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Em curto-circuito

O choque conservador que levou Bolsonaro à Presidência nasceu nas manifestações de 2013, passou pela Lava-Jato e chegou ao ápice com o impeachment de Dilma

Por Roberto Pompeu de Toledo 29 out 2018, 07h00

“Presidente Bolsonaro”, quem diria? Até poucos meses atrás ele era um deputado da turma do fundão, também chamada de baixo clero, tosco, machão, dado a bravatas, que se fazia notar mais por arruaças (liderou tumultua­da campanha salarial quando no Exército; liderou desordem contra o ministro da Marinha durante solenidade no governo FHC) e infames grosserias (“Jamais ia estuprar você porque você não merece”). Comecemos pelos ineditismos de baixa combustão. Pela primeira vez, na redemocratização, um paulista assumirá a Presidência — é verdade que paulista que mora e fez carreira no Rio de Janeiro (inversamente, o carioca Fernando Henrique Cardoso e o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva moram e fizeram carreira em São Paulo). Pela primeira vez, desde o marechal Eurico Gaspar Dutra, em 1946, um militar (ou pelo menos alguém de formação militar, pois há tempos deixou a carreira) alcança a Presidência pela força das urnas. Ficaram no caminho, derrotados, o brigadeiro Eduardo Gomes e os generais Juarez Távora e Teixeira Lott. Agora, um ineditismo de média combustão. Pela primeira vez, teremos um presidente assumidamente de direita. Por fim, um ineditismo de alta combustão. Pela primeira vez, o Palácio do Planalto será ocupado por um defensor, explícito e público, da tortura. Nenhum dos generais da ditadura de 1964-1985 ousou tanto.

JUNHO DE 2013 –  Marco inicial do processo que elegeria Bolsonaro: a reação da PM JF Diorio/Estadão Conteúdo

Bolsonaro venceu no impulso de uma onda que vem sendo descrita como conservadora e moralista, e isso não é inédito. De imediato vêm à memória os casos de Fernando Collor, o caçador de marajás, e de Jânio Quadros, o homem da vassoura. Nenhum dos dois terminou o mandato, o que não deve ser considerado um presságio, mas sinaliza que ondas conservadoras podem ser efêmeras e ondas moralistas podem errar o alvo — Collor foi expelido do cargo em meio a um escândalo de corrupção e Jânio teve publicamente revelado, numa disputa familiar, o número de sua conta na Suíça. A onda que levou o ex-capitão à vitória cresceu consistentemente de agosto até a véspera do primeiro turno da eleição (18%, em 19 de agosto, a 36%, em 6 de outubro, segundo o Ibope) e, de forma impressionante, virou tsunami no próprio dia da eleição, quando a apuração nas urnas registrou 46% — crescimento de 10 pontos em 24 horas. A metáfora do tsunami aproxima o fenômeno do caráter incontrolável dos furores da natureza.

“Onde se escondeu o tal de Bolsonaro esses anos todos?”, pergunta um homem de olhar assustado, sentado num banco de praça pública, na charge de Jaguar publicada na Folha de S.Paulo do último dia 19. Sentada no mesmo banco, uma mulher responde: “Dizem que na Câmara dos Deputados, em Brasília”. As pesquisas feitas antes do primeiro turno ainda apontavam vida dura para o ex-capitão nas projeções para o segundo turno: empate técnico com Haddad e derrota para Ciro Gomes e, até certa altura, mesmo para Geraldo Alckmin. Já as pesquisas posteriores indicariam considerável vantagem para Bolsonaro, mostrando que o tsunami continuava em expansão. Tão vigorosa se revelou a onda Bolsonaro que produziu filhotes nos estados. “Onde se escondeu o tal de Witzel esses anos todos?”, perguntaria com maior razão ainda o personagem de Jaguar, sentado num banco à margem do calçadão de Ipanema. “Onde se escondeu o tal de Zema esses anos todos?”, replicaria o similar mineiro, num banco da Praça da Liberdade. Bolsonaro já forneceu muito pano para manga e mais ainda fornecerá. Que diabos se deu na sociedade? Por que Bolsonaro, e não outro, mais razoável? Em torno dessas perguntas, nos parágrafos seguintes, arriscaremos tatear em meio à bruma.

