A encruzilhada política do Congresso na retomada dos trabalhos pós-Carnaval
A intenção é priorizar projetos que gerem dividendos eleitorais e empurrar para as calendas temas que criam constrangimentos
O caso ficou conhecido como o “escândalo da parabólica”. Em 1994, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, sem saber que sua fala continuava sendo transmitida durante o intervalo de uma entrevista que concedia à TV Globo, fez o seguinte comentário: “Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura. O que é ruim, esconde”. A reação foi imediata. Diante da indignação geral, Ricupero perdeu o cargo, mas a demissão não impediu que o mantra enunciado por ele continuasse a ecoar na Praça dos Três Poderes, especialmente no Legislativo, onde parlamentares demonstram empenho para aprovar medidas de apelo popular enquanto, longe de câmeras e microfones inconvenientes, fazem o possível para enterrar assuntos que são de interesse público, mas desagradam aos poderosos. Neste ano eleitoral de 2026, o Congresso, por exemplo, tem duas pautas. Uma delas é debatida à luz do dia e contém projetos capazes de render dividendos eleitorais para o governo ou para a oposição — e, em alguns casos, para os dois grupos. Já a outra avança nas sombras, pode gerar prejuízos a autoridades e, por isso, estimula todo tipo de operação-abafa.
Na retomada dos trabalhos após o Carnaval, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tratou de mostrar serviço ao eleitorado. Cumprindo a promessa de dar andamento à proposta de redução da jornada de trabalho, ele anunciou a escolha do deputado Paulo Azi (União Brasil-BA), um quadro do Centrão, para relatar o texto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais poderosa da Casa. “Estamos aqui para priorizar este debate que é importante para a classe trabalhadora do país, que será feito com muita responsabilidade e ouvindo também quem emprega, os micro e pequenos empreendedores espalhados Brasil afora”, declarou Motta, em vídeo divulgado numa rede social. Bandeira hasteada pela esquerda, a chamada PEC 6×1 é uma das apostas do presidente Lula para dar fôlego à sua campanha à reeleição. Pelo menos duas pesquisas recentes detectaram apoio maciço da população à iniciativa. Mesmo entre eleitores de direita e, mais especificamente, entre bolsonaristas, a maioria é favorável à ideia de redução da jornada de trabalho, que só aparenta ser de fácil execução.
Empenhado em conquistar a faixa do eleitorado que ganha de dois a cinco salários mínimos, Lula, que também estuda implementar a tarifa zero no transporte público, diz não aceitar que eventual diminuição da carga de trabalho seja acompanhada de redução salarial, o que políticos do Centrão não descartam. De olho nas urnas, a oposição, mesmo pressionada pelo setor produtivo a resistir à PEC 6×1, não se mexe. Ninguém quer arriscar perder votos na próxima corrida eleitoral, que tende a ser tão acirrada como a de 2022. Essa precaução generalizada ficou clara na análise final do projeto contra as facções criminosas. De início, o texto rendeu uma queda de braço entre o governo, autor da proposta, e a oposição, que se aproveitou do fato de ter assumido a relatoria na Câmara, por meio do deputado Guilherme Derrite (PP), ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, para tentar desgastar a gestão Lula. Com críticas de lado a lado, o PL Antifacção passou na Câmara e foi alterado pelo Senado. Com as mudanças feitas pelos senadores, teve de retornar para uma derradeira votação na Câmara, realizada na última terça-feira, 24.
Deu-se, então, o inesperado: em vez de mais uma batalha verbal no plenário, governo e oposição fecharam um acordo para aprovar o texto. Assim, ambos os lados poderão declarar que agiram contra os maiores grupos criminosos do país, como se a letra fria da lei fosse capaz, sozinha, de resolver o problema da criminalidade. A questão da segurança pública sempre foi uma fragilidade dos governos do PT, devidamente explorada pelos bolsonaristas. Numa tentativa de sair das cordas, Lula também apresentou a PEC da Segurança Pública, que ainda aguarda uma negociação capaz de levá-la ao plenário. O tema é espinhoso. Para complicar o cenário, boa parte de deputados e senadores tem planos mais urgentes. Entre eles, manter a blindagem que, por enquanto, livra integrantes dos Três Poderes de serem chamados ao Congresso para prestar esclarecimentos sobre suspeitas de irregularidades diversas, de corrupção a tráfico de influência. Hoje, nenhum caso gera tanta apreensão quanto o do Banco Master, protagonista de uma fraude bilionária.
