Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

A República da Barra

A vitória de Bolsonaro reacendeu o orgulho dos moradores do bairro carioca, que, antes, nunca deram muita bola ao clã presidencial

A Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é um mundo à parte. Separada do resto da cidade por túneis e montanhas, a Barra cresceu isolada, autossuficiente e povoada por uma classe média e alta que virou até tema de novela pela opção preferencial por condomínios fechados, shopping centers, carrões, academias de ginástica e amor por tudo o que lembra Miami. Sem falar nas menções a vizinhos famosos, fruto da proximidade com os globais do Projac. “Aqui é a casa do Antonio Fagundes. Mais para a frente fica a do Renato Aragão. No Mansões tem a Anitta e a Juliana Paes”, vai descrevendo um morador envaidecido. A única coisa que o lugar não tinha, em matéria de orgulho barrense, era um ponto turístico que atraís­se multidões. Agora tem: é a casa onde mora Jair Bolsonaro, a quem os locais apoiaram em peso. “É nosso novo point”, define a decana socialite Vera Loyola, de 56 anos declarados e uns 15 a mais na certidão, dona de uma rede de padarias que nos anos 1990 dava o que falar com as manifestações de ostentação — o tipo de atitude “da Barra” malvista pelo povo cool da Zona Sul. “É na Barra que tudo acontece. Só faltava um presidente para o bairro ficar completo”, alegra-se.

Depois que levou uma facada no abdômen, no início de setembro, Bolsonaro quase não saiu mais de sua casa de dois andares no condomínio Vivendas da Barra, de frente para a praia. Do lado de dentro, o então candidato fazia reuniões, recebia apoiadores e gravava vídeos para as redes sociais. Do lado de fora, foi sendo montada a arquibancada da torcida bolsonarista, composta primeiro de vizinhos, depois de gente que vinha de mais longe. No domingo da eleição, com a avenida em frente ao portão do Vivendas apinhada de gente, o desfile incluía grupos de camisa verde-amarela ou com o retrato do candidato estampado, mu­lheres a bordo de carros importados usando shortinho jeans e salto alto (o segundo look mais visto no bairro, sendo o primeiro o conjuntinho de ginástica), senhorinhas entusiasmadas e famílias com crianças e cachorri­nho. A certa altura, um grupo de fortões fechou o trânsito para fazer dezessete flexões no meio da rua, contadas pelo comediante aposentado Paulo Cintura, que se celebrizou na Escolinha do Professor Raimundo.

Verdade seja dita: a ascensão de Bolsonaro trouxe embutida uma extraordinária mudança de comportamento da sociedade barrense em relação à sua pessoa. Ela não deu a menor bola quando ele, então deputado, se mudou da Tijuca, na Zona Norte, para a Barra, há cerca de dez anos. Tirando o Bolado, dono do quiosque onde Bolsonaro costumava tomar água de coco depois de andar no calçadão (e que hoje cobra 600 reais para dar entrevista sobre o cliente famoso), e mais um ou outro conhecido, pouca gente mantinha contato frequente com o deputado nas ruas ou nas padarias. E olha que, na Barra, todo mundo bate papo na padaria nas manhãs de domingo.

O condomínio em que Bolsonaro e a família moram na Rua C e o filho do meio, Carlos, vive sozinho na Rua B reúne 150 casas de veraneio da década de 60 que se valorizaram com o boom imobiliário do bairro. É de alto padrão e habitado por gente bem de vida, mas não conta com as amenidades dos prédios que fizeram a fama da Barra. O Vivendas tem um parquinho infantil e uma quadra poliesportiva. Os conjuntos de prédios em volta exibem piscina, cinema, mercado e até escola dentro dos seus muros. Bolsonaro desembolsa cerca de 1 100 reais por mês de condomínio, e a única vizinha conhecida (famosos são praticamente um fator de valorização dos imóveis da Barra) é a veterana cantora Rosemary, nome que só diz algo aos mais idosos. Como o filho caçula, Eduardo, fixou residência em São Paulo, o único Bolsonaro que possui acomodações padrão Barra é o mais velho, Flávio, eleito senador pelo Estado do Rio. Ele mora em um apartamento no Atlântico Sul, a pouco mais de meio quilômetro da casa do pai, com a mulher, Fernanda, dentista que atende no bairro, e as duas filhas. Seu condomínio tem seis edifícios luxuosos e a atriz Flavia Alessandra em uma das coberturas (por sinal, comprada de Fernando Baiano, um dos célebres operadores da Lava-Jato, ora em liberdade).

