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Michio Kaku: “É ridículo achar que somos a única espécie inteligente”

O físico americano fala sobre a chance de toparmos com alienígenas e de sua procura por equação que explique a harmonia divina do universo

Apresentado por Atualizado em 30 set 2022, 09h55 - Publicado em 30 set 2022, 06h00

O americano Michio Kaku, de 75 anos, ostenta uma dupla condição rara. No mundo do conhecimento, é respeitado como um dos maiores físicos em atividade no planeta, com contribuições ao estudo de áreas como a mecânica quântica e a Teoria das Cordas. Mas Kaku também tem o dom de ser pop: assim como fizeram no passado o americano Carl Sagan ou o inglês Stephen Hawking, ele sabe traduzir conceitos complexos para o público em programas de TV e em livros. Acaba de sair no país, pela editora Record, o mais recente deles: em A Equação de Deus, Kaku discorre sobre sua busca pela chamada Teoria de Tudo, fórmula capaz de unificar os campos da física. Na entrevista, ele explica por que a procura por esse graal da ciência é tão relevante e fala sobre a importância da física para o desenvolvimento humano, a chance de toparmos com alienígenas e a existência de universos paralelos.

Em A Equação de Deus, o senhor discorre sobre a busca de uma fórmula matemática capaz de unificar diferentes campos da física. Por que devotou sua vida a esse objetivo? Quando eu tinha 8 anos, os jornais diziam que um grande cientista acabara de morrer, e mostravam a foto de um livro inacabado sobre sua mesa. Fiquei fascinado com aquela história. Então descobri que o nome desse homem era Albert Einstein, e aquele livro que ele não conseguiu terminar seria a Teoria de Tudo. Essa é a equação que colocou o universo em movimento e que unificaria todas as leis da natureza em uma única teoria. Em outras palavras, Einstein queria tocar, realmente, o modo de pensar de Deus. Dali em diante, resolvi que eu precisava continuar sua busca.

Por que uma teoria seria tão importante a ponto de ser chamada de equação de Deus? Foi o próprio Einstein quem disse que sua missão era ler a mente de Deus: o universo não poderia ter sido apenas um acidente, um amontoado de equações aleatórias que não significam nada. Não: é preciso haver um princípio unificador, um conceito que dê sentido a tudo em uma única equação. Dê uma olhada em E=mc², a famosa equação dele. Tem apenas meia polegada de comprimento e, no entanto, contém o segredo das estrelas. Ela unifica a energia com a matéria. Na trilha de Einstein, os cientistas querem dar o próximo passo: unificar a força nuclear e a força da gravidade em uma única equação.

Para as pessoas comuns, conceitos assim são impenetráveis. Por que o leigo deveria gastar seu tempo tentando compreendê-los? Quando olhamos para o céu à noite e vemos os bilhões de estrelas do universo, nós nos perguntamos o que tudo isso significa. Quero dizer, como nos encaixamos nesse esquema maior das coisas? Isso toca a todos nós — nossas religiões, nossas filosofias, nossa imaginação. Einstein nos dá uma imagem, a de que o universo é uma bolha, e ela está se expandindo — isso é chamado de Teoria do Big Bang. Mas agora percebemos que pode haver outras bolhas por aí, não apenas uma, mas muitas. A cada avanço da física, percebemos que o universo é muito mais rico do que pensávamos anteriormente.

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“Quando olhamos para o céu à noite e vemos bilhões de estrelas, nos perguntamos o que tudo isso significa. A cada avanço da física, percebemos que o universo é muito mais rico do que pensávamos”

Na vida prática, qual o peso das descobertas da física? Se você revir a história, perceberá que os saltos humanos coincidem com revoluções da física. A teoria da mecânica nos deu a Revolução Industrial. E quem definiu o ritmo dessa inovação foi Isaac Newton. O segundo grande avanço veio de James Clerk Maxwell e Michael Faraday, que nos deram a revolução da eletricidade. De repente, tínhamos dínamos, geradores, lâmpadas e eletrodomésticos. Por fim, tivemos a revolução da energia atômica, que explicou a natureza do átomo e permitiu explorar seu potencial.

Einstein era considerado um rebelde fracassado quando jovem. Ser um desajustado ajudou a fazer dele um gênio? Foi crucial que Einstein se visse como um estranho. Ele matava as aulas de matemática porque sabia mais sobre ela que os professores. Quando chegou a hora de se candidatar a um emprego, teve zero proposta. O que fez? Ofereceu-se para o posto de vendedor de seguros. Tentou dar aulas particulares, mas foi demitido. Quando achou um emprego humilde de balconista, teve tempo para elaborar a Teoria da Relatividade. Sua inadequação fez bem à ciência.

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Assim como Carl Sagan, o senhor é um físico pop. Por que seguiu esse caminho? Na infância, fui a uma biblioteca para buscar o que pudesse sobre quarta dimensão, antimatéria, buracos negros — e não encontrei nada. Não havia livros sobre física, apenas infantis. E eu disse a mim mesmo: quando crescer e me tornar um físico, quero escrever livros para pessoas como eu naquela etapa da vida. Eu quero ensinar aos jovens que, sim, é nisso que trabalhamos. Nós, físicos, escrevemos sobre guerras espaciais, buracos de minhoca e afins. O jovem que se interessa por isso não está sozinho.

Traduzir conceitos complexos para as pessoas comuns tem algum impacto social? Einstein uma vez conversou com crianças em idade escolar e lhes disse que, por maiores que fossem as dificuldades delas com a matemática, as dele eram piores. Ele também disse, sabiamente, que se uma teoria não pode ser explicada a uma criança, então provavelmente não tem valor. As maiores teorias são baseadas em imagens simples. E cabe a nós transmitir isso ao público, em vez de jogar equações na cara das pessoas.

