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Lula flerta com partidos do Centrão e mostra disposição para negociar a vaga de vice

Ofensiva em troca de apoios espalha desconforto e incertezas até entre aliados

Por Heitor Mazzoco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Laísa Dall'Agnol Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , José Benedito da Silva Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 13 fev 2026, 14h06
  • Em maio de 2006, ano em que disputou a primeira reeleição presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com o ex-­governador de São Paulo Orestes Quércia, cacique do MDB, e fez um aceno que deixou toda a esquerda incrédula: ofereceu a vaga de vice em sua chapa. Por poucos detalhes (problemas internos em alguns diretórios estaduais), a sigla não participou daquele pleito ao lado do PT — e também não teve candidatura própria à Presidência. A legenda de Quércia mostrou força na ocasião — obteve quase noventa assentos na Câmara dos Deputados. Posteriormente, a aliança PT-MDB acabou acontecendo. A união se sagrou vitoriosa nos dois pleitos nacionais seguintes (2010 e 2014), quando o deputado Michel Temer deixou o Legislativo para ser vice de Dilma Rousseff. O casamento entre petistas e emedebistas terminou de forma ríspida, em 2016, quando Temer sentou na principal cadeira do país diante do impeachment da titular e sob acusações de que teria sido o arquiteto de um “golpe” contra a petista.

    Duas décadas depois do encontro com Quércia e dez anos após o rompimento, Lula mais uma vez faz gestos para atrair o MDB, inclusive com a possibilidade de a sigla indicar seu vice. O flerte, que animou parte da legenda e movimentou os bastidores políticos na última semana, integra uma ofensiva maior lançada pelo presidente e seus aliados para ampliar o arco de apoios a seu nome para a campanha de outubro. A movimentação, movida pelo pragmatismo crescente de Lula diante da dificuldade que vislumbra no pleito de outubro, vem provocando desconfortos variados na sua base política.

    arte pesquisas

    O principal incômodo tem nome e sobrenome: Geraldo Alckmin. Aposta certeira de Lula para vencer em 2022, a inclusão do ex-tucano na chapa passou uma mensagem poderosa de moderação e de aproximação com setores mais ao centro do espectro político e aliviou resistências em parte do empresariado e do mercado financeiro. A possibilidade de Lula rifar agora seu parceiro, com quem se deu bem no governo, em nome de uma maior chance eleitoral incomoda não só a Alckmin — que resiste a abraçar outras tarefas, como ser candidato ao governo de São Paulo —, mas principalmente ao PSB, hoje o maior partido aliado formalmente ao projeto eleitoral de Lula. “Foi reafirmado ao presidente o desejo do PSB de manter a Vice-­Presidência e que isso é uma prioridade para o nosso partido”, declarou o presidente da legenda, o prefeito de Recife, João Campos, na terça-feira 10, após sair do Palácio do Planalto, onde deu o recado a Lula.

    Em reunião da bancada do PSB na Câmara, o líder Jonas Donizette (SP) também externou o desconforto ao dizer que Alckmin “representa algo muito forte para a candidatura de Lula”. “Não tenho dúvida que faz parte do jogo político (conversar com o MDB), mas a definição do presidente será por manter a chapa”, disse Donizette a VEJA. Alckmin não se manifesta, mas a aliados já confidenciou que pode até deixar a política se for escanteado no projeto presidencial de Lula. Há poucos dias, o petista foi claro ao dizer que “Alckmin tem um papel a cumprir em São Paulo”, sinalizando que gostaria de ver o aliado disputando o governo paulista, coisa que ele claramente não quer — assim como Fernando Haddad, ministro da Fazenda, a outra alternativa de Lula para tentar derrotar Tarcísio de Freitas.

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    ARTICULADOR - Edinho Silva: presidente do PT conversa com dirigentes da esquerda à direita para ampliar coalizão governista
    ARTICULADOR - Edinho Silva: presidente do PT conversa com dirigentes da esquerda à direita para ampliar coalizão governista (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Agência O Globo/.)

    O namoro com o MDB faz parte de uma estratégia ambiciosa de Lula: atrair o que for possível do centro político e esvaziar as candidaturas de oposição. Também nos últimos dias, o presidente surpreendeu ao receber em seu gabinete o senador Ciro Nogueira, dirigente nacional do PP, ex-ministro de Jair Bolsonaro e até então um dos principais porta-vozes da oposição. Acompanhado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-­PB), outro líder importante de uma legenda de centro, Ciro teria pedido para Lula “tirar o pé” no Piauí e apoiar apenas um candidato ao Senado para que ele tivesse maior possibilidade de reeleição, uma vez que as pesquisas indicam dificuldade para renovar o mandato. O armistício entre o Centrão e o petista, de uma forma geral, deu o tom da conversa, com os dois lados enfatizando a necessidade de evitar animosidade política para não sabotar palanques em construção nos estados. A maioria das siglas está dividida sobre o posicionamento nacional e boa parte delas precisa do apoio de Lula em alguns estados, em especial no Norte e Nordeste. Isso anima o petista a tentar, se não o apoio formal — que parece impossível —, ao menos dividir as legendas e impedir que se coliguem formalmente a algum adversário.

