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Como personagens envolvidos em escândalos de corrupção tentam retornar à política

Depois de um longo período de inelegibilidade, eles abrem uma corrida pela redenção

Por Hugo Marques Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 fev 2026, 08h00 • Atualizado em 15 fev 2026, 10h15
  • O ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda é um fenômeno. Em 2009, ele foi filmado recebendo um pacote de dinheiro, teve o mandato cassado, foi preso e condenado por corrupção. Recentemente, se filiou ao PSD numa cerimônia concorrida, que contou com a presença do presidente do partido, Gilberto Kassab, senadores, deputados e lideranças locais. Arruda foi saudado como futuro governador. “Hoje o PSD começa a se preparar para governar Brasília”, disse o líder pessedista, destacando que o novo correligionário era “indiscutivelmente” uma das pessoas mais bem preparadas para a política e “que melhor conhece os desafios que o Brasil tem pela frente”. O entusiasmo, em tese, se justifica. Na última sondagem de intenção de votos realizada pelo instituto Paraná Pesquisas, no fim do ano passado, o ex-governador, mesmo afastado do cenário político por mais de uma década, aparece liderando a disputa pelo Palácio do Buriti. Isso, por si só, já é um feito curioso para quem, num determinado momento, não conseguia sequer sair às ruas sem ser hostilizado. Para viabilizar sua candidatura, no entanto, o ex-governador, de 72 anos, antes terá de vencer uma batalha jurídica pela elegibilidade. Em 2014, ele também foi condenado por improbidade administrativa. Uma mudança na Lei da Ficha Limpa aprovada pelo Congresso no ano passado alterou a forma de contagem do prazo da inelegibilidade, que passou a ser de oito anos considerados a partir da decisão de um tribunal colegiado. Para a defesa, esse prazo vence em julho. A palavra final caberá à Justiça Eleitoral. “Quero resgatar a minha história, botar a cara a tapa e poder mostrar o outro lado da moeda do massacre que vivi”, diz o ex-governador. Enquanto isso, os acordos vão sendo costurados. O PSD já acertou uma parceria com o Avante, cujo presidente é o também ex-senador Gim Argello, que, assim como Arruda, foi condenado por corrupção, cumpriu três anos de prisão em regime fechado e agora também faz planos para o futuro — o plano A, aliás, é ser candidato a vice-governador na chapa do próprio Arruda.

    VOLTA EM GRANDE ESTILO - Dirceu: depois de cumprir pena, o ex-ministro vai disputar vaga na Câmara com aval do presidente Lula
    VOLTA EM GRANDE ESTILO – Dirceu: depois de cumprir pena, o ex-ministro vai disputar vaga na Câmara com aval do presidente Lula (Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress; @zedirceuoficial/Instagram)

    A lista de proscritos que tentarão voltar ao cenário político é longa. Apenas em Brasília, além de Arruda e Gim, também o ex-ministro e ex-governador Agnelo Queiroz pretende disputar as eleições de outubro. O petista foi condenado por abuso de poder político e, em 2017, preso e acusado de superfaturamento na construção do Estádio Mané Garrincha. A maior pedra no caminho do petista, porém, foi um caso bizarro. Em 2014, descobriu-se que o médico Ag­ne­lo Queiroz, servidor de carreira da Secretaria de Saúde, recebeu um generoso aumento de salário concedido por uma portaria do governador Ag­ne­lo Queiroz. Condenado por improbidade, o petista teve de devolver 500 000 reais aos cofres públicos e permaneceu inelegível até 2025. O ex-ministro do Esporte do segundo governo Lula agora pretende disputar uma vaga de deputado federal. O partido já deu sinal verde. “O Ag­ne­lo é um bom candidato, é muito bem-vindo e vai conquistar um mandato de deputado federal”, diz o deputado distrital Chico Vigilante, liderança petista do Distrito Federal.

    CHAPA PURA - Argello: o ex-senador, que ficou três anos preso, é cotado como candidato a vice-governador
    CHAPA PURA - Argello: o ex-senador, que ficou três anos preso, é cotado como candidato a vice-governador (Paulo Lisboa/BRAZIL PHOTO PRESS/AFP)

    O PT está empenhado em resgatar antigas estrelas do partido que sucumbiram por envolvimento em escândalos. A maior delas é José Dirceu, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro a mais de 39 anos de prisão. Ex-chefe da Casa Civil do primeiro governo Lula, o ex-ministro cumpriu parte de sua pena, foi beneficiado com a anulação dos processos da Lava-Jato, recuperou sua elegibilidade em 2024 e agora, aos 79 anos de idade, pretende retomar a carreira política como candidato a deputado federal por São Paulo. Ele conta com o apoio entusiasmado do presidente da República para voltar à Câmara. Lula já recebeu o antigo auxiliar no Palácio do Planalto, posou para fotos ao lado dele e, sempre que pode, rasga elogios ao ex-chefe. “Eu sei o quanto ele foi solidário ao que passei”, explicou o presidente, agradecendo o apoio que recebeu do ex-ministro no período em que ele, Lula, também foi preso por corrupção.

