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“O Brasil é o nosso laboratório”, diz Brian Chesky, fundador do Airbnb

Empresário fala da importância do país para a plataforma e rebate as críticas de que a empresa inflacionou o custo da moradia nas cidades

Por Felipe Carneiro, de São Francisco, Califórnia 27 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 27 fev 2026, 11h41
  • Brian Chesky, de 44 anos, é cofundador e presidente do Airbnb, a plataforma americana de aluguel de imóveis de curta temporada. Formado em desenho industrial, ele criou a empresa em 2008 com dois colegas, alugando colchões infláveis em seu apartamento em São Francisco. Hoje, o Airbnb vale mais de 80 bilhões de dólares e opera em praticamente todo o mundo. Chesky se destaca no Vale do Silício por seu ceticismo em relação à corrida pela inteligência artificial (IA) e por ter uma visão crítica das big techs. Na entrevista a seguir, concedida no escritório dele na Califórnia, Chesky revela novos planos de negócios, rebate as críticas de que o Airbnb está inflacionando a moradia em várias cidades e explica por que o Brasil se tornou um dos mercados mais importantes para sua empresa: “O país é um laboratório para nossas ideias”.

    Parte do crescimento da receita do Airbnb em 2025 se deve ao sucesso no Brasil. Por quê? Não vou ao Brasil desde 2012, e preciso voltar. Mas conheço os dados, que são impressionantes. O país número 1 do mundo para a Uber em número de corridas é o Brasil. A adoção de tecnologia no país é muito especial, e o Airbnb é extraordinariamente popular. Nos últimos anos, o Brasil foi de um país top 10 para top 5, e caminha para se tornar o segundo ou terceiro país do mundo para nós.

    A empresa criou estratégias específicas para atuar no nosso mercado? Tratamos de entender o mercado brasileiro. Atualizamos os instrumentos de pagamento e introduzimos parcelamento. Segurança é uma grande questão no Brasil, então investimos em verificação de identidade e recursos de confiança.

    Por que o Airbnb considera hoje o país como um laboratório para testar inovações? Alguns anos atrás, decidimos voltar às nossas raízes de inovação. Criamos times pequenos com muita autonomia, como no início, concentrados em tornar mais fácil encontrar um Airbnb. Deu muito certo, e pensamos: e se aplicássemos esse modelo em um país? Escolhemos o Brasil. Em parte porque já estava crescendo rápido, tinha potencial, mas sem tanta concorrência. Era o mercado perfeito: nascente, mas com momentum, e com mais semelhanças com os Estados Unidos do que os países da Ásia. Para além dos aluguéis, passamos a oferecer experiências locais, como uma feijoada com aula de samba no Carnaval carioca. Ou seja, criamos o modelo que agora pretendemos reproduzir em outros países.

    Os clientes da plataforma no Brasil se comportam de forma diferente em relação aos usuários do restante do mundo? Cerca de 90% das reservas no país são feitas por brasileiros. Os estrangeiros ainda não descobriram que o país tem muito a oferecer fora de Rio e São Paulo, mas os brasileiros sabem e exploram muito isso. O país é exótico e emocionante. Mas parece distante. Ainda há preocupações com segurança ou com a percepção de segurança. Embora o Brasil esteja na cultura pop através do futebol, não tem a mesma marca turística de Paris ou Londres.

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    “Há quem atribua ao Airbnb a alta do custo da moradia. Essa culpa não é nossa. O estoque da empresa representa menos de 2% das unidades residenciais nas cidades”

    O Brasil aprovou uma taxa de até 44% sobre aluguéis de temporada. Barcelona, na Espanha, e Nova York, nos Estados Unidos, entre outras cidades, têm tentado restringir o Airbnb. Como a empresa lida com essa realidade? Já coletamos mais de 13 bilhões de dólares em impostos de hospedagem ao redor do mundo desde 2014. Não tenho problema com isso. Mas quem mais sofre com impostos altos são os turistas e os proprietários de imóveis. Além do lob­by da hotelaria, que força muito a resistência, há quem atribua ao Airbnb a alta dos custos de moradia. Nosso estoque representa menos de 2% das unidades residenciais nas cidades. Essa culpa não é nossa.

    A pandemia provocou grande estrago no setor de turismo e muitas empresas ainda não se recuperaram totalmente. Quais lições o senhor tirou desse período? Andy Grove, o lendário presidente da Intel, tinha um ditado: empresas ruins são destruídas por uma crise, empresas boas sobrevivem, mas grandes empresas são definidas por ela. Em março de 2020, meu conselheiro Ken Chenault, ex-CEO da American Express, me ligou e disse: “Lembra quando te falei que você passaria por um atentado de 11 de Setembro e que esse seria seu momento definidor como líder? Essa pandemia equivale a dez eventos como aquele”. Tínhamos 35 bilhões de dólares em reservas naquele ano e perdemos 80% em oito semanas. Voltamos ao básico e reconstruímos a empresa.

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    Quais foram as medidas mais importantes? Começamos corrigindo reclamações dos usuários: taxas de limpeza altas, preços subindo, lentidão no app e suporte ao cliente inadequado. Depois, eu quis expandir o negócio para além da hospedagem. Ainda me sinto jovem e não queria que minha melhor ideia fosse uma que tive aos 26 anos.