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A data de 13 de junho de 2013 pode ser tida como o marco inicial do processo que em 28 de outubro de 2018 elegeria Jair Bolsonaro presidente do Brasil. No começo daquela noite a polícia do governador Geraldo Alckmin partiu com fúria contra um grupo de jovens reunidos na esquina das ruas da Consolação com Maria Antônia, na região central de São Paulo, para principiar uma passeata. Cento e cinquenta saíram de lá ensanguentados para os prontos-socorros mais próximos. Os jovens pertenciam a um movimento chamado Passe Livre e se empenhavam numa campanha, até então discreta, quase despercebida, contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô na cidade. Ironia das ironias, o movimento era de esquerda, criado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre em 2005, mas seus “mártires” (digamos com exagero) lhe seriam roubados e sua bandeira, invertida. A repressão chamou a atenção para o movimento e ofereceu pretexto para que multidões ganhassem as ruas nos dias e semanas seguintes, em São Paulo e outras cidades — caóticas, catárticas, confusas em sua pluralidade de reivindicações, mas que aos poucos foi estreitando o foco para um alvo prioritário, o governo Dilma. As manifestações de 2013 tiraram do PT o domínio das ruas, para dei­xá-lo em desvantagem nos cinco anos subsequentes.

Dezessete de março de 2014 é, por ordem cronológica, o segundo marco. Na manhã desse dia, em obediência à ordem judicial expedida em Curitiba, a Polícia Federal saiu às ruas para o cumprimento de 81 mandados de busca e apreen­são, dezoito de prisão preventiva, dez de prisão temporária e dezenove de condução coercitiva, em dezessete cidades de seis estados e no Distrito Federal. Tinha início a Operação Lava-Jato. Três dias depois, seria preso o primeiro peixe grande, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. Um rolo compressor inédito na história do Brasil e, pelo ímpeto e alcance, até no mundo, devastaria daí em diante o establishment político do país, PT, em primeiro lugar, outros partidos em seguida, PSDB inclusive, Petrobras, empreiteiras. A queda das engrenagens que sustentavam o poder até ali tornaria o espaço político uma terra arrasada.

MARÇO DE 2014 – Prisão de Paulo Roberto Costa, no começo da Lava-Jato Daniel Castellano/Gazeta do Povo/Estadão Conteúdo

