Carta ao Leitor: A conta chegou
Impacto das escolhas econômicas erradas exige um debate público responsável e realista, sobretudo em um ano eleitoral
Desemprego em queda, salário mínimo valorizado, PIB crescendo a um ritmo acima das previsões de bancos privados e de instituições como o FMI. Aparentemente, não há nuvens negras no horizonte da economia nacional. Ocorre que os fatos são teimosos, como lembra a famosa frase cunhada pelo segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams (1735-1826). Conforme vêm alertando há algum tempo diversos especialistas, esses indicadores são frutos diretos de uma tentativa do governo federal de repetir a receita do PT de gerar progresso a qualquer custo, à base de incentivos ao consumo — uma receita que já levou o país ao abismo na gestão de Dilma Rousseff. A estratégia pode até criar alguma ilusão de prosperidade, mas é incapaz de produzir um crescimento sadio e sustentável a médio e longo prazo. Assim, o Brasil não deslancha como deveria e sofre com o efeito bola de neve: a inflação força o BC a manter os juros nas alturas, o que eleva ainda mais o custo do refinanciamento da dívida pública e, por consequência, o tamanho do endividamento total do país.
No ambiente empresarial, um dos alertas do momento crítico se dá no número recorde de pedidos de recuperação judicial. No sábado 15, a Marabraz entrou para essa lista, com uma dívida de 140 milhões de reais. No dia seguinte, foi a vez de outra rede varejista, a Casas Bahia, procurar o mesmo caminho. Nesse caso, o passivo supera a casa dos 17 bilhões de reais. Grandes grupos ficaram pelo caminho no passado por incapacidade de se adaptar aos novos tempos, sendo o Mappin um desses exemplos. Marabraz e Casas Bahia também sofreram muito com a concorrência do e-commerce e até com o dinheiro sugado pelas bets, mas isso explica apenas uma parte do problema.
Estimulada a consumir, a população começou a se endividar em níveis altíssimos, algo que pode ser fatal em tempos de juros salgados. As companhias que tentam socorro à custa de financiamentos, pagando as taxas atuais, raramente conseguem sobreviver por muito tempo, independentemente da força de suas marcas, produtos e serviços. Se não bastasse, o buraco financeiro de um grupo como a Casas Bahia obriga a cortes brutais no negócio, com o fechamento de lojas e demissões em massa. A conta das escolhas econômicas erradas definitivamente chegou e exige um debate público responsável e realista, sobretudo em um ano eleitoral. Novas promessas e bravatas de palanque não vão recolocar o Brasil no trilho certo.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







