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Ele vai ter trabalho

O general Rêgo Barros assume o cargo de porta-voz do governo com a missão de pôr fim ao clima de campanha e à animosidade contra a imprensa

Por Edoardo Ghirotto - 18 jan 2019, 07h00

O desgaste sofrido nos catorze primeiros dias de governo foi suficiente para que o presidente Jair Bolsonaro entendesse que há um abismo entre presidir um país e agir como um candidato nas redes sociais. Depois de ser desmentido por subordinados e postar tuítes com informações incorretas — ou inadequadas para um chefe de Estado —, Bolsonaro cedeu ao apelo de sua equipe e escalou um porta-voz. O escolhido é Otávio Santana do Rêgo Barros, general de três estrelas que desde 2014 chefiava o Centro de Comunicação Social do Exército e que atuará, sobretudo, eliminando os ruídos de comunicação entre o Planalto e o Ministério da Economia, de onde tradicionalmente partem os mal-entendidos mais perigosos. Rêgo Barros será o primeiro militar a exercer essa função desde o governo de Ernesto Geisel, o penúltimo dos ditadores. Em 1974, Geisel convocou o então coronel José Maria de Toledo Camargo para o posto depois que a Arena — partido que dava sustentação ao regime — foi massacrada pelo oposicionista MDB nas eleições legislativas daquele ano.

O porta-voz inicia seus trabalhos em um ambiente hostil. A cerimônia de posse do presidente teve restrições ao trabalho dos jornalistas inéditas no período pós-redemocratização e, mesmo depois de vestir a faixa, Bolsonaro manteve uma certa beligerância em relação à imprensa nas redes sociais. Rêgo Barros chega ao olho desse furacão, mas tem certo traquejo para lidar com crises — ou “situações sensíveis”, na linguagem da caserna. Pernambucano natural do Recife, ele ingressou no Exército em 1975. Antes de se dedicar à comunicação da instituição, foi comandante do batalhão brasileiro no Haiti, chefiou a pacificação dos morros do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, e foi responsável pela segurança da cúpula Rio+20.

No Haiti, o então coronel assumiu o posto em janeiro de 2010, mesmo mês em que um terremoto matou mais de 300 000 pessoas. Chamou a atenção dos superiores ao inserir, pela primeira vez, a contrapropaganda em operações de manutenção de paz lideradas pela ONU. A pesquisadora Juliana Sandi Pinheiro teve acesso aos relatórios produzidos pelos comandantes dos batalhões e elaborou, em 2015, um estudo sobre a ação dos brasileiros no Haiti. Descobriu que Rêgo Barros fez pesquisas de opinião para quantificar o apoio da população local às tropas e mapeou cartazes e pichações contrários aos brasileiros para responder com propaganda favorável. Uma das “campanhas de operações psicológicas”, como consta do relatório, aproveitou “a paixão da população haitiana pelo futebol”, durante a Copa do Mundo de 2010, para instigar haitianos a torcer pelo Brasil, criando laços com as tropas.

Sua atuação no Haiti ajudou a pavimentar a entrada na comunicação do Exército, acompanhando a ascensão do comandante-geral Eduardo Villas-­Boas — que, hoje no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), referendou o nome do ex-subordinado ao cargo de porta-voz. Antes de chegar a Rêgo Barros, o governo colheu uma sucessão de negativas de jornalistas convidados para o cargo e de nomes vetados por Carlos Bolsonaro, o filho do presidente que mais atua nas redes sociais.

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Na comunicação do Exército, Rêgo Barros transformou o órgão na instituição federal com o maior número de seguidores na internet. Modernizou a linguagem usada nas postagens para buscar o público jovem. Em um momento tenso, aconselhou Villas-Boas a acalmar, via Twitter, os ânimos dos generais da reserva e de jovens oficiais quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu julgar um pedido de habeas-corpus que poderia livrar o ex-presidente Lula da prisão, em abril de 2018. Villas-Boas escreveu que o Exército acompanhava os “cidadãos de bem” no “repúdio à impunidade” e que estava “atento às suas missões institucionais”. Foi um desastre de público e crítica, pois soou como uma tentativa militar de emparedar os ministros do STF, mas atingiu o objetivo: agradou — e acalmou — a caserna.

Assim como o Alto-Comando do Exército, Rêgo Barros não era entusiasta da candidatura de Bolsonaro até o segundo turno. Só votou no capitão reformado para impedir a volta do PT. Ao tomar posse, o general avisou a colegas que sua primeira missão será reconstruir pontes com a imprensa — num gesto de gentileza, ele visitou o comitê de jornalistas do Palácio do Planalto na quinta-feira para verificar se a estrutura estava a contento. Também afirmou que conversou com Carlos Bolsonaro, mas ainda resta em aberto quem ficará responsável pelo perfil pessoal do presidente nas redes — função delegada hoje ao filho. O objetivo do general será acabar com o “clima de campanha” na comunicação. No Exército, Rêgo Barros se notabilizou pela eficácia com que lidava com os problemas criados por quem ele representava. “Ele sempre superou essas dificuldades de forma objetiva, contando as coisas como eram”, diz Enzo Peri, ex-­comandante-geral e que já foi seu superior no Exército. Tais habilidades serão mais úteis do que nunca a partir de agora.

No mesmo dia da nomeação do porta-voz, foi anunciada a chegada de outro militar: o líder do governo na Câmara será o major Victor Hugo, eleito como deputado pelo PSL de Goiás com apenas 31 000 votos. Formado na Academia Militar das Agulhas Negras, o major está no seu primeiro mandato e, por óbvio, não tem nem perto da experiência acumulada por Rêgo Barros. Com projetos tão importantes na pauta, como a reforma da Previdência, a indicação de um neófito para a liderança é uma opção, digamos, ousada.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

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