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Atraso de salários, pandemia, escolas: os desafios de Paes no Rio

Eleitor carioca deixou muito claro que anseia por mudanças, já que o novo prefeito ganhou em todas as zonas eleitorais da cidade

Por Marina Lang Atualizado em 30 nov 2020, 11h54 - Publicado em 29 nov 2020, 20h13

Consagrado pelas urnas com 64% dos votos neste domingo, 29, o prefeito eleito Eduardo Paes (DEM) terá uma série de desafios ao assumir a Prefeitura do Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 2021. Desde a pandemia desencadeada pelo novo coronavírus – a ocupação de leitos de UTI no Sistema Único de Saúde na capital chegou a 93%, de acordo com o último boletim da Secretaria Municipal de Saúde – até o ajuste das contas do município, Paes terá bastante trabalho para organizar a capital fluminense.

A população carioca demonstrou que o desejo de mudança era enorme: o novo mandatário garantiu vitória em todas as zonas eleitorais da cidade – um feito para poucos prefeitos eleitos em 2º turno ao longo da história do Rio ou de qualquer outra cidade do país. A cidade, portanto, clama por serviços básicos e essenciais que, na visão do morador da cidade do Rio, foram negligenciados durante os últimos quatro anos.

O cacique do DEM elaborou um plano para os primeiros cem dias de governo na tentativa de mitigar os problemas mais urgentes do Rio. São 25 pontos que miram, principalmente, saúde pública, pandemia, educação, transporte e segurança. Todos são problemas crônicos do Rio. No entanto, o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que concorria à reeleição mas que ficou com 35% dos votos, sinalizou no final da semana passada que a Prefeitura do Rio estaria sem dinheiro em caixa para pagar o 13º salário de servidores ativos, inativos e pensionistas, o que gerou muito temor e ansiedade entre eles.

Salários atrasados

VEJA apurou, além disso, que o salário de funcionários terceirizados está atrasado. A merendeira Gisele Ferreira, que trabalha com o fornecimento de refeições nas escolas municipais do Rio, relatou o desespero que abate um grupo de mais de 200 pessoas – a maior parte delas é composta por mulheres chefes de família que não têm de onde tirar o seu sustento.

“Sou merendeira terceirizada e nos encontramos com nosso pagamento em atraso, a empresa nos informa que o motivo é a não liberação da verba da Prefeitura. Estamos perdidos sem saber o que fazer e a quem recorrer”, desesperou-se. “São muitas mães e chefes de família que não têm de onde tirar seus sustentos”, lamentou.

A situação é a mesma para Renata Rodrigues, que faz parte de um grupo que trabalha com alunos surdos na rede municipal de ensino. “Há sete meses a prefeitura não paga a prestadora de serviços. Há dois meses a empresa não nos paga”, relatou ela.

Saúde e pandemia

O drama de atraso de salários de funcionários públicos municipais, principalmente os terceirizados, permeou a gestão de Crivella nos últimos quatro anos. A situação de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, equipes de limpeza e de segurança de Clínicas da Família e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) chegou a acumular três meses de atrasos pelo mesmo motivo: as Organizações de Saúde (OSs) não estavam recebendo os repasses. VEJA apurou, também, que a falta de medicamentos nessas unidades foi uma situação constante nos últimos quatro anos.

As Clínicas da Família, responsáveis pelo atendimento primário a cerca de 70% da população que procura por unidades de saúde, foram desarticuladas na gestão de Crivella. Houve, também, a desidratação de programas como o Cegonha Carioca e o Programa de Atendimento Domiciliar ao Idoso.

Em entrevista cedida a VEJA, Paes assinalou que a saúde é prioridade número um de seu mandato. A provável escolha do secretário da pasta recairá sobre Daniel Soranz, cuja gestão entre 2014 e 2016 foi vista com bons olhos por servidores, terceirizados e especialistas em saúde. O médico sanitarista é especialista em medicina comunitária e é mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional Sergio Arouca (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O prefeito eleito planeja, também, um plano de vacinação contra a Covid-19 nos primeiros cem dias. Ele será posto em prática por meio das Clínicas da Família. A ideia também contempla o reforço ao atendimento em casos de depressão e ansiedade causados pela pandemia.

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O grande desafio da equipe de Paes, no entanto, é o afogamento dos leitos municipais ante a pandemia. No atual momento, cerca de 93% das camas de UTI disponíveis na rede pública – nas esferas federal, estadual e municipal – estavam ocupados, segundo o último boletim divulgado pela SMS na sexta-feira, 27. Devido à sazonalidade do comportamento do vírus e à ausência de uma data definitiva para alguma das vacinas, não se sabe em que condições o Rio de Janeiro estará nos primeiros dias de janeiro de 2021.

Educação

2020 ficou conhecido como o ano perdido da educação em decorrência da crise de saúde provocada pelo Covid-19. O prefeito eleito garante que implementará um programa chamado “2 em 1” já nos primeiros cem dias. Ele consiste em garantir reforço escolar aos alunos da rede pública municipal, cujas aulas foram perdidas em meio à pandemia do coronavírus. Paes também promete a volta da entrega de uniformes e de kit escolares estudantis, algo que foi interrompido nos últimos quatro anos.

Ele também promete a contratação de 500 novos professores para as escolas municipais, além de um programa para conectar os alunos à internet. Outro programa, chamado Saúde nas Escolas, pretende garantir a volta às aulas com respeito a rígidos protocolos sanitários.

Transporte

Com o BRT da Avenida Brasil ainda em obras – a previsão de entrega era 2017, mas isso não aconteceu -, Paes promete a entrega do ramal de uma das vias mais importantes da cidade até 2022. É nessa meta que o prefeito eleito derrapa, uma vez que determina um prazo muito amplo para conclusão de uma obra que já está atrasada há três anos. Por outro lado, o prefeito eleito também mira a segurança, o ar-condicionado, conservação de frotas e aumento de linhas nessa categoria de ônibus – uma espécie de corredor que atende, principalmente, a Zona Oeste da cidade.

A ideia de Paes também é implementar um vagão destinado a mulheres para coibir abusos sexuais no serviço de transporte, além de implementar câmeras de segurança para monitorar assaltos e atos de vandalismo.

Em sabatina de VEJA, o então candidato também disse que irá implementar a integração do valor das passagens dos coletivos – sem detalhar, contudo, como será o valor dessa iniciativa ou de que maneira ela vai operar.

Segurança

O prefeito eleito promete implementar o programa Segurança Presente nos bairros Bangu e Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, nos primeiros cem dias de gestão, e também implementar um forte esquema de segurança nos pontos turísticos da cidade. As estações do BRT terão patrulhamento em todas as unidades, segundo o programa de Paes.

No entanto, não existem detalhes sobre como combater a criminalidade no Rio de Janeiro – esse atributo compete ao governo estadual, responsável por gerir as Polícias Militares e Civil.

Na sabatina em que comentou o assunto a VEJA, Paes disse que vai combater milícias evitando que essas se introduzam no poder público. A ver como, de fato, esta promessa será cumprida.

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