Até por passar mais tempo em Brasília, Bolsonaro nunca foi de frequentar festas ou fazer amigos no bairro. Não chamava a atenção nem dos vizinhos de condomínio, a não ser quando resolveu lançar rojões na direção do gerador de um hotel ao lado cujo barulho o incomodava. A mulher, Michelle, agendava três a quatro sessões de ginástica na obrigatória academia (barrense que é barrense é “fit”, como se diz) até março. “Ligamos para saber por que vinha faltando, e ela disse que estava com labirintite”, conta um recepcionista. Na avaliação dele, Michelle está com “bom porte físico para a idade” (ela tem 36 anos). Enquanto ia à academia, a nova primeira-dama pouco se relacionava com as colegas — uma turma que adora postar stories no Instagram de seu momento-suor, a ponto de, na hora da aula, vários celulares serem postos no chão, encostados na parede, para filmar a ação na hora H.

Três socialites barrenses de raiz consultadas por VEJA nunca tinham ouvido falar de Michelle — mas agora são só elogios. “Ela tem a mesma filosofia que eu: sabe que não é sucesso, só está fazendo sucesso”, resume Vera Loyola, ainda ativa nos eventos sociais do seu pedaço. “É muito reservada, dedicada ao lar e aos assuntos da igreja. Estarei aqui para o que ela precisar”, oferece-se outra, que, no entanto, prefere não ser identificada. Em suma: a desconhecida Michelle virou “top”, outra expressão típica do bairro.

A mulher de Bolsonaro é evangélica praticante, anda com uma Bíblia na bolsa e, enquanto a segurança permitiu, frequentou religiosamente a Igreja Batista Atitude, onde prestava serviço voluntário a grupos de apoio a deficientes auditivos — ela conhece libras, a linguagem dos sinais. Fora isso, suas atividades eram passear com as filhas (Laura e Letícia, esta de um relacionamento anterior) e jantar fora com o marido. Na praia, playground preferido dos barrenses depois do shopping, só se via de vez em quando o próprio Bolsonaro — de short branco, cordão dourado no pescoço e mochilinha de náilon —, eventualmente acompanhado da caçula, Laura. Sua fatia de areia era perto de casa, entre os postos 3 e 4, longe da glamourosa movimentação em torno da Barraca do Pepê, no Posto 2, onde “quem é quem” na Barra bate ponto para ver e ser visto. Eduardo, o deputado por São Paulo, surfa há vinte anos e já postou fotos sobre a prancha na Praia de Joatinga, no vizinho bairro do Joá.

Uma atividade característica do bairro à qual a família Bolsonaro se integrou plenamente foi a gastronômica. Barrense digno dessa denominação gosta de fartura, e a vizinhança esbanja rodízios de pizza, de sushi, de carne. Há churrascarias por todo lado, inclusive dentro de supermercados. Esse é justamente o caso da Baby Beef, onde os Bolsonaro, até o começo do ano, costumavam almoçar nos fins de semana. Seus cortes preferidos são picanha e baby beef. De acompanhamento, farofa, pastel de queijo e batata frita. Para beber, só suco e refrigerante — a evangélica Michelle faz restrição a bebidas alcoólicas. No dia da vitória, aliás, o general Augusto Heleno, recém-nomeado ministro da Defesa, foi visto deixando a casa do presidente eleito atrás de umas cervejas para comemorar como se deve.

A Barra da Tijuca nasceu da cabeça de um único homem, Negrão de Lima, governador do então Estado da Guanabara. Em 1969, ele encomendou ao urbanista Lúcio Costa, autor do Plano Piloto de Brasília, um projeto de ocupação da vasta e inabitada região, com 26 quilômetros de mar de um lado e lagoas de outro. Da prancheta de Costa brotaram reservas de vegetação nativa, largos eixos de circulação de trânsito e, sim, eles mesmos — os condomínios fechados com espigões de mais de vinte andares intercalados de conjuntos comerciais com torres de escritórios e shopping centers. O mais famoso deles tem uma réplica da Estátua da Liberdade na entrada (que, esclareça-se, Lúcio Costa não planejou). O bairro, com o tempo, virou um polo de atração para o carioca que estava fazendo fortuna na Zona Norte e nos subúrbios e desejava morar perto do mar. Agora, um barrense se torna presidente e o burburinho mudou, por enquanto, da Avenida Atlântica, palco das festas cariocas, para a Avenida Lúcio Costa. É “top” ou não é?

Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2018, edição nº 2607