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Carnaval de Lula no Rio abre suspeitas de propaganda eleitoral antecipada

Desfile em homenagem ao presidente da República na Sapucaí é alvo de ação pelo uso de dinheiro público

Por Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Nicholas Shores Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 6 fev 2026, 13h25
  • O Carnaval é uma ocasião em que a política e os políticos são tradicionalmente lembrados — em raríssimos casos pelo lado positivo. Uma dessas exceções promete provocar um fuzuê no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Na noite de domingo 15 de fevereiro, a Acadêmicos de Niterói, a primeira agremiação a entrar na avenida, vai homenagear o presidente Lula. Não será uma homenagem qualquer. Durante mais de uma hora, 3 100 componentes distribuídos por 25 alas vão contar e cantar a história do menino pobre que nasceu no interior de Pernambuco, enfrentou as dificuldades de um retirante fugindo da fome, engraxou sapatos na cidade grande, aprendeu um ofício, virou operário, dedicou-se a defender sua categoria, fundou um partido político, enfrentou a ditadura, se elegeu três vezes presidente da República, melhorou a vida dos brasileiros, foi preso injustamente, salvou a democracia e se transformou em um respeitado líder mundial. “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, arremata o refrão do samba-enredo, reproduzindo o velho e conhecido jingle das campanhas eleitorais do petista. Um clipe da música, editado pelo PT e impulsionando essa epopeia, circula pelas redes sociais desde o ano passado e já acumula milhares de visualizações.

    VERBAS - O petista e Palhares, presidente da escola: Embratur, governo do Rio e prefeituras bancaram a folia
    VERBAS - O petista e Palhares, presidente da escola: Embratur, governo do Rio e prefeituras bancaram a folia (Ricardo Stuckert/PR)

    Na sexta-feira 30 de janeiro, a Acadêmicos de Niterói realizou o primeiro de dois ensaios técnicos antes do desfile na Marquês de Sapucaí. Um detalhe chamou a atenção: montagens que foram projetadas nos telões da avenida com a imagem de Jair Bolsonaro. O ex-­presidente apareceu vestido de presidiário, usando máscaras hospitalares e chorando. As frases que acompanhavam os memes debochavam de sua situação jurídica, ironizavam as investigações nas quais ele ainda é alvo e lembravam de algumas de suas declarações mais extravagantes. Se a ideia era ironizar, o objetivo não foi alcançado. Se era polemizar, pode-se dizer que a agremiação ganhou sua primeira nota 10. “Assim como a Lei Rouanet e nos presídios, sem novidade no chamado Carnaval brasileiro”, comentou o ex-vereador Carlos Bolsonaro. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) foi mais direta, acusando a escola de fazer propaganda disfarçada para promover a candidatura de Lula. A parlamentar ingressou com uma ação no Ministério Público Eleitoral pedindo a proibição da transmissão do desfile e a suspensão dos repasses de recursos públicos à Acadêmicos de Niterói.

    O Tribunal de Contas da União também entrou na dança. Provocada, a Corte responsável por fiscalizar a correta aplicação dos impostos dos contribuintes intimou a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que organiza o desfile, o Ministério da Cultura e a Embratur a dar explicações. Os técnicos do TCU recomendaram a imediata suspensão dos repasses federais. A Acadêmicos de Niterói recebeu 1 milhão de reais da Embratur, assim como todas as demais agremiações. No caso de Niterói, há muito mais dinheiro público envolvido. O restante do orçamento do desfile, 12 milhões de reais, virá do governo do Rio (3,3 milhões), da prefeitura carioca (2 milhões), da prefeitura de Niterói (4 milhões) e dos direitos de imagem (3 milhões). O ministro Aroldo Cedraz, relator do caso no TCU, deu quinze dias para que as entidades apresentem os documentos, prazo que termina após o Carnaval. Se for encontrada alguma irregularidade, os responsáveis podem ser punidos com multas e obrigados a devolver o dinheiro. Por enquanto, nada aponta nessa direção. Em nota, a Embratur informou que apoia financeiramente o desfile, mas não interfere na escolha dos sambas-enredo. “O nosso homenageado é um político, naturalmente terão elogios a ele e a coisas do PT, mas não é propaganda”, garante o carnavalesco Tiago Martins.

    LULA, LULA - Jingle: clipe divulgado não fica nada a dever à peça de propaganda eleitoral produzida por marqueteiros
    LULA, LULA – Jingle: clipe divulgado não fica nada a dever à peça de propaganda eleitoral produzida por marqueteiros (Giovanna Fraguito/.)
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    O presidente da República foi consultado sobre a ideia no segundo semestre do ano passado, deu sinal verde e ficou combinado que o samba seria submetido a ele tão logo ficasse pronto. Em setembro, dirigentes, compositores e músicos da escola foram recebidos no Palácio da Alvorada. Ao lado da primeira-dama Janja e da ministra da Cultura, Margareth Menezes, Lula ouviu o samba-enredo, se emocionou e teria feito um único pedido: incluir o termo “soberania nacional” em um dos versos. Na época, ele estava no meio do embate com o governo americano devido ao tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil. Os autores argumentaram que a música já abordava o tema no trecho: “Sem temer tarifas e sanções / assim que se firma a soberania”. A defesa da soberania nacional, como se sabe, foi transformado em slogan oficial do governo após a crise com os Estados Unidos. Lula aquiesceu e o assunto ficou pacificado, segundo os compositores.

    Para contar a história do presidente, haverá alas dedicadas às vítimas da ditadura, a operários grevistas e a programas sociais do governo. A surpresa reservada ao público será um carro alegórico que vai promover o que promete ser uma espetacular transformação do operário em presidente, retratado, no final, por uma escultura de 13 (o número do PT) metros de altura. Haverá também uma ala dedicada a Jair Bolsonaro, que terá uma escultura do palhaço Bozo, um vampiro que vai simbolizar “os anos que o Brasil ficou sem o PT” e pessoas virando jacaré após receberem a vacina contra a covid-19.

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    A avenida já foi palco para exaltações póstumas a Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, mas esta é a primeira vez que um presidente no exercício do mandato será homenageado no ano em que busca a reeleição. “É mesmo algo inédito”, reforça o historiador Lipe Vieira, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Lula pretende assistir ao espetáculo no camarote da prefeitura do Rio, ao lado de Eduardo Paes (PSD), seu aliado e pré-candidato ao governo fluminense, e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, provável coordenador da campanha à reeleição. A lista de convidados, que inclui artistas e autoridades de vários escalões, é controlada pela primeira-dama. Cientes de que a iniciativa tem risco de ser recebida na avenida com vaias e protestos por parte do público, um forte esquema de blindagem começou a ser colocado em prática. Seguranças já inspecionaram a área da Marquês de Sapucaí, o perímetro do camarote será isolado e cinquenta agentes à paisana estarão espalhados pelas arquibancadas e pontos estratégicos do Sambódromo. Pela programação, o último carro do desfile vai levar, além da primeira-dama, os ministros do governo a bordo — pelo menos sete já confirmaram a presença. As fantasias, em processo de finalização, foram padronizadas: terno branco e blusa azul para homens e mulheres. O vermelho característico do PT, por uma questão de estratégia, será deixado de lado. “A gente vai encerrar mostrando o Brasil soberano, com as pessoas vestidas de verde, azul, amarelo e branco. É uma forma de tirar da direita o uso exclusivo das cores da nossa bandeira”, diz Tiago Martins.

    TRADIÇÃO - Jair Bolsonaro e Michel Temer: personagens conhecidos de outros Carnavais — só que pelo lado satírico
    TRADIÇÃO - Jair Bolsonaro e Michel Temer: personagens conhecidos de outros Carnavais — só que pelo lado satírico (Bruna Prado/Getty Images; Mauro Pimentel/AFP)

    A folia da Niterói elevou ao ponto máximo as críticas ao TSE, que já vinha sendo acusado por políticos da oposição de fazer vistas grossas à propaganda eleitoral antecipada de Lula, que transforma vários eventos do governo em palanques de campanha. Para os críticos, se havia alguma dúvida a respeito desse comportamento, com o samba-enredo no Rio o Palácio do Planalto rasgou de vez a fantasia. “Isso viola a impessoalidade e contamina o Carnaval com propaganda oficial”, diz a deputada Adriana Ventura (Novo-SP), autora da representação no Tribunal de Contas e de uma consulta ao TSE. “Exaltar pré-candidato em evento de massa ainda mais com dinheiro público influencia a eleição.”

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    Recentemente, o TSE foi bem mais rigoroso. Na corrida presidencial de 2022, a Corte considerou que Jair Bolsonaro e o então candidato a vice, Walter Braga Netto, cometeram crimes eleitorais ao inflamar manifestantes no desfile do Dia da Independência. Ambos foram punidos mais tarde com a inelegibilidade. No mesmo ano, sob o argumento de que um documentário que seria exibido em um canal de televisão serviria de peça promocional do candidato à reeleição, o mesmo tribunal impediu que o programa fosse ao ar. Na época, o presidente da Corte era o ministro Alexandre de Moraes. A atual presidente, ministra Cármen Lúcia, era a vice e justificou a medida, inusitada, como uma “situação excepcionalíssima”. Para a advogada Ezikelly Barros, especialista em questões eleitorais, ainda que a homenagem a Lula no samba-­enredo possa não ser entendida pela Justiça como propaganda antecipada, o nível de exploração das imagens do desfile em futuras inserções eleitorais e uma eventual demonstração de que isso pode ter influenciado votos podem gerar dor de cabeça na campanha lulista.

    SILÊNCIO - Plenário do TSE: o tribunal não tem mostrado o mesmo rigor da eleição passada
    SILÊNCIO - Plenário do TSE: o tribunal não tem mostrado o mesmo rigor da eleição passada (Luiz Roberto/TSE)

    As autoridades representam fonte natural de inspiração para os carnavalescos em blocos, bailes e nos desfiles das escolas de samba. Em 2018, o então presidente Michel Temer foi retratado pela Paraíso do Tuiuti como “vampiro neoliberalista” que sugava o sangue dos brasileiros. Em 2020, foi a vez de a São Clemente também optar pela crítica bem-humorada ao apresentar o enredo O Conto do Vigário. Autor do samba, o humorista Marcelo Adnet entrou na Marquês de Sapucaí vestido de presidente da República, imitou armas com as mãos e reproduziu os trejeitos de Jair Bolsonaro. Os carros alegóricos eram ornados com frases como “A Terra é plana” e “Indiretas já”, telões imitaram aparelhos de celular com notícias falsas e os ritmistas estavam vestidos de laranja. Como mostra a história, a sátira política é uma das riquezas do Carnaval. Quando o enredo dá margem a bajulação e proselitismo, o resultado é um samba desafinado.

    Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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