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“O Brasil impressiona”, diz Marcelo Claure, executivo bilionário da Shein

Um dos grandes nomes dos investimentos em startups, o empresário responsável por trazer fábricas da chinesa diz querer apostar cada vez mais no país

Apresentado por Atualizado em 19 Maio 2023, 10h23 - Publicado em 19 Maio 2023, 06h00

Um dos mais reconhecidos investidores em startups do mundo, o bilionário boliviano Marcelo Claure, de 52 anos, chegou ao Brasil, em seu avião particular, no fim de abril para ajudar a apagar um incêndio que envolveu o governo brasileiro em sua tentativa de taxar os e-commerces asiáticos. Presidente do conselho para a América Latina do site chinês de fast fashion Shein, ele se encontrou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad — em seguida, anunciou a instalação de fábricas no país, com investimentos de 750 milhões de reais e geração de 100 000 empregos. Claure ganhou renome internacional como braço direito do dono do grupo de investimentos japonês SoftBank e virou personagem da série de streaming WeCrashed, da Apple TV+, que revela os detalhes para a salvação da companhia WeWork, de escritórios destinados a trabalho colaborativo. Ele falou a VEJA por meio de videoconferência, a partir de seu escritório em Nova York.

A Shein já planejava investir em fábricas no Brasil antes de o governo querer cobrar mais impostos dos sites estrangeiros ou o anúncio foi precipitado por isso? Houve uma combinação de fatores. Na Shein, sempre falamos que teríamos de fabricar fora da China para ficar mais próximo do cliente. Na vida, há instantes decisivos. E o momento do nosso crescimento no Brasil combinou com uma conversa com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Escutei a estratégia do governo de fortalecer os fabricantes têxteis. Algumas semanas antes, eu viajei para o Brasil. Conversei com muitos políticos, incluindo o senador Jaques Wagner, e todos me falaram que a fabricação no Nordeste é decisiva para o crescimento da indústria no país. Isso nos abriu uma perspectiva para decidirmos acelerar algo que chegaria em dois ou três anos.

Como foi possível antecipar o anúncio tão rapidamente? Fizemos, meses atrás, projetos-piloto com dezenas de fábricas brasileiras para ver se elas teriam capacidade de atender à nossa demanda. É um modelo baseado em pequenas quantidades e muito ágil. Para a nossa surpresa, todas demonstraram uma capacidade incrível de adaptação. O empresário brasileiro é muito digital. Então, decidimos mudar o nosso modelo, de produção apenas na China. O Brasil ser o segundo país de produção para a Shein é relevante. Agora, estamos investindo 750 milhões de reais para capacitar o operador brasileiro no novo mundo da fabricação digital e para prover financiamento para que eles tenham o capital de giro necessário para o negócio. Quando começamos a produção na China, havia fábricas com duas pessoas e, quando a demanda estava forte, ela crescia para 200 pessoas muito rapidamente. Para ter essa flexibilidade, é preciso prover a elas uma grande capacidade financeira.

O Brasil será um polo de produção para outras partes da América Latina? Antes, era uma via única, da China para o Brasil. Agora, a ideia é fabricar no Brasil para o Brasil, mas também para o resto da América Latina.

“A nossa proposta para o governo é muito simples. Faça um imposto para todos. Se as regras forem claras e todos concorrermos em igualdade de condições, vencerá o melhor”

Qual é a relevância do consumidor brasileiro dentro do negócio da Shein? O Brasil sempre me impressiona porque tem as maiores marcas digitais. O consumidor brasileiro se adapta muito rápido à tecnologia e sempre gosta de coisa boa e nova. É um dos três mercados do mundo em crescimento e em vendas para a Shein. É a maior aposta da Shein fora da China. O mundo vive uma tendência de desglobalização e do nearshoring, em que todas as grandes empresas começam a fabricar mais perto do cliente. A Shein escolheu o Brasil como o primeiro mercado para fazer isso. Firmamos um compromisso inicial de ter pelo menos 2 000 fábricas em todo o país e contratar, por meio de nossos parceiros, 100 000 pessoas. Essa iniciativa significa um compromisso de dar uma vida nova à indústria têxtil do Brasil, setor que não tem crescido muito, porque as grandes marcas brasileiras fazem a mesma coisa que nós, importam o produto de fora e vendem internamente.

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Várias empresas de comércio internacional têm sido criticadas pela concorrência. A alegação: competição desleal e desrespeito às regras de impostos de importação. Como recebe essas críticas? Se a Shein ganhasse mercado apenas por uma vantagem tributária, não seríamos a empresa de maior crescimento no mundo. A vantagem da Shein não é a parte tributária. É o modelo de negócio novo, digital, rápido, baseado no que o consumidor quer, não no que pensamos que ele quer. Escutamos o consumidor porque utilizamos a tecnologia, a inteligência artificial. Varejistas tradicionais, da geração anterior do fast fashion, como a Zara e a H&M, têm dificuldades para se adaptar a esse modelo, e os importadores brasileiros vão ter dificuldades de concorrer contra essa agilidade, que põe o consumidor no centro da decisão de fabricação. Então, a nossa proposta para o governo brasileiro é muito simples: esqueça os conflitos que hoje existem na lei brasileira e estabeleça um imposto de importação para todos, para todo mundo no comércio eletrônico. Se as regras forem claras e todos concorrermos em igualdade de condições, vencerá o melhor.

