Apesar dos elogios a Alckmin, vaga na chapa de Lula ainda não está garantida
Presidente não bateu o martelo sobre quem será o seu companheiro na campanha pela reeleição, e movimentos nos bastidores se intensificam
Em sua última aparição pública, na cerimônia que celebrou o aniversário de três anos do 8 de Janeiro, Geraldo Alckmin (PSB-SP) foi escolhido para discursar antes do presidente da República. Foi um pronunciamento rápido e contundente. Ele começou saudando Lula: “Quero dizer ao presidente que foi a sua liderança que salvou a democracia no Brasil”. Alfinetou os adversários: “Se, perdendo as eleições, tentaram um golpe de Estado, imagine o que não teriam feito se tivessem vencido as eleições”. Criticou o projeto que reduzia as penas dos condenados pelos atos golpistas: “Justiça não se divide, Justiça não se fraciona. Aqueles que cometeram crime devem sofrer o rigor da Justiça e o peso da história”. E, sob aplausos da plateia, concluiu: “Sem soberania, democracia é simulacro. Parabéns, presidente, por sua luta em defesa da soberania nacional”. Na sequência, desceu a rampa do Palácio do Planalto ao lado do petista e posou para selfies com militantes. Alckmin é considerado o vice-presidente perfeito — discreto, diligente e, acima de tudo, fiel. Apesar disso, sua vaga na chapa que vai disputar a reeleição em outubro ainda não está garantida.
O debate sobre a manutenção do vice que só recebe elogios divide os partidos da base aliada. Em 2022, Lula enfrentava a desconfiança de determinados setores da economia, tinha dificuldades eleitorais em São Paulo e se esforçava para convencer o público de sua intenção em liderar um governo de conciliação. A escolha de Alckmin, um político moderado, crítico feroz das propostas do PT e ex-adversário do próprio Lula, acenava para uma faixa do eleitorado que havia se distanciado do bolsonarismo, oferecia ao mercado uma garantia contra aventuras econômicas heterodoxas e fornecia aos partidos de centro argumentos para apoiar a chapa num eventual segundo turno. Deu certo. No governo, o vice-presidente não teve papel decorativo, como tradicionalmente ocorre. Ele foi nomeado ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, serviu como ponte entre o governo e os empresários e, mais recentemente, esteve à frente das negociações sobre o tarifaço americano — tudo sem gerar ruídos, fazer sombra a quem quer que seja ou criar problemas para o presidente. O PSB quer a reedição da aliança. O PT, por sua vez, hesita e demonstra certas preocupações.
Sem consenso entre as várias tendências, o partido traçou alguns cenários e avalia pelo menos três nomes que poderiam eventualmente substituir Geraldo Alckmin. Josué Alencar, ex-presidente da Fiesp e filho de José Alencar, vice-presidente de Lula no primeiro mandato, é citado como alternativa caso seja necessária uma aproximação maior do presidente com o setor empresarial. Se a estratégia for atrair os maiores partidos de centro para uma aliança, o governador Helder Barbalho (MDB) foi listado como o candidato capaz de executar a missão. E, ainda no campo das hipóteses, houve quem defendesse até mesmo uma chapa puro-sangue, com o ministro da Fazenda Fernando Haddad ocupando a posição de vice. A ideia foi justificada como uma precaução diante da idade avançada do presidente, que completou 80 anos. A decisão, porém, como sempre, será de Lula — e tudo indica que ela está no mínimo encaminhada.
Na segunda-feira 12, o petista se reuniu com Alckmin no Palácio do Planalto e emitiu sinais de que a parceria entre eles deve se repetir em outubro. O ministro da Fazenda também participou da conversa que teve como pano de fundo as eleições em São Paulo. Lula discorreu sobre dois cenários. No primeiro, com o governador Tarcísio de Freitas candidato à reeleição, reafirmou a importância de Haddad concorrer a uma vaga no Senado. Se a opção do governador for disputar a Presidência, o ministro da Fazenda, de acordo com o presidente, é a melhor opção do PT para o Palácio dos Bandeirantes, mesmo com grandes chances de derrota. Haddad hesita em se voluntariar para o que muitos definem como um “sacrifício eleitoral”. Alckmin, que pouco falou, também não estaria disposto a se engajar na tarefa, possibilidade que já foi cogitada pelos petistas, além do fato de o PSB já ter um pré-candidato ao governo paulista, o ex-governador Márcio França.
O vice certamente respirou aliviado no final da reunião, depois de o presidente comentar que a permanência dele na chapa evitaria turbulências. O PSB comemorou. “Alckmin construiu uma relação de confiança com Lula. Graças a ele, Lula também obteve uma votação muito melhor em São Paulo em 2022. Apesar de Bolsonaro ter vencido por lá, foi a redução dessa vantagem que garantiu a vitória do presidente naquele ano. Essa decisão é uma maneira de Lula manter a estabilidade”, disse o deputado Jonas Donizette, líder do PSB na Câmara. Ainda faltam sete meses para a oficialização das candidaturas — tempo longo demais para classificar qualquer coisa na política como definitiva, por mais perfeita que ela pareça.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978