    De que forma está se dando essa expansão de negócios? Estamos trabalhando para tornar o Airbnb um hub de serviços e experiências. Cada vez mais as pessoas percebem que experiências valem mais do que bens materiais, mas não existia um app para isso. As experiências que existiam no mercado de turismo eram sem alma, de dezenas de pessoas dentro de um ônibus turístico marcando atrações numa lista. Você nunca faria isso na sua própria cidade. Resolvemos oferecer aos turistas experiências que os locais gostam — e hoje 40% do público é mesmo local. Percebemos também que uma vantagem dos hotéis era o concierge. Por isso, passamos a facilitar a vida de quem quer uma massagem, chamar um chef para sua cozinha, ou fazer cabelo e unhas. Você aperta um botão e as pessoas vêm.

    O Airbnb agora também investe em hotéis. A plataforma não era a alternativa à hotelaria tradicional? Algumas pessoas só ficam em hotéis, outras só em Airbnb, mas muitas ficam em ambos, dependendo da viagem. Metade dos hotéis do mundo é independente ou do estilo boutique, e muitos têm uma hospitalidade semelhante à nossa, se encaixam na nossa cultura. Eles queriam uma alternativa aos grandes canais de distribuição, e vamos dar isso a eles.

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    Que impacto a inteligência artificial teve em sua companhia? Vivemos há cinquenta anos em um mundo de aplicativos. Provavelmente estamos em transição para um mundo de agentes de IA. Um app é uma ferramenta. Um agente faz algo com a ferramenta. Assim como pessoas têm diferentes trabalhos, agentes vão ter diferentes especializações. Ainda estamos na etapa dos grandes modelos generalistas, mas ninguém vai querer que seu médico seja também seu agente de viagens. O Airbnb vai ter o melhor agente de viagens porque dispomos de uma capacidade única de treinar a IA com milhões de dados e conversas nossas e torná-la especialista no que fazemos. Já começamos esse processo: um terço dos nossos tíquetes de suporte ao cliente em inglês já é resolvido por IA.

    “O poder exige contenção. Existimos para servir à humanidade, não para dominá-la. Seria ótimo se o Vale do Silício tivesse valores centrais sobre como usar a IA”

    Em um movimento que chamou a atenção do mercado, o Airbnb contratou recentemente o chefe de IA generativa da Meta. Por que o investimento nesse perfil de profissional? Ahmad Al-Dahle é um luminar da IA, que liderou o time que criou os modelos Llama. Perguntei a ele por que escolheu mudar para o Airbnb. Sua resposta choca, mas não surpreende: “Quero trabalhar em IA. Mas quero ter orgulho do mundo que estou construindo para minhas filhas. Acredito no que o Airbnb está fazendo — essa ideia de pessoas reais, com conexões reais no mundo real”. Não somos uma empresa de IA. Não vendemos ferramentas de IA. Mas vamos usar IA para conectar pessoas e construir comunidades.

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    A sua geração de empreendedores de tecnologia do Vale do Silício vivia sob o lema “mova-se rápido e quebre as coisas”. Como avalia hoje o saldo desses negócios disruptivos? Gosto de dizer que a rede social foi um dos produtos mais bem-sucedidos do mundo que foi inventado e, depois, desinventado. Começou como algo voltado para amigos. Em algum momento, se tornou parassocial. Nossos amigos viraram seguidores. Em vez de mostrar pessoas com quem me importo compartilhando coisas relevantes, passou a exibir pessoas que nem conheço compartilhando coisas desimportantes. Deixou de ser rede social para virar mídia social. Acabou a intimidade e o relacionamento. Virou performance. Somos impelidos a bater de frente com os outros nos comentários do YouTube, mas ninguém nunca mudou a opinião de ninguém ali. Sabe como se muda de opinião? Colocando-se no lugar do outro. As mídias sociais ativam dopamina, o químico da recompensa, mas não a oxitocina, que é o da conexão.

    O Vale do Silício precisa fazer uma autocrítica melhor? Há um adágio no Vale do Silício de que o jeito de ganhar dinheiro na internet é monetizar os sete pecados capitais. Infelizmente é verdade, mas eu quero minha empresa promovendo conexões e experiências humanas positivas — e amor. O Vale do Silício é muito orientado por métricas, mas é muito difícil medir felicidade, significado ou conexão. As métricas são crescimento e engajamento. Você otimiza para o que se mede. Não estou demonizando as empresas de mídias sociais, elas também trazem muita coisa boa. Mas a um custo alto.

    Em um futuro próximo, que riscos enxerga no ritmo atual de desenvolvimento de novas tecnologias? Engenheiros são brilhantes naquilo que fazem. Devem fazer parte da construção desse novo mundo, mas não deveriam estar fazendo isso sozinhos, como ocorre hoje. Cidades foram erguidas por muitos tipos de pessoa. O mundo digital está sendo construído por poucos tipos de pessoa. E isso não é bom nem para os engenheiros. Você acha que engenheiros querem ir a uma festa que só engenheiros criaram? Não. Eu já fui a festas de engenheiros, e elas são péssimas.

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    O que é possível fazer de diferente? Escrevi dez princípios sobre como a inteligência artificial deveria ser desenvolvida. Nunca publiquei essas ideias nem sei se vou publicar. Mas posso ler alguns aqui. Primeiro: “A autonomia humana é sagrada. A IA trabalha para você. Nunca o contrário”. Segundo: “A tecnologia deve elevar a dignidade humana. IA que corrói a humanidade é IA que fracassou”. Terceiro: “Só porque podemos, não significa que devemos”. O poder exige contenção. Precisamos criar um contrato social entre os criadores de IA e a sociedade.

    Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984

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