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Clã Sarney tenta retomar poder e influência no Maranhão e em Brasília

Após derrotas nas urnas nos últimos anos e a aposentadoria eleitoral do patriarca, a família prepara a volta ao palco político nacional

Por João Pedroso de Campos Atualizado em 24 Maio 2022, 18h04 - Publicado em 21 Maio 2022, 08h00

Nas últimas cinco décadas, o grupo do ex-presidente, ex-governador e ex-senador José Sarney (MDB), de 92 anos, perdeu apenas três eleições no Maranhão. A primeira derrota sinalizou novos tempos, mas foi fugaz: eleito em 2006, Jackson Lago (PDT) teve a chapa cassada em 2009 e deu lugar a Roseana Sarney (MDB), filha do patriarca, que ficara em segundo na disputa ao governo. A decadência do clã veio com as derrotas para Flávio Dino (PSB), em 2014 e 2018. “Derrotamos para sempre o coronelismo e o regime oligárquico maranhense”, bradou Dino ao ser eleito pela primeira vez, pelo PCdoB. Em 2022, no entanto, o ex-comunista e os Sarney deverão subir no mesmo palanque. O MDB de Roseana e o PV, presidido localmente pelo deputado estadual Adriano Sarney, neto do ex-presidente, caminham para apoiar o governador Carlos Brandão (PSB), ex-vice de Dino, que vai disputar o Senado. Mas além de retomar a influência local, o clã também prepara a volta ao palco nacional.

Protagonista do último projeto presidencial dos Sarney, em 2002, quando chegou a liderar a disputa ao lado de Lula, mas abandonou a candidatura após uma operação da Polícia Federal contra ela e seu marido, Jorge Murad, Roseana encarna o “plano Brasília 2023”. Sem cargo desde que concluiu o quarto mandato de governadora, em 2014, e derrotada por Dino em 2018, ela preside o MDB local e liderava as pesquisas ao governo, mas decidiu disputar a Câmara. Sob a estratégia do partido de aumentar a bancada na Casa, as chances de sucesso são tão grandes que aliados esperam dela a maior votação no estado.

MUDANÇA - Dino: o ex-governador se aproximou de antigos rivais no estado -
MUDANÇA – Dino: o ex-governador se aproximou de antigos rivais no estado – @FlavioDino/Twitter

Um triunfo de Roseana levará o sobrenome famoso a Brasília por meio do voto depois de um hiato de quatro anos, o primeiro desde que o patriarca José chegou ao Senado, em 1971. Depois disso, ele se manteve em Brasília de forma ininterrupta até 2015, como senador e presidente da República, e teve a companhia de Roseana em dois momentos — como deputada, entre 1991 e 1994, e senadora, de 2003 a 2009. O último membro do clã com mandato na capital foi Sarney Filho, o Zequinha, deputado de 1983 a 2018, mas que não conseguiu voltar ao centro do poder porque ficou em terceiro na eleição ao Senado. Hoje, o único Sarney na cidade é Zequinha, que é secretário do Meio Ambiente do governador Ibaneis Rocha (MDB).

Enquanto ensaia a volta a Brasília levado pelo eleitor, o clã também prepara a volta ao poder no Maranhão. Segundo políticos do MDB próximos a Roseana, o anúncio do apoio a Carlos Brandão está próximo. “Estamos praticamente fechados”, diz o vice-­presidente da sigla no estado, deputado Roberto Costa. A aproximação já vem de algum tempo. Em outubro, Dino buscou o apoio de Sarney para ser eleito à cadeira da Academia Maranhense de Letras deixada por seu pai, Sálvio Dino, morto em 2020. Durante a pandemia, os canais de comunicação do Grupo Mirante, de Sarney, abriram espaço para o governador. Além disso, Dino deu apoio ao deputado Baleia Rossi, presidente nacional do MDB, ao comando da Câmara em 2021.

PODER - José Sarney: o ex-presidente foi procurado por Lula e Jair Bolsonaro -
PODER – José Sarney: o ex-presidente foi procurado por Lula e Jair Bolsonaro – Marcos Oliveira/Ag. Senado

Único membro da família com mandato hoje, Adriano Sarney, um dos dirigentes da federação PV-PT-­PCdoB no estado, se aproximou do governo após a posse de Brandão. “Vivemos um novo tempo, de não agressão, essas questões políticas já acabaram e as pessoas podem conviver nessa nova era”, diz Adriano, que em 2019 pediu que se retirasse o sobrenome famoso de sua alcunha política. Embora o apoio a Brandão esteja encaminhado, com o PSB com a vaga do Senado e o PT com o posto de vice, Adriano ressalta que a federação ainda não tem decisão formal sobre esses cargos. Além disso, o PT maranhense se vê dividido entre Brandão e alas que preferem o senador Weverton Rocha (PDT). A aproximação com os Sarney rachou de vez a heterogênea base aliada do ex-governador — ele foi reeleito em 2018 numa coligação com dezesseis partidos, do PCdoB ao DEM, mas a frente já vinha em crise desde 2020, quando teve três candidatos à prefeitura de São Luís. Dino não tem sido poupado por se aproximar de rivais. “A escolha pessoal de Flávio Dino, infelizmente, não teve nada a ver com a história do nosso grupo político”, disparou Weverton.

Repleta de combinações insólitas, a eleição marca a tentativa da família Sarney em retomar parte de suas glórias políticas. O clã dominou o Maranhão entre 1966 e 2006, embora isso não tivesse se refletido na melhoria das condições do estado, o penúltimo no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atrás apenas de Alagoas. Em Brasília, o sobrenome já viveu um período de glórias. Ex-aliado da ditadura convertido em vice de Tancredo Neves em 1985, José Sarney assumiu a Presidência diante da morte do titular. Conduziu a transição democrática em meio a muitas dificuldades, em especial na economia, e foi em seu governo que se promulgou a Constituição de 1988. “Sarney percebeu que o seu desafio histórico era a questão da democracia, e nesse aspecto foi bem-sucedido”, diz o cientista político Carlos Melo, do Insper. O patriarca segue tendo bom trânsito à direita e à esquerda, como mostra a concertação estadual e o fato de ter sido procurado por Lula e pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) na corrida presidencial. Resta agora conseguir a volta ao centro do poder pelo voto.

Publicado em VEJA de 25 de maio de 2022, edição nº 2790

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