Dono da instituição financeira, Daniel Vorcaro tinha proximidade com parlamentares poderosos, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro. Um dos antigos executivos do banco é próximo ao chefe da Casa Civil de Lula, Rui Costa, e do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. Os tentáculos do banqueiro também se estendiam ao Judiciário. Um fundo ligado ao Master fechou negócio com uma empresa da família do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, e o próprio Master contratou o escritório de advocacia da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Viviane Barci, por 129 milhões de reais. A Polícia Federal já descobriu que fundos de previdência estaduais, comandados por apadrinhados de políticos, investiram no Master, enriquecendo Vorcaro e deixando um rombo para os segurados. A suspeita é de que a rede de relações do banqueiro tenha facilitado o esquema fraudulento, que deixou um rombo de 50 bilhões de reais.
Diante de assunto de tamanha repercussão, esperava-se que o Congresso cumprisse a sua nobre missão de fiscalizar. Até agora, no entanto, pouco foi feito. A maioria não quer puxar um fio que pode enredar cabeças coroadas da República. Como ocorre em situações desse tipo, alguns parlamentares até ensaiam uma tentativa de investigar. Há pedidos de instalação de CPI específica sobre o caso do banco, que continuam engavetados. Uma exceção à regra é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado. Na quarta-feira 25, ele conseguiu aprovar requerimentos de convocação de Vorcaro e dos irmãos de Toffoli que são sócios do ministro na empresa que recebeu pagamentos de um fundo ligado ao Master, além de convites — que podem ou não ser aceitos — a Moraes e a Toffoli. Já a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado acertou de colher o depoimento de Vorcaro, mas os esclarecimentos devem se limitar a certos temas. O colegiado é presidido pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), adversário do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), apontado como um dos integrantes da corte de Vorcaro em Brasília.
Um dos congressistas mais experientes do país, com papéis de investigador e investigado no currículo, Calheiros pediu informações ao Banco Central (BC) e ao Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as fraudes do Master, mas ainda não recebeu o material. Por isso, reclamou: “Eu não sei o que está havendo”. Responsável por fiscalizar em nome do Congresso, o TCU foi durante um bom tempo a aposta de Vorcaro para reverter a decretação de liquidação do Master pelo BC. Como se sabe, não deu certo. A blindagem ao banco e a Vorcaro no Congresso ecoa outra rede de proteção bem-sucedida, que emperra os trabalhos da CPMI do INSS. A comissão quebra sigilos, analisa requerimentos de convocação, determina prisões, mas não consegue identificar quais políticos se beneficiaram do roubo bilionário de aposentados e pensionistas. Lá, também não houve avanço na apuração de um testemunho que compromete o filho mais velho do presidente da República nem contra um assessor do presidente do Senado suspeito de envolvimento no esquema. Na quinta-feira 26, a oposição conseguiu aprovar a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Fábio Luís, o Lulinha, e o governo imediatamente deflagrou uma operação para tentar convencer Alcolumbre a anular a medida.
Quando ocorreu o escândalo da parabólica, Ricupero se desculpou. Ele admitiu ter errado por uma “vaidade pueril”. Hoje, os pecados dos congressistas são outros e vão da autopreservação ao ímpeto por um acordão. Em público, eles se mostram atentos às demandas da sociedade e tocam uma agenda de cunho eleitoral. Nos bastidores, no entanto, agem para dificultar a apuração de falcatruas que, suspeita-se, contaram com a participação de autoridades. Afinal de contas, “o que é ruim, a gente esconde”.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





