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Luciano Bivar: “O jogo de 2022 ainda não começou”

O presidente do União Brasil diz que ainda há tempo para achar o nome ideal da terceira via e critica duramente seu ex-aliado Bolsonaro

Por Reynaldo Turollo Jr. Atualizado em 25 fev 2022, 12h04 - Publicado em 25 fev 2022, 06h00

Presidente do partido com a maior bancada da Câmara, o União Brasil, o deputado Luciano Bivar será um personagem importante nos bastidores da próxima eleição. Dono das chaves do cofre mais recheado do pleito, com cerca de 1 bilhão de reais de Fundo Eleitoral, ele é um dos caciques políticos envolvidos na operação que pode impactar a disputa presidencial, a partir de uma possível aliança entre a sua legenda, o MDB e o PSDB (o União e o MDB já acertaram uma coligação, embora tenham descartado formar uma federação entre si). Apesar das dificuldades em rivalizar com os favoritos Jair Bolsonaro e Lula, Bivar diz estar confiante em que as três siglas e outros representantes do centro vão caminhar juntos e definir um candidato único na corrida ao Palácio do Planalto. “A campanha ainda não alcançou o grande público”, explica. Ex-aliado, Bivar hoje tece muitas críticas ao presidente. Entre elas, a de que Bolsonaro se afastou de dois importantes compromissos assumidos em 2018: a defesa do estado de direito e o foco na economia de mercado. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

As eleições presidenciais devem se resumir a um embate entre os dois favoritos da atualidade, Lula e Bolsonaro? Não acredito. Nas eleições realizadas no fim de 1989, por exemplo, Fernando Collor veio a aparecer com força apenas a partir de agosto daquele ano. O jogo de 2022 ainda não começou.

Qual o nome da terceira via com mais espaço para crescer? A campanha política vai começar a engrenar somente após a acomodação da janela partidária, em abril. É claro que, quando você tem o nome de um candidato que esteve dezesseis anos no poder, como Lula, e outro que está no poder agora, é natural que eles apareçam na frente das pesquisas. Mas ainda há um campo de indefinição muito grande. Nós acreditamos que um candidato que não seja nem de uma direita fundamentalista nem de uma esquerda estatizante terá muito espaço para crescer nessa campanha.

Por que nomes como o do governador paulista João Doria e o do ex-juiz Sergio Moro até agora não decolaram? Porque a campanha ainda não alcançou o grande público. Hoje, quem fala sobre política é a classe política. As pessoas estão vivendo suas vidas e não sabem direito quem são os candidatos.

Mas os personagens já estão em campo. Sim. O Moro está fazendo muito bem o papel dele, fazendo palestras e tendo naturalmente a cobertