Batalha pelo centro: as armas de Lula e Flávio pelos votos que podem decidir a eleição
Candidatos tentam amenizar os respectivos perfis radicais, moderam o discurso e fazem aceno a uma fatia do eleitorado que será crucial na disputa
Líderes da esquerda costumam dizer que a palavra moderação e o sobrenome Bolsonaro são incompatíveis, irreconciliáveis e contraditórios. O radicalismo seria a marca do clã, passada do pai, Jair, para os filhos. Essa tese se ampara em fatos notórios, como a tentativa de golpe de Estado condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o apoio do patriarca à ditadura militar e a retórica violenta como arma na disputa política, exemplificada pelo capitão, na campanha de 2022, quando falou em “fuzilar a petralhada”. Escolhido para representar a família na próxima corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro sempre foi visto como o mais ponderado e o menos belicoso dos rebentos do ex-presidente. Um de seus principais desafios até outubro será convencer a população de que seus rivais estão errados ao acusá-lo de extremista — e de que ele é capaz de dialogar com todos os brasileiros. Para atingir esse objetivo, o Zero Um quer consolidar uma imagem de moderado, pré-requisito para que qualquer candidato conquiste o eleitor independente, considerado o fiel da balança da próxima eleição.
A construção de um novo figurino no imaginário popular é crucial para as pretensões do oposicionista. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil tinha 155 milhões de pessoas aptas a votar em dezembro do ano passado. As pesquisas mostram que a grande maioria delas se divide, atualmente, entre os favoritos Lula e Flávio Bolsonaro, que aparecem empatados nas simulações de segundo turno de pelo menos quatro renomados institutos. Diante de um quadro tão disputado, o resultado final tende a ser decidido por um contingente de cerca de 15 milhões de eleitores que não se alinham automaticamente a nenhum dos dois favoritos. É uma turma que já foi chamada de “nem-nem”, não dá a mínima para o duelo ideológico e prioriza propostas destinadas a resolver os problemas do cotidiano da população, da criminalidade ao nível do custo de vida. Uma turma que quer moderação, qualidade que, por enquanto, não enxerga nos líderes do páreo presidencial, especialmente em Flávio Bolsonaro. Conforme levantamento Genial/Quaest divulgado no início do mês, 53% dos eleitores independentes dizem que o senador não é mais moderado do que seus familiares, enquanto apenas 28% dizem o contrário.
Os estrategistas da campanha do senador querem mudar essa percepção, que não seria compatível com a realidade. Eles dizem que será impossível vencer a eleição se Flávio Bolsonaro ficar posicionado no mesmo lugar de sua família no espectro político — ou seja, na direita ou na extrema direita, a depender do gosto do freguês. Eles acrescentam que a meta é apresentá-lo como um nome de centro-direita, que defende a economia liberal, programas sociais, valores conservadores e, ao contrário do pai e dos irmãos, abertura de diálogo com os adversários, que não seriam mais tratados como inimigos merecedores de fuzilamento. Não seria difícil emplacar esse figurino porque o senador, sempre de acordo com os coordenadores da campanha, seria mesmo um político moderado. “O lugar de origem dele não é essa coisa mais nervosa da direita, é a centro-direita. Como ele sempre ficou quieto, acabou ficando com a imagem do pai. Na hora em que começar a falar, será natural as pessoas perceberem que é mais moderado”, diz um dos responsáveis por burilar a imagem do Zero Um.
Disciplinado, Flávio Bolsonaro tem seguido os conselhos. Ao anunciar sua candidatura à Presidência, ele se apresentou como um Bolsonaro que toma vacina, em contraposição ao pai, que não se imunizou contra a covid-19 e sabotou o quanto pode as recomendações sanitárias destinadas a deter a pandemia. Ele também pediu paz e união diante dos desentendimentos entre seus aliados, que fizeram a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira serem criticados pelo deputado Eduardo Bolsonaro. No episódio, o senador quis marcar diferenças com os irmãos, que vivem em pé de guerra com a madrasta, e também acenar a segmentos do eleitorado resistentes a Jair Bolsonaro, como as mulheres, os mais jovens e a comunidade LGBTQIA+. Para tanto, recorreu à linguagem neutra, até então combatida, atacada e ridicularizada pelo clã. “Está todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição. Gostaria de contar com todas, todos, todes, todys e todxs”, escreveu o senador em uma rede social. Seu entorno jura que não foi uma ironia.
Mesmo as batalhas mais renhidas do pai estão sendo tratadas de forma diferente pelo primogênito. No começo do mês, líderes da oposição organizaram um ato público contra Lula e os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Flávio Bolsonaro compareceu à manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, e fez críticas ao Supremo, mas não citou nominalmente seus integrantes, nem mesmo Moraes, relator do processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de cadeia. Antes de entrar na corrida presidencial, o senador não poupava o magistrado de ataques virulentos. Chegou, inclusive, a comemorar quando Moraes foi enquadrado na Lei Magnitsky pelo governo de Donald Trump, que antes já havia anunciado uma sobretaxa às exportações brasileiras com o objetivo, entre outros, de livrar Bolsonaro da prisão. Essas sanções foram articuladas por Eduardo Bolsonaro e tiveram o apoio entusiasmado do senador na época. Agora, Flávio Bolsonaro foi orientado a dizer, quando perguntado sobre o tarifaço, que lutará contra toda tributação que onere as empresas brasileiras.
No plano dos oposicionistas, a moderação se estenderá para a área da segurança pública. Se o roteiro for cumprido, o lema “bandido bom é bandido morto” — entoado durante anos a fio — dará lugar a um discurso menos populista, que defenderá a punição do criminoso de acordo com a lei e a reformulação dos presídios de forma a assegurar o respeito aos direitos humanos dos encarcerados. É quase um Flavinho paz e amor. Como de praxe, os posicionamentos do candidato levarão em consideração os humores do eleitorado. Diante disso, um nó crucial a ser desatado entrelaça a fama de golpista aplicada à família, o sonho de anistia aos condenados pelo atentado contra a democracia e o projeto aprovado pelo Congresso de dosimetria das penas. Flávio Bolsonaro certamente será perguntado se é a favor da anistia. Na coordenação de sua campanha, há quem defenda que o ideal para ele é responder que respeita as decisões do Judiciário e do Congresso — e que elas, juntas, podem resultar na redução das punições. Seria um caminho dentro da institucionalidade e uma forma de rechaçar a reputação de extremista, que será novamente explorada pelos petistas.
Na eleição de 2022, uma das principais bandeiras de Lula para derrotar Jair Bolsonaro foi justamente a defesa da democracia, que estaria ameaçada pelo projeto de poder do capitão. Com o objetivo de vender a ideia de uma frente ampla, o petista convidou para o cargo de vice-presidente o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, um antigo adversário do PSDB que se filiou ao PSB. No segundo turno daquele ano, Lula também atraiu o apoio da emedebista Simone Tebet, que havia ficado em terceiro lugar na rodada inicial. No atual governo, Alckmin assumiu o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, enquanto Simone chefia o Planejamento. Os dois deixarão o ministério para que possam concorrer, se quiserem, ao Senado ou ao governo paulista. Candidato à reeleição, Lula repetirá neste ano que a ameaça da extrema direita permanece e também apostará na moderação para atrair os eleitores independentes. Ele tentará, de novo, reeditar o conceito de uma aliança entre esquerda e centro, comprometida com a defesa do estado democrático de direito.
Dentro ainda da batalha pela conquista dos eleitores independentes, o petista investe em acenos para a classe média com a expectativa de colher frutos eleitorais, a exemplo da ampliação do financiamento da casa própria para faixas de rendas maiores. O pacote de bondades inclui também a isenção do imposto de renda para ganhos mensais de até 5 000 reais. Essa medida ainda não surtiu todo o efeito esperado, mas é uma das grandes esperanças da campanha. Por fim, a equipe de Lula evitará a todo custo lembranças sobre a associação histórica do petista com ditaduras latino-americanas e até movimentos como o MST. Do outro lado do ringue, evidentemente, a oposição reúne farto material sobre isso para ser explorado nos próximos meses.
As pesquisas mostram que o eleitor desaprova mais do que aprova o governo. Revelam ainda um descompasso entre a euforia dos petistas com certos números da economia e o mau humor generalizado da população nessa área. Enquanto a propaganda oficial destaca o aumento da renda e o mercado de trabalho aquecido, a Genial/Quaest detectou que subiram entre fevereiro e março os percentuais de eleitores que acham que a economia piorou (43% para 48%) e que o poder de compra diminuiu (61% para 64%). Não à toa, uma das estratégias da campanha de Flávio Bolsonaro será comparar os preços de alimentos em 2022, último ano de mandato de Jair Bolsonaro, e 2025, na administração Lula. Nessa tabela, terá destaque o encarecimento do arroz, do café e da carne bovina.
Quando desfilava sem ter um rival em seu encalço, Lula dizia que 2026 seria o ano da colheita. A economia cresceria de forma mais acelerada, a inflação recuaria e a sensação de bem-estar prevaleceria. As coisas não estão saindo como planejado por ele. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã fizeram subir o preço do petróleo no mundo e dos combustíveis no Brasil. Em resposta, o governo zerou o PIS e o Cofins sobre o óleo diesel, numa tentativa de baixar o valor do produto e evitar uma greve de caminhoneiros, que poderia ter impactos eleitorais explosivos. A segurança pública, uma questão aparentemente sem solução nos governos de esquerda, continua no topo das preocupações dos eleitores. Não bastasse isso, o fantasma da corrupção voltou a assombrar na esteira dos escândalos do Banco Master e da roubalheira bilionária contra aposentados e pensionistas do INSS. Nos dois casos, o governo alega que os esquemas começaram na gestão de Jair Bolsonaro e só foram interrompidos agora, sob Lula. Apesar disso, conselheiros do presidente temem que a responsabilidade caia no colo dele.
Durante meses, Lula superou Flávio Bolsonaro entre os eleitores independentes. Em março, o senador virou o jogo, segundo a Genial/Quaest, registrando 32% da preferência, ante 27% do petista. A liderança nesse segmento, no entanto, ficou com quem não pretende votar, expressivos 36%. Essa importante fatia do eleitorado também é cobiçada, obviamente, pelos pré-candidatos que tentam romper a polarização, caso dos governadores Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, todos do PSD, e Romeu Zema, do Novo. O segredo do sucesso é a moderação. Ou menos fumaça ideológica e mais pragmatismo para construir alianças e apresentar propostas capazes de melhorar a qualidade de vida do cidadão. Só com o apoio dos extremos e de grupos radicalizados não se vence uma eleição presidencial nem se governa um país — ao menos não do jeito que a maioria dos brasileiros, cansados de guerra, espera. Lula e Flávio Bolsonaro já entenderam o desafio e iniciaram a batalha pelo centro, que pode ser decisiva na corrida ao Palácio do Planalto.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987








