A mudança de regime no Irã é viável? Ex-embaixador explica risco da ação de Trump
Rubens Barbosa avalia conflito no Oriente Médio, critica estratégia do presidente americano e aponta alerta comercial para o Brasil
A crise no Oriente Médio pode parecer à beira de uma ampliação regional, mas, para o ex-embaixador Rubens Barbosa, o cenário ainda é mais de retórica do que de guerra generalizada. Em entrevista ao Ponto de Vista desta segunda, 2, apresentado por Marcela Rahal, Barbosa analisou a escalada envolvendo Irã, Israel, Hezbollah e Estados Unidos — e alertou para os impactos políticos e comerciais que o conflito pode ter também para o Brasil (este texto é um resumo do vídeo acima).
A guerra está se espalhando pelo Oriente Médio?
Segundo Barbosa, a deterioração do ambiente é evidente, mas a escalada militar direta ainda não ocorreu.
Ele observa que o confronto com o Hezbollah não significa guerra formal contra o Líbano e que a participação de países europeus tem caráter defensivo, especialmente no uso de bases britânicas. Os países do Golfo fazem declarações duras, mas evitam movimentos militares concretos.
“Não interessa a ninguém ampliar as ações armadas contra o Irã”, afirmou.
Para ele, a questão central é medir até onde o Irã conseguirá resistir e manter sua capacidade de lançar mísseis contra bases americanas.
Trump age por estratégia externa ou cálculo eleitoral?
Barbosa classificou como contraditória a postura de Donald Trump. Durante a campanha, o republicano prometeu encerrar guerras, mas, agora, participa de crises simultâneas.
Internamente, segundo o ex-embaixador, Trump enfrenta desgaste com políticas migratórias e embates institucionais. Ele deveria, na avaliação de Barbosa, ter buscado aval do Congresso antes dos ataques.
“Tudo o que ele está fazendo visa as eleições (legislativas) de novembro”, disse.
Pesquisas indicariam que um em cada quatro americanos é contrário às guerras patrocinadas pelo presidente.
A mudança de regime no Irã é viável?
Para Barbosa, não.
Ele compara a situação à experiência do Iraque e afirma que não há ameaça existencial real aos Estados Unidos que justificasse a ação. Na sua visão, a motivação central é a aliança com Israel e a tentativa de enfraquecer o regime iraniano.
Mas a estrutura interna do país, operada pela Guarda Revolucionária, garante resiliência. A morte do líder supremo não alteraria substancialmente o funcionamento do sistema.
“Só há mudança de regime com ocupação de território, e ninguém quer entrar com tropas”, afirmou.
O risco, segundo ele, é que a eleição de um líder ainda mais radical aumente o sofrimento da própria população iraniana.
O Itamaraty acertou na nota?
Barbosa considera correta a condenação aos ataques e a defesa do diálogo feita pelo Itamaraty.
No entanto, avalia que faltou um elemento: uma crítica explícita ao caráter autoritário do regime iraniano e à repressão interna.
A defesa da soberania e da Carta das Nações Unidas, segundo ele, está alinhada à tradição diplomática brasileira — mas não deveria excluir uma posição mais clara sobre direitos internos.
O Brasil corre riscos comerciais com os EUA?
Sim — e esse pode ser o ponto mais sensível.
Barbosa alertou para a importância do encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, especialmente diante de investigações comerciais abertas nos Estados Unidos.
Ele mencionou a chamada “Seção 301” da legislação americana, cuja investigação já teria sido concluída, podendo resultar em sanções. Também citou preocupação com a nomeação de um funcionário alinhado à extrema-direita americana como responsável pelo Brasil no Departamento de Estado.
“Não estamos negociando com os Estados Unidos”, alertou.
Segundo o ex-embaixador, o Brasil carece de um canal estruturado de diálogo com o Departamento de Estado e com a Casa Branca, o que pode agravar eventuais medidas restritivas.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do programa audiovisual Ponto de Vista (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.