Ser um físico pop é visto com bons olhos entre seus colegas na academia? Até há poucas décadas, ser um cientista pop era um problema. Carl Sagan se candidatou a membro da Academia de Ciências dos Estados Unidos, mas foi recusado. Uma injustiça: nós sabemos que ele fez grandes contribuições à astronomia e à ciência planetária. Eis então que surgiu Stephen Hawking. Ninguém contestava o fato de ele ser um grande cientista, e ele adorava conversar com pessoas comuns. Hawking promoveu uma mudança radical na maneira como outros cientistas veem os colegas que dialogam com o público.

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O senhor já declarou que acredita na existência de vida extraterrestre, e que em questão de um século a humanidade terá contato com alienígenas. O que sustenta essa previsão? Há 100 bilhões de estrelas só na Via Láctea e outros 100 bilhões de galáxias. Se há tantos bilhões de mundos, como assumir que somos a única espécie inteligente? É uma presunção ridícula. Nós, cientistas, sabemos disso e estamos tentando interceptar sinais dessas outras civilizações. Até agora não detectamos nenhuma indicação de vida inteligente no universo além do planeta Terra. Mas talvez, dentro de 100 anos, nossos telescópios e receptores de rádio sejam tão poderosos que seremos capazes de encontrar evidências de planetas com vida. Temos de nos acostumar com a ideia de que provavelmente não somos a única espécie inteligente na Via Láctea.

Devemos festejar ou temer essas formas de vida alienígena? Algumas pessoas defendem a tese de que, em vez de simplesmente tentar captar sinais do espaço, devemos enviar transmissões anunciando nossa existência aos alienígenas, dizendo: “Aqui estamos, venham nos visitar”. Pessoalmente, acho que é uma má ideia. Pois não sabemos o que os alienígenas querem. É preciso mirar-se na triste história do México colonial. Montezuma, o líder dos astecas, cometeu um dos maiores erros da história ao achar que o conquistador espanhol Cortés era um deus. Cortés era um pirata em busca de ouro. Tinha armas de aço, cavalos — e levou para os astecas a varíola, destruindo o império em poucos meses. Por isso, temos de ter cuidado ao buscar contato com os aliens. Na maioria das vezes, eles serão pacíficos. Mas, caso não sejam, é melhor não saberem de nossa existência.

O novo telescópio James Webb pode desempenhar um papel importante na busca por vida em outros planetas? Sim, definitivamente. Até agora, registramos 5 000 planetas circulando em torno de outras estrelas. A maioria deles é do tamanho de Júpiter, mas alguns são muito próximos do tamanho da Terra. Agora, queremos fotografias de suas atmosferas e saber mais sobre seu clima. O telescópio Webb é poderoso o suficiente para nos dar detalhes desses planetas. Eles têm oxigênio? Água? Vida? Mal posso esperar pelas revelações que o telescópio nos trará.

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“É claro que nós nos contorcemos de rir quando ouvimos pessoas defendendo teorias bobas como o terraplanismo. Mas temos de ser incansáveis em fazer valer a luz da ciência”

Nos últimos anos, a ciência vem sofrendo ataques — a desinformação reviveu até mesmo a estapafúrdia teoria de que a Terra é plana. O conhecimento está sob ameaça? Em uma democracia, sempre podemos dar nossas opiniões. Algumas delas são ultrajantes, outras incorretas. Mas isso é liberdade de expressão. Temos de permitir que as ideias — inclusive as mentirosas e erradas — entrem em conflito umas com as outras. Se a democracia permite diferentes pontos de vista, porém, cabe aos cientistas defender o rigor do método científico, que consiste em provar que uma teoria de fato é verdadeira. As ideias corretas vêm da interação com as incorretas: é o conflito constante entre elas que expõe a verdade. É claro que nós nos contorcemos de rir quando ouvimos algumas pessoas hoje defenderem teorias bobas como o terraplanismo. Mas temos de ser incansáveis em fazer valer a luz da ciência.

Uma das teorias fascinantes que o senhor estuda traz a possibilidade de um dia a humanidade acessar dimensões paralelas. Como isso seria possível? Einstein nos deu uma quarta dimensão, que é o tempo. Depois, a Teoria das Cordas chegou a onze. E o que na física chamamos de buracos de minhoca são talvez portais para outras dimensões. Essas passagens dimensionais são possíveis em teoria, mas muito difíceis de ser acessadas na prática: abrir tal portal requereria energia comparável à de um buraco negro. Não pense, portanto, que qualquer inventor vai criar uma máquina para surfar num buraco de minhoca tão cedo. Estamos falando de algo que só estará ao alcance de uma civilização muito avançada.

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Na ficção, filmes como Matrix e as superproduções da Marvel exploram multiversos e viagens no tempo. Há algum lastro científico nessas tramas? Na ficção científica dos anos 1950 era tudo sobre foguetes, porque essa era a vanguarda da ciência então. Mas hoje foguetes entediam os jovens. Assim, os escritores têm de fazer algo novo, excitante, vindo da física, como naves capazes de viajar para outras dimensões e universos. E assim o multiverso praticamente assumiu o controle dos filmes da Marvel. Agora, há alguma verdade nisso? A resposta é: talvez sim. A mecânica quântica é a teoria mais bem-sucedida de todos os tempos, e é daí que vem a ideia do multiverso: do fato de que os elétrons podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Os físicos levam a ideia do multiverso muito a sério.

Aos 75, o senhor ainda sonha em descobrir a Teoria de Tudo? Bem, eu espero que alguém, talvez um jovem estudante empreendedor, consiga alcançar esse feito que eu e tantos outros cientistas sempre buscamos. Será um grande evento para o mundo.

Publicado em VEJA de 5 de outubro de 2022, edição nº 2809

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