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A (revira)volta do DEM

Depois de encolher durante os governos do PT, partido volta a ganhar musculatura e sai à caça de potenciais candidatos para as eleições de 2018

Por Nicole Fusco 23 ago 2017, 14h48

Eram quase 21 horas de segunda-feira, 13 de setembro de 2010, quando no calor da primeira eleição após oito anos de poder, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu no palanque montado pelo PT na cidade de Joinville (SC) para apresentar ao conservador eleitorado catarinense sua candidata à sucessão, a ex-ministra Dilma Rousseff. Numa rara aparição trajando terno e gravata em comício – talvez porque, como presidente da República em viagem extra-agenda, não deu tempo de tirar -, Lula aproveitou para atacar seu mais ferrenho opositor, o partido Democratas (DEM), nomenclatura que o antigo Partido da Frente Liberal (PFL) inventou em 2007 para não ser dizimado quando a esquerda predominou no país. À multidão, Lula direcionou calculadamente sua artilharia ao então governador do estado, Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – morto em 2015 –, que havia apoiado um candidato rival ao PT. “Quando Luiz Henrique foi eleito, pensei que ele iria mudar, mas ele trouxe de volta o DEM, que nós precisamos extirpar da política brasileira”, bradou à claque.

Lula não falava à toa: revidava em solo catarinense contra a ruidosa retórica do ex-senador e ex-líder do PFL Jorge Bornhausen, segundo quem o país “estaria livre dessa raça [palavras do pefelista e catarinense contra o PT] pelos próximos trinta anos”.

Se, de fato, o DEM quase foi extirpado do cenário político nacional, por exemplo, pelo atraso em defender políticas de distribuição de renda, sete anos depois daquela noite em Joinville, as voltas que a política sempre dá apresentam um quadro completamente reverso à luz de hoje: ainda que sonhe em voltar à Presidência, Lula está enrolado com a Justiça, e o DEM ganhou uma janela de sobrevivência impensada desde que Dilma, eleita e reeleita pelas urnas, foi apeada da cadeira pelo segundo impeachment da história democrática brasileira em 2015. “Diziam que nós não sobreviveríamos na oposição, mas nós sobrevivemos”, rebate o deputado sobrevivente Pauderney Avelino (DEM-AM).

Mais: num revés improvável à época daquele comício em Joinville, o deputado Rodrigo Maia (RJ) ascendeu do posto de um líder fraco de uma bancada minguada à presidência da Câmara dos Deputados com a chegada de Michel Temer (PMDB) ao Palácio do Planalto. Como Temer rapidamente apareceria enroscado nos velhos – e mesmos — novelos de denúncias de corrupção, Maia se tornaria uma espécie de fiador da permanência do peemedebista no cargo, especialmente em julho deste ano, quando uma denúncia da Procuradoria-Geral da República chegou murcha para análise do plenário da Câmara.

Político com pouco carisma, candidato inexpressivo à prefeitura do Rio de Janeiro em 2012 – obteve menos de 100.000 votos – e apontado como apenas um porta-voz das ideias do pai, o ex-prefeito Cesar Maia, Rodrigo ganhou o estrelato. Passou a cabalar votos para o Executivo em bancadas miúdas, ganhou os holofotes da imprensa, mas, sobretudo, foi encorajado por líderes embaraçados em denúncias a pregar o ressurgimento do seu partido, que já foi a maior força do Congresso Nacional na época em que o pernambucano Marco Maciel era vice de Fernando Henrique Cardoso – o PFL já teve 105 cadeiras na Câmara.

No tabuleiro eleitoral, a um ano da campanha de 2018, o DEM esquivou-se da agenda programática três vezes derrotada nas urnas pela economia e pela mudança social que o PT empregou. Mas o partido viu num governo provisório do PMDB a possibilidade de voltar a ser grande. Sonha, aliás, em somar aos atuais 31 deputados federais até vinte parlamentares que poderiam migrar, principalmente, do PSB, cuja bancada rachou na votação da reforma trabalhista – dezesseis foram contra, e catorze, a favor.

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Voo próprio

O DEM flerta com a ideia de ter o primeiro nome próprio em quase três décadas para concorrer à Presidência da República. “Não temos mais aspiração à vice-presidência”, diz o deputado José Carlos Aleluia (BA). O último candidato do partido a pleitear o cargo foi Aureliano Chaves, em 1989. Luís Eduardo Magalhães, filho de Antonio Carlos Magalhães, era a grande aposta da legenda, mas morreu aos 42 anos.

“É possível ter sucesso em uma campanha presidencial, mesmo sem vitória”, pondera o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria. “A competição pela Presidência pode aumentar o poder de barganha do DEM no momento em que o partido tenta se reestruturar”, diz.

Dez anos depois da refundação do partido, o DEM pretende, para além de mais uma tentativa de mudança arriscada de nome — que não é unanimidade dentro do partido —, recolocar-se no centro da política brasileira. “Com o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) representando a atual extrema direita, Lula e o apoio do PT à ditadura venezuelana, o DEM foi jogado para o centro”, diz o líder da bancada na Câmara, Efraim Filho (PB). Em breve, a sigla pretende divulgar um manifesto com o novo programa partidário, que tem como foco o empreendedorismo e a governança municipal.

Lava Jato

Em tempos de Lava Jato, é imprevisível saber quem estará apto a concorrer nas eleições de 2018, já que a operação colocou boa parte da classe política na mesma régua. Nesta semana, a Polícia Federal atribuiu 2 milhões de reais de propina ao presidente do DEM, o senador José Agripino Maia (RN), nas obras  da Arena das Dunas, estádio da Copa do Mundo de 2014 — o que ele nega.

O DEM sonha com uma filiação tardia do tucano João Doria, com Rodrigo Maia em voo mais ambicioso ao governo do Rio de Janeiro, e com ACM Neto governando a Bahia e Ronaldo Caiado, o estado de Goiás. Adaptado aos novos tempos que a política impõe ou não, o DEM sonha mesmo em ser do tamanho que foi ontem. As urnas e a Lava Jato dirão.

 

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