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As dificuldades que colocam em xeque as ambições de Kassab para as eleições

Tido como um ótimo articulador, o político vê entraves para viabilizar presidenciáveis do PSD e perde espaço em São Paulo ao bater de frente com Tarcísio

Por Heitor Mazzoco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Laísa Dall'Agnol Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 mar 2026, 08h00 •
  • Economista, engenheiro civil e corretor de imóveis de formação, Gilberto Kassab tem múltiplas habilidades. Aos 65 anos, construiu uma carreira robusta, que começou em entidades do comércio em São Paulo e chegou à política institucional. Foi vereador, secretário municipal, vice e prefeito de São Paulo, deputado federal e ministro de Dilma Rousseff e Michel Temer. Usou a mesma habilidade camaleônica para ocupar cargos nas estruturas partidárias, o que lhe conferiu prestígio no meio político. Em 2011, criou o seu PSD e o transformou em uma máquina política que nunca parou de crescer. Em 2022, fez apenas dois governadores, mas chega a 2026 com seis. Em 2024, foi a legenda que mais elegeu prefeitos no país (891). Consegue colocar um pé na canoa de Lula, em cujo governo tem três ministérios, e outro na de Tarcísio de Freitas, de quem é secretário em São Paulo. Nos bastidores, tornou-se farol em momentos difíceis: se a situação está complexa, prestem atenção aos movimentos de Kassab, costumam dizer políticos e analistas. A fama construída por ele, no entanto, será colocada à prova na corrida eleitoral deste ano, quando terá que mostrar habilidade para superar os diversos obstáculos que podem dificultar os planos eleitorais de sua legenda.

    O maior problema está onde imaginava ser a sua fortaleza eleitoral: São Paulo. Nos últimos dias, vem trocando alfinetadas com Tarcísio, a quem sempre defendeu como a melhor alternativa para enfrentar Lula. Ficou contrariado duas vezes. Primeiro, porque sonhava em concorrer ao governo caso Tarcísio abraçasse a candidatura presidencial. Depois, quando o governador decidiu disputar a reeleição, alimentava o sonho de ser o seu vice. Nenhuma das duas coisas vai acontecer. Por isso, passou a expor um descontentamento que, segundo aliado próximo, já vem de algum tempo. Quando Tarcísio desistiu do Planalto, o cacique afirmou que o governador precisava ter “identidade” em relação ao padrinho Jair Bolsonaro. “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão”, cutucou. Tarcísio não gostou. “Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros. As pessoas agem por interesse próprio, deixam de ter o pé no chão”, disse o governador. Kassab, no dia seguinte, publicou nas redes uma lista com “bons amigos e conselheiros” em sua trajetória política e, ao citar candidatos que já apoiou, incluiu Tarcísio. Lembrou ainda que “não foram poucas” as disputas eleitorais que venceu. “Kassab não quer um vice do PSD em São Paulo, ele quer ser o vice”, diz um importante aliado de ambos.

    O rompimento pode ser acelerado pela postura de Kassab na eleição nacional. Enquanto Tarcísio se acerta para apoiar Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, o dirigente do PSD insiste que vai levar um dos três presidenciáveis do partido — os governadores Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado — às urnas em outubro. Para tanto, vai fazer uma provocação a Tarcísio e ao PL. Na sexta-­feira 27 e no sábado 28, promoverá uma turnê eleitoral com o trio por cinco cidades de São Paulo, onde fará filiações importantes de políticos.

    RECUSA - Mateus Simões (MG), Raquel Lyra (PE) e Fábio Mitidieri (SE): nenhum deles vai apoiar presidenciável do cacique
    RECUSA - Mateus Simões (MG), Raquel Lyra (PE) e Fábio Mitidieri (SE): nenhum deles vai apoiar presidenciável do cacique (Dirceu Aurelio/imprensa MG/Rafael Vieira/AGIF/AFP/PSD//)

    A última pesquisa AtlasIntel/Bloomberg trouxe baixos índices de intenção de voto para os três presidenciáveis do PSD: 4,9% para Caiado, 3,8% para Ratinho Junior e 1,6% para Eduardo Leite. No segundo turno, todos têm desempenhos inferiores ao de Flávio. Com a dificuldade em lançar um candidato próprio e sinalizando que não apoiará nem Lula nem Flávio Bolsonaro, Kassab pode ver a divisão no partido se aprofundar. Lula, que investe na formação de palanques regionais, tem apoios sólidos do PSD no Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Amazonas, Alagoas, Piauí e Mato Grosso. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) está mais interessada em ficar bem com Lula do que em apoiar algum candidato do PSD. Primeiro governador eleito pelo partido no Nordeste, Fábio Mitidieri (Sergipe) já disse que dará palanque ao petista. Outro nome do PSD, Mateus Simões, que assumirá o governo de Minas Gerais em abril, afirmou que o seu candidato ao Planalto será Romeu Zema (Novo), hoje governador.

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    Em 2011, quando fundou o PSD, Kassab disse que a nova legenda “não era de centro, nem de direita, nem de esquerda”. A definição (ou a falta dela) ajudou o partido a atrair gente de todos os lados. Com 47 deputados e treze senadores, o PSD sonha em formar a maior ou uma das maiores bancadas no Congresso. Para isso, precisa construir palanques fortes nos estados, mas a postura de Kassab não tem atraído ninguém, com exceção de aproximações pontuais em alguns estados com o MDB. Considerado um enxadrista de primeira, Kassab está em situação complicada no tabuleiro. Terá, mais uma vez, de provar que sabe jogar o jogo.

    Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984

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