Mas a criação do imposto não aumentaria o preço dos produtos vendidos pela Shein, a grande vantagem competitiva da empresa? A Shein pagará esse imposto. Só não queremos que o consumidor brasileiro tenha de arcar com isso. As pessoas que mais se beneficiam do modelo da Shein no Brasil são as de recursos escassos, porque o nosso preço é até 70% mais barato que o da concorrência. Como cobrar impostos dessas pessoas? Se você viaja a Miami e compra 1 000 dólares em mercadoria, você entra no Brasil pagando zero imposto. Então, por que a pessoa de recursos escassos tem de ser taxada?

Sabe-se que o senhor conversou também com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em rixa com o Governo Federal. O que discutiu com ele? Tenho grande admiração pelo Campos Neto. O Pix, modelo implementado pelo Banco Central, é estudado no mundo inteiro e pôs o Brasil na posição de país mais inovador no setor de pagamentos. Organizamos uma palestra com ele para entender melhor o sistema, até porque o cliente da Shein usa o Pix em muitas das transações. Então, para mim, era muito importante entender essa revolução.

Como vê os enfrentamentos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva com algumas empresas de tecnologia, como o interesse em adequar Uber e iFood à legislação trabalhista? Há esse problema no mundo inteiro. Na Califórnia, por exemplo, os motoristas de Uber agora são empregados da Uber. O problema é quando o preço disso é pago pelo consumidor. É preciso muito cuidado em empurrar a conta para a empresa privada por meio de impostos e de restrições, porque, no fim, quem paga é o consumidor. Companhias como a Shein podem absorver uma tributação no negócio, mas tudo tem um limite. O Brasil é um mercado maduro para os negócios. Quando o governo faz algo e se dá conta de que não é bom para a população, ele imediatamente dá meia-volta. Então, vamos esperar para ver o que acontecerá.

O mundo passa por um período de escassez de crédito e juros altos, que afeta as startups. Qual é o caminho para as empresas crescerem em cenário tão adverso? É um momento de confusão no mercado. Todo mundo está confundindo a avaliação de quanto vale uma empresa com os juros altos. Para mim, o problema está muito claro. Antes da crise financeira, o custo do dinheiro emprestado era zero. Havia, portanto, muita captação no mercado. Quando se tem dinheiro a um custo muito baixo, é mais fácil para uma empresa gerar caixa. A situação se inverteu. Há menos dinheiro disponível para as startups sem uma estratégia clara sobre como vão alcançar o lucro.

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Qual lição levou do SoftBank para os próprios investimentos? O esforço e o tempo para fazer uma coisa pequena e uma grande são os mesmos. Então, é melhor trabalhar com coisas que vão trazer impacto para milhões de pessoas. Tive uma experiência fantástica à frente das empresas investidas pelo SoftBank, como a WeWork; a empresa de robótica mais forte do mundo, a Boston Dynamics; e a maior empresa de energia solar, a SB Energy, na Índia. Foi muito bom liderar 163 empresas com diferentes CEOs. Isso me preparou para a fase mais interessante na minha vida, que é aplicar tudo o que aprendi, todo o meu capital e os meus contatos para ajudar a América Latina. Somos o continente com maior potencial. O resto do mundo tem muito capital e pouca oportunidade. Nós temos muita oportunidade e pouco capital.

“O Pix, modelo implementado pelo Banco Central, é estudado no mundo inteiro e pôs o Brasil na posição de mais inovador no setor de pagamentos”

Como foi ver um capítulo tumultuado de sua própria vida, em torno da WeWork, na série WeCrashed? No último capítulo, tem um ator me interpretando, que entra e diz que a empresa vai operar em diversas frentes. Em geral, o WeWork foi uma experiência ótima, que tinha um grande empreendedor, o Adam Neumann, com uma grande visão, mas com problemas de execução. O SoftBank fez o aporte para inaugurar 1 000 prédios da WeWork em um ano. Para colocar em contexto, a rede de hotéis Marriott levou décadas para chegar a essa marca. Você pode imaginar a loucura que é abrir 1 000 operações em tantos países e em tão pouco tempo. Mas foi muito bom. Contratamos uma nova equipe, desenvolvemos o IPO da empresa e depois fui embora, há um ano e meio. Hoje, há um declínio no real estate em algumas das maiores cidades do mundo, e o WeWork sente um pouco. Mas o modelo de negócios é ótimo e foi uma experiência fantástica.

O senhor tem investido em clubes de futebol ao lado do grupo City. Pretende pôr dinheiro também no futebol brasileiro, agora que se imagina por aqui a criação de uma liga? Estou muito contente com o meu time, o Bolívar, da Bolívia, que atravessa um ótimo momento na Copa Libertadores. Além dele, o Girona, outro clube no qual investi, tem feito ótima campanha na liga espanhola. O meu parceiro, o City Football Group, que administra esses dois clubes, além do Manchester City e o New York FC, anunciou recentemente a compra do Bahia. O Brasil é um país que, nos últimos anos, está sempre melhorando. E o futebol era algo pouco transparente. É excelente perceber que finalmente os clubes brasileiros possam ser comprados por empresas. Tradicionalmente, o problema do Brasil era só exportar os recursos naturais, digamos assim. O jogador brasileiro era sempre comprado a um preço muito baixo para o futebol europeu. Agora, com esse novo modelo para o futebol brasileiro, uma grande quantidade das transações será feita no Brasil. Quando se tem uma boa liga, muitos jogadores preferem ficar no mercado e dá para fazer dinheiro com o futebol. É o caminho que o país quer seguir. Na Bolívia é muito difícil de investir, mas é de onde venho, é a minha pátria.

Publicado em VEJA de 24 de maio de 2023, edição nº 2842

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