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    A lista de proscritos petistas que miram uma vaga no Parlamento tem outros personagens famosos. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, João Paulo Cunha, presidente da Câmara no primeiro governo Lula, e André Vargas, vice-presidente da Câmara no governo Dilma Rousseff, também já confirmaram suas pré-candidaturas. Os três foram condenados e presos por corrupção e pretendem disputar uma vaga de deputado federal. Delúbio, de 70 anos, tem visitado cidades de Goiás, onde se diz injustiçado e distribui um livreto com sua versão para os escândalos. O ex-deputado João Paulo Cunha estudou direito enquanto cumpria sua sentença na penitenciária. A volta do PT ao governo federal impulsionou a carreira dele no mundo jurídico, mas, aos 67 anos, o que ele quer mesmo é voltar à política como representante de São Paulo. André Vargas tem planos semelhantes. Ele havia decidido deixar a política depois de cumprir três anos e seis meses de prisão. Solto em 2018, virou produtor rural no interior do Paraná. A decisão do STF de anular as sentenças da Lava-Jato levou o petista a rever os planos. “Fui vítima de uma emboscada criminosa. Mesmo tendo passado por momentos difíceis, me sinto em condições de ajudar meu país no Parlamento”, diz o ex-deputado. No mês passado, ele foi recebido no Planalto pela ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais. A cena foi postada nas redes sociais.

    APOIO OFICIAL - Vargas: “Mesmo tendo passado por momentos difíceis, me sinto em condições de ajudar meu país”
    APOIO OFICIAL – Vargas: “Mesmo tendo passado por momentos difíceis, me sinto em condições de ajudar meu país” (@andrel.vargas/Instagram; Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress/.)

    O MDB, partido que também esteve no epicentro de vários escândalos nas últimas duas décadas, torce pelo resgate de alguns antigos expoentes da legenda. Eduardo Cunha, 67 anos, ex-presidente da Câmara, ainda não escolheu o partido pelo qual pretende retornar ao Congresso, de onde foi cassado em 2016, mas já anunciou Minas Gerais como seu novo domicílio eleitoral. O ex-deputado vai recuperar os direitos políticos apenas em 2027, mas acredita que esse detalhe não será um empecilho para registrar a candidatura. Condenado a dezesseis anos de prisão por corrupção, ele gosta de lembrar em suas redes sociais o papel que teve no impeachment da ex-­presidente. Dilma Rousseff. No Dia do Amigo, de maneira irônica, Cunha publicou uma foto ao lado da petista e, sempre que pode, faz referência ao livro que escreveu dedicado a ela: Tchau, Querida. “Nunca deixei de ser político e pretendo continuar político”, justifica o ex-deputado.

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    “INJUSTIÇADO” - Delúbio: ex-tesoureiro do PT, que cumpriu pena por corrupção, já faz campanha em Goiás
    “INJUSTIÇADO” - Delúbio: ex-tesoureiro do PT, que cumpriu pena por corrupção, já faz campanha em Goiás (PT; Pedro Ladeira/Folhapress/.)

    Em situação jurídica ainda indefinida, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, ex-MDB, foi um dos únicos políticos defenestrados por escândalos de corrupção a admitir seus malfeitos. “Isso é um vício”, disse em um surpreendente depoimento, revelando que a tradição da época — ele governou o estado de 2007 a 2014 — era cobrar propina de “10%, 20%, 30%” sobre obras e serviços, mas que ele, menos ambicioso, cobrava apenas 5%. Condenado a mais de 435 anos de prisão, Cabral permaneceu seis anos em regime fechado, foi beneficiado pela anulação dos processos da Lava-­Jato e cumpre o que restou de suas penas em regime domiciliar. “Já me disseram que sou lembrado nas pesquisas, que estou entre os cinco mais votados do Estado para deputado federal”, ressalta.

    EM ESPERA - Cabral: confissão, sentença de 435 anos de cadeia e expectativa pela reconquista da elegibilidade
    EM ESPERA – Cabral: confissão, sentença de 435 anos de cadeia e expectativa pela reconquista da elegibilidade (Jason Silva/AGIF/AFP; @Sergiocabral_filho/Instagram)
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    O ex-governador aguarda o julgamento de uma ação no Supremo Tribunal que pode devolver sua elegibilidade. Enquanto isso, cuida da campanha do filho, que vai disputar uma vaga de deputado estadual, e mantém uma página numa rede social, em que lembra as realizações dos anos que comandou o Palácio Guanabara e a histórica parceria com o presidente Lula. Cabral diz que não tem expectativa de voltar às urnas, mas pode ser que os inúmeros exemplos de políticos em busca de redenção pelo voto o façam mudar de ideia.

    Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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