O último fator a ser considerado foram as manifestações em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff e o próprio impeachment. A quinta e última manifestação, em 13 de março de 2016, constituiu-se no ponto culminante dos atos de rua que se sucediam desde 2013. A Avenida Paulista reuniu uma multidão calculada em 1,4 milhão de pessoas pela Polícia Militar. O Datafolha rebaixou o total para 500 000, mas ainda assim considerou o evento o maior já ocorrido na cidade, maior ainda do que o ato das Diretas Já de 1984. Manifestações se replicaram por todo o país no mesmo dia. Olhando para trás, sur­preen­de a quantidade de fatores que se vão amontoando, um potencializando o efeito do outro: as jornadas de junho de 2013, Lava-Jato, desastre do governo Dilma, campanha suja em 2014, reeleição de Dilma por pouco, estelionato eleitoral, manifestações pelo impeachment, “Temos de estancar a sangria” (Romero Jucá), impeachment, ascensão de Temer, “quadrilhão do PMDB”, “Tem que manter isso aí, viu?”, corridinha com mala de dinheiro na saída do restaurante, prisão de Lula. Tudo considerado, as condições estavam postas para, em 2018, ser eleito… quem? — não se sabia ainda, mas alguém diferente de todos por aí.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aliás o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, formulou, num trabalho dos anos 1980, teoria de acordo com a qual as sociedades contemporâneas mudam por curto-circuito. Numa entrevista ao escriba que vos fala, depois reunida em livro (O Presidente Segundo o Sociólogo, de 1998), ele a resumiu. “Sociedades do tipo das nossas, informacionais, com muita comunicação, podem mudar por um curto-circui­to”, disse, e citou, entre outros, os exemplos da França de 1968 e da Polônia de Lech Walesa e do papa João Paulo II, dois eventos históricos que presenciou pessoalmente. “Como as sociedades são muito diversificadas, e os polos de decisão não são centralizados, podem ocorrer mudanças muito bruscas e imprevisíveis. Se houver muito fio desencapado, a probabilidade de curto-circuito é alta.” Os fios desencapados são a precondição, mas não são tudo, prossegue a teoria. Precisa haver comunicação entre os diversos segmentos sociais. “Não é um segmento contra o outro, é uma comoção que percorre os diversos segmentos. Quando se consegue fazer isso, é como se se desse uma ‘fervura’ na sociedade.” A fervura não dura para sempre; depois de certo tempo, assenta. Mas aí a sociedade já mudou. “Não muda tudo, mas os setores que estão incapazes de satisfazer as expectativas, as demandas da sociedade, esses caem, ou mudam. Se esse setor ocupar uma posição central na sociedade, haverá uma mudança mais global.”

Se em 1968 as sociedades já podiam ser consideradas “informacionais”, “com muita comunicação”, imagine-se hoje. Sem pedir licença ao autor da teoria, arrisquemos conjeturar que o fenômeno Bolsonaro é produto de um curto-circui­to na sociedade brasileira. Os fios desencapados que incomodavam o que se revelou constituir a maioria do eleitorado abrangiam fatores tão díspares quanto a má admi­nis­tração do dinheiro público e a “normalidade” atribuída pelos meios de vanguarda ao casamento gay; a corrupção entre os políticos e a descriminalização do aborto; as de­fi­ciên­cias do transporte público e o aumento do consumo de drogas; a violência nas ruas e o futuro da aposentadoria; os problemas dos serviços de saúde e a crise fiscal. Não que os descontentes precisassem comprar o pacote completo. Cada um que compusesse à la carte o coquetel preferido. O descontentamento que teve origem nas classes média e alta, protagonistas das grandes manifestações, escorreu nos últimos meses para as classes populares. Os diretores do Datafolha Mauro Paulino e Alessandro Janoni cogitam de um “aburguesamento dos valores” dos mais pobres. O alinhamento das igrejas evangélicas em torno de Bolsonaro é outro fator. Estaria se dando a “comoção que percorre os diversos segmentos”, segundo a teoria de FHC. Para tomar emprestados os rótulos aplicados às bancadas do Congresso, uma convergência das fatias sociais da Bíblia (os evangélicos), da Bala (a linha dura contra o crime) e do Boi (o agronegócio) cerrou fileiras em torno do ex-capitão. Um quarto B — a bolsa de valores — completou o time. Unidos em coalizão que ultrapassava classes e regiões (exceto o Nordeste), esses grupos provocaram na sociedade um aumento de temperatura até o nível da “fervura”. O indicador de rumo a seguir ordenava uma inflexão à direita.

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Por que Bolsonaro? Por que o latente mal-estar da sociedade acabou por abrir alas ao ex-capitão? Aqui entra outra parte da teoria do curto-circuito. “Há uma coisa paradoxal: numa sociedade em que cada vez mais tudo é estrutural, tudo regulamentado, a força das pessoas é muito grande”, diz Fernando Henrique. “Precisa-se de quem desempenhe determinados papéis, precisa-se de ator. É a volta do ator na história, a volta do indivíduo. Toda a nossa formação sociológica privilegiou o grupo como ator, a classe como ator. Continua sendo assim, não tenho dúvidas, mas ao mesmo tempo o indivíduo reassumiu um papel grande na história.”