    CONVERSA - Ciro Nogueira: encontro com o presidente no Palácio do Planalto criou dúvidas sobre para onde pode ir o Centrão
    CONVERSA - Ciro Nogueira: encontro com o presidente no Palácio do Planalto criou dúvidas sobre para onde pode ir o Centrão (Andressa Anholete/Ag. Senado)
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    A movimentação de Lula não cria incômodos só nos companheiros da última jornada eleitoral. No MDB, lideranças importantes reprovam o flerte governista porque veem nele uma tentativa de cooptação da legenda, que o presidente sabe que tem nuances pelo país. Há muita resistência à aliança com o petista por parte de caciques como o ex-presidente Michel Temer, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e o presidente nacional da sigla, deputado Baleia Rossi. O petista, no entanto, conta com aliados de peso que já se movimentam para levar a barca emedebista para o porto lulista, como os ministros Renan Filho (Transportes) e Simone Tebet (Planejamento), ambos cotados para serem companheiros de chapa de Lula. A estimativa é que lulistas e não lulistas controlem quase meio a meio os 27 diretórios estaduais da legenda — para aderir formalmente ao projeto petista, a sigla teria que aprovar a aliança em convenção. “Na eleição passada, mesmo com o MDB tendo candidato à Presidência (Tebet), levamos treze diretórios para apoiar Lula. Hoje essa correlação é ainda mais favorável. Se indicarmos o vice, ganharemos a convenção”, disse a VEJA o senador Renan Calheiros (AL), um dos caciques do MDB empenhados em ajudar Lula.

    A estratégia do petista também aprofunda incertezas no Centrão, um personagem importante da política brasileira. Antes empenhado em construir a candidatura presidencial de Tarcísio, que facilmente uniria as legendas centristas, o bloco agora se movimenta de forma mais cuidadosa. Parte do grupo ainda encara com dificuldade a chance de embarcar na candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que cada vez mais se consolida como o principal opositor de Lula na corrida presidencial, como mostra pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira 10 (veja o quadro). Marcados pelo pragmatismo, esses partidos pensam principalmente no desempenho nas eleições ao Congresso, fundamentais para manter — ou ampliar — seu peso político no cenário nacional, além de significar mais ou menos dinheiro dos bilionários fundos públicos que sustentam as máquinas partidárias. “Está tudo muito indefinido. As sinalizações por parte de Lula de querer dialogar com os partidos de centro embola um pouco esse jogo”, reconheceu Hugo Motta, em evento em São Paulo.

    RESISTÊNCIA - Baleia Rossi e Michel Temer: o cacique do MDB e o ex-presidente são contra a ida da legenda para o palanque lulista
    RESISTÊNCIA - Baleia Rossi e Michel Temer: o cacique do MDB e o ex-presidente são contra a ida da legenda para o palanque lulista (//Divulgação)
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    Um dos emissários mais valiosos de Lula nessa estratégia tem sido o presidente do PT, Edinho Silva. Ele se reuniu com Ciro Nogueira e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, outro cacique que já foi mais de oposição. O encontro visou discutir palanques regionais, para que, no “que for possível”, haja alianças ou, ao menos, o compromisso de que não haja ataques mútuos em redutos estratégicos. Ao mesmo tempo, concordaram que a atuação dos partidos nas pautas do Legislativo se atenha ao necessário, preservando tempo e energia para o pleito. Edinho tem reafirmado que conta com legendas como MDB e até mesmo o PSD de Gilberto Kassab, que diz ter três presidenciáveis (os governadores Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado). “Queremos todos os partidos da base do governo”, afirma.

    DE OLHO - Simone Tebet: nome em alta no governo, ela pode sair do MDB para viabilizar projetos eleitorais desenhados por Lula
    DE OLHO - Simone Tebet: nome em alta no governo, ela pode sair do MDB para viabilizar projetos eleitorais desenhados por Lula (Gabriela Pires//)

    Lula sempre teve dificuldades para construir palanques mais amplos, especialmente em direção ao centro. Mesmo em 2006, quando buscou o MDB de Quércia, o petista, então acossado pelo mensalão, teve que se contentar em ir para a disputa só com o PCdoB e o PRB do vice José Alencar. Na última eleição, construiu seu maior palanque, atraindo nove legendas, mas a maior delas era o PSB, um partido médio do Congresso. Para a eleição deste ano, o petista tenta unificar de forma inédita a esquerda ao atrair também o PDT, a única grande legenda do campo que não abraçou sua candidatura em 2022 (lançou Ciro Gomes). Ao centro e à direita, no entanto, persiste a velha dificuldade, que o petista se esforça para superar. Se vai dar certo, só o tempo dirá. O retrospecto não permite muito otimismo.

    Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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