer governar um país é presidente de todo mundo, inclusive daqueles que não votaram nele”, avalia o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas. “O Lula deu munição para o Bolsonaro. O melhor caminho é tratar o aborto como questão de saúde e política públicas, independentemente de ser contra ou a favor. Não pode trazer o problema para uma questão de fundamentalismo religioso. Você está falando de pessoas, de vidas, e não números”, acrescenta Teixeira.

Um outro levantamento, encomendado pelo DEM no ano passado, também lança luz sobre a polêmica questão. Feita pelo Ipsos, a pesquisa constatou que 70% da população é contra a legalização do aborto até o terceiro mês de gestação – um índice similar aos 69% do levantamento Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) de fevereiro deste ano. Para complicar ainda mais a situação de Lula, apenas 21% dos entrevistados acham que o tema merece mais atenção dos políticos hoje. É a metade do índice registrado, por exemplo, na questão da redução da maioridade penal para 16 anos — para 42% dos entrevistados, esse tema deve ganhar tratamento prioritário na agenda política do país.

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