Nas cinco manifestações pelo impeachment, ocorridas entre março de 2015 e março de 2016, grupos com faixas e carros de som pedindo intervenção militar marcaram presença na Avenida Paulista. “Otário pede impeachment, patriota pede intervenção militar”, dizia uma faixa exibida numa dessas ocasiões. Como nos atos pró-impeachment anteriores, os policiais alinhados em alguns pontos eram queridos amigos com os quais participantes confraternizavam e tiravam selfies. Nada a ver com a tensão das manifestações de esquerda. Para completar, enquanto outros políticos eram hostilizados ou ignorados, havia um que era muito bem recebido — não por acaso, para combinar com a conversa de “intervenção militar” e com os amores trocados com as forças de segurança, alguém que já usara farda. Bolsonaro esteve na Paulista na manifestação de abril de 2015, e os admiradores fizeram fila para tirar fotos a seu lado. “Bolsomito, Bolsomito”, entoavam em coro. “Estou aqui para salvar o Brasil”, disse ele. Em dezembro do mesmo ano, compareceu à manifestação de Copacabana, e de novo foi recebido com festa. Entre o deputado até pouco tempo antes ignorado e a gente da rua pintava um clima.

Em 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados votou a autorização para o processo de impeachment de Dilma. Bolsonaro foi uma das sensações do dia. Ao assumir o microfone para anunciar o voto, ele resumiu, em 52 segundos, o programa que o trouxera até ali e que o conduziria até o triunfo na eleição. Suas palavras, uma por uma:

“Este dia de glória para o povo brasileiro tem um nome que entrará para a história, nesta data, pela forma com que conduziu os trabalhos desta casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em meia quatro, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve (sic). Contra o comunismo, pela nossa liberdade. Contra o Foro de São Paulo. Pela memória (alçando a voz) do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff. Pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”.

ABRIL DE 2015 –  O nascimento de um coro que só cresceria: “Bolsomito, Bolsomito” Ed Ferreira/Folhapress

Estava tudo nessas poucas palavras: uma oposição ao rumo das coisas extremada a ponto de assacar, em contraste virtuoso, os ideais de “meia quatro” (1964) e a luta “contra o comunismo”; a defesa da família e da “inocência das crianças” (invocação do mítico kit gay) contra a esbórnia nos costumes tolerada, se não promovida, pelo PT; a exaltação da violência no elogio de Brilhante Ustra, comandante do maior centro de tortura de São Paulo nos negros anos 1970-74. Esse item se exacerbava com o cruel epíteto “o pavor de Dilma”, a soar como regozijo pelos castigos infligidos à vítima. E um toque de pragmatismo levava o puro, o incorruptível Bolsonaro a um derramado elogio a Eduardo Cunha, cujas traficâncias e contas bancárias àquela altura já estavam expostas; mostrava assim que era capaz de aliar-se ao corrupto, desde que para derrotar o inimigo principal. Para completar o pacote, a religião e a pátria eram embrulhados no que viria a ser o slogan da campanha: “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Não se precisava concordar com todos os pontos do programa. O elogio da tortura ultrapassava os limites da moral e do bom gosto. Mas havia uma bravura, naquele deputado, e um desprendimento que o distinguiam da massa de políticos de discurso morno e posições débeis. Se a questão em 2018 fosse derrotar o PT, eis um nome a considerar. O segundo semestre de 2017 e o primeiro de 2018 foram marcados pela procura daquele que alguns chamavam de “o novo”, outros de “o outsider”. Joaquim Barbosa? Luciano Huck? Políticos tradicionais com estatura para aspirar à Presidência haviam sido quase todos atropelados pela Lava-Jato. Afinal o “novo” e o “outsider” encarnaram-­se em alguém que estava ali ao lado, à disposição. “O fetichismo político exigia manipansos de farda”, escreveu Euclides da Cunha, em Os Sertões, para descrever o clamor por uma autoridade forte, que desse cabo dos irredentos de Canudos. Bolsonaro não vestia farda, mas já vestira. Sua vitoriosa ascensão era facilitada pelo vazio do panorama eleitoral. Houve, porém, outro fator, mais determinante ainda: a jararaca não estava morta.

