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Jerusalém pode esperar

Bolsonaro não deve sucumbir a pressões particulares ou tentações ideológicas em detrimento do pragmatismo diplomático que norteou política externa do Brasil

A hipótese de transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, uma das promessas de campanha de Jair Bolsonaro, traz riscos desnecessários ao novo governo. Por que essa medida, aparentemente de pouca relevância para a política externa brasileira, se tornou central no discurso do presidente? Tudo indica que seu maior objetivo seja aproximar Brasil e Israel. A admiração de Bolsonaro pelo Estado judeu vem de longa data e se relaciona com a tecnologia militar, apreciada pelas Forças Armadas, e as técnicas de irrigação, que se pretende trazer para o semiárido nordestino. O novo presidente também parece ter em Israel um exemplo de democracia a ser seguido.

De fato, o governo de Israel está entusiasmado com essa perspectiva. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ligou para o presidente eleito e expressou, pelas redes sociais, seu desejo de boas relações com o Brasil. Além disso, prometeu vir à cerimônia de posse de Bolsonaro e o convidou para uma visita oficial. Trata-se de uma mudança importante de postura. As relações bilaterais estão estremecidas desde o governo Dilma, durante o qual se deram a infame crise do “anão diplomático” — apelido dado ao país pelo porta-voz do governo israelense após críticas brasileiras à operação militar em Gaza em 2014 — e o silêncio do Itamaraty diante da nomeação de Dani Dayan para a embaixada em Brasília. Em setembro de 2017, Netanyahu fez uma turnê pela América Latina, mas ignorou o Brasil.

Essa aproximação, contudo, não explica toda a história. Há, pelo menos, três outros fatores que pesam no cálculo dessa decisão. O primeiro deles é o antipetismo. Nos últimos anos, a associação dos partidos de esquerda com a causa palestina e o mundo árabe fez com que a bandeira azul e branca se tornasse símbolo da direita. Foi nesse contexto que Bolsonaro, pela primeira vez, se manifestou publicamente sobre Israel: em uma carta ao governo israelense, em 2014, pediu desculpas pelo comportamento “bolivariano” do governo Dilma diante da guerra em Gaza, comparando o passado da petista durante o regime militar aos atos do grupo Hamas. O segundo diz respeito ao crescente eleitorado evangélico, cada vez mais adepto do sionismo cristão. Originado nos Estados Unidos, o fenômeno se caracteriza pelo entendimento de que a profecia bíblica da segunda vinda de Jesus passa pelo retorno dos judeus à Terra Santa. A transferência da embaixada seria, portanto, o primeiro passo para a “salvação” dos cristãos.

O terceiro fator é o desejo de mimetizar o presidente Donald Trump. Parte importante da plataforma externa de Bolsonaro não passa de uma reprodução do que fez o governo americano: abandonar o Acordo do Clima e o Conselho de Direitos Humanos da ONU, hostilizar a Venezuela, provocar a China e adular Israel. Ao contrário do que ocorre com nosso “grande vizinho”, contudo, o custo dessas medidas é intolerável para o Brasil. A reputação global de nosso país construiu-se, justamente, com o apreço ao multilateralismo, a liderança na integração regional sul-­americana e as boas relações com todas as nações, razão pela qual o Brasil raramente compra brigas — sobretudo as que não nos dizem respeito diretamente.

Parte da plataforma externa de Bolsonaro é reprodução do que fez o governo Trump, que ele quer mimetizar

Os riscos da mudança diplomática se apresentam em três dimensões. A mais óbvia é a econômica: o novo governo pode pôr em xeque o comércio com os países árabes, que nos proporcionaram um superávit de 7,1 bilhões de dólares em 2017, e com demais nações de maioria islâmica. Nos últimos anos, o Brasil firmou-se como o maior exportador mundial de carne e frango com certificação halal, ou seja, adequados ao consumo dos muçulmanos. Os mercados islâmicos, entretanto, não estão garantidos para os produtos brasileiros. Argentina e Paraguai parecem dispostos a entrar nesse jogo. O governo liberal de Mauricio Macri, aliado de Washington, condenou a medida tomada por Trump. O conservador paraguaio Mario Abdo, recém-­empossado, voltou atrás na mudança da embaixada proposta por seu antecessor. Do ponto de vista político, a reação do Egito à questão de Jerusalém, cancelando a viagem de uma comitiva de empresários e diplomatas brasileiros, é o aperitivo de um arriscado processo em cadeia. O Catar e a Organização para a Cooperação Islâmica também já se posicionaram contra o anúncio de Bolsonaro.

Para um país de longa tradição universalista como o Brasil, o isolamento diplomático é um preço amargo a pagar. Ainda mais grave é a possibilidade de a decisão ferir suscetibilidades de grupos fundamentalistas da região, colocando o Brasil na rota do terrorismo internacional. Por fim, a decisão de Bolsonaro vai na contramão de um importante traço de nossa política externa: o respeito inequívoco ao direito internacional. No caso do conflito israelo-­palestino, isso se traduz na chamada “solução de dois Estados” — aprovada em 1947, nas Nações Unidas, pelas mãos do diplomata brasileiro Osvaldo Aranha. O desejo de ver Israel e Palestina soberanos e vivendo em paz sempre balizou a posição brasileira na busca de saídas para o conflito. O consenso internacional é que Jerusalém, reivindicada por israelenses e palestinos, só poderá ser reconhecida como capital dos dois países após a conclusão das negociações entre ambos — paralisadas desde 2000. Por isso, a ocupação da parte oriental da cidade por Israel, em 1967, e a transformação de Jerusalém na capital dos judeus, pelo Parlamento israelense, em 1980, foram consideradas medidas ilegais pela ONU. Nas últimas décadas, todos os países retiraram sua embaixada da cidade, respeitando as resoluções da ONU. Se consumada a transferência da embaixada pelo Brasil, seremos o terceiro país a ir na contramão da comunidade internacional — atrás de EUA e Guatemala.

Ainda há tempo para o presidente eleito mudar de ideia. Uma das virtudes de um estadista é zelar pelos interesses de longo prazo de seu país. Sucumbir a pressões particulares ou tentações ideológicas trará danos — potenciais ou imediatos — de difícil reversão. Prudência, pragmatismo e firmeza de valores devem seguir orientando a presença do Brasil no mundo. Enquanto não houver uma solução negociada sobre Jerusalém, nosso país pode — e deve — esperar.

* Guilherme Casarões é cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2018, edição nº 2609