A jararaca era Lula, segundo comparação feita pelo próprio ex-presidente. “Se quiseram matar a jararaca, não fizeram direito, pois não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva”, disse Lula, indignado, ao voltar da condução coercitiva a que havia sido submetido pela Polícia Federal, em março de 2016. A Lava-Jato arrasara com quase todos, menos com o principal. Politicamente ele resistia, como forte candidato, ao alvorecer da campanha de 2018. Atingia quase 40% das preferências nas pesquisas em agosto, quando seu nome ainda constava da cartela dos pesquisadores. E continuou a assustar depois que, preso, articulou um candidato substituto e mostrou capacidade de transferir-lhe os votos. Para combater o substituto da jararaca, que amea­çava devolver-lhe o poder por procuração, só um anti-Lula irretocável, da cabeça aos pés, e quem mais anti-Lula do que Bolsonaro? Era até líder sindical como o outro (informal, na defesa da classe militar), inculto como o outro, intuitivo, despojado, audacioso e de língua igualmente destravada. Apresentava-se como seu reflexo invertido no espelho. Transformou-se em “mito”, como o outro já era.

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A eleição de 2018, no rastro de um sentimento que crescia desde 2013, foi marcadamente anti-PT, mas seguiu além, para acertar no coração do sistema como um todo. Soçobrou também o PSDB, que bem ou mal, ressalvada a confusão de um regime político perverso como o apelidado de “presidencialismo de coalizão”, e de um sistema partidário caótico, fornecia um equilíbrio bipartidário à disputa da Presidência. As conquistas das três décadas de redemocratização não merecem o lixo a que o resultado das urnas neste ano ameaça destiná-­las. O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, costuma dizer que a foto do momento não é boa, mas o filme do período democrático é positivo. Em suas palavras, “um país que viveu décadas de ditadura e se acostumou com presidentes sendo tirados do poder à força; onde planos econômicos mirabolantes criaram a hiperinflação e corroeram o poder de compra da sociedade; onde a miséria é vista em cidades de todas as partes — esse mesmo país, no entanto, vive mais de trinta anos de estabilidade institucional, controlou os sobressaltos da moeda e tirou dezenas de milhões de pessoas da linha da pobreza extrema” (O Globo, 20/6/2018). A tais avanços poderiam se acrescentar o respeito às lutas pelos direitos da mulher, do negro e do índio, a preocupação com o meio ambien­te e o reconhecimento da diversidade sexual, todas causas destravadas na vigência da Constituição de 1988. A consagração de Bolsonaro ameaça um meia-volta, volver ao que houve de bom no período. Disse o deputado Chico Alencar, do PSOL-RJ: “Jogaram a água suja fora com o bebê junto”. (Nota: candidato derrotado ao Senado, Chico Alencar também foi jogado fora com a água suja.)

Há outros ineditismos de baixa combustão no próximo ocupante do Palácio do Planalto. Jair sempre foi um nome de maior sucesso no futebol (Jair da Rosa Pinto, Jairzinho Furacão da Copa) e na música popular (Jair Rodrigues) do que na política. (Em compensação, o nome com “J” retoma uma tradição Juscelino-Jânio-Jango, do período democrático anterior.) É a primeira vez na redemocratização que assumirá um presidente de olhos claros. E é a primeira vez na história que subirá a rampa do Palácio do Planalto alguém criado na cidade de Eldorado Paulista, antes conhecida pelo glorioso nome de Xiririca. O leitor está convidado a continuar neste, ou inventar qualquer outro jogo inocente. É para afastar o temor do que vem por aí.

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição especial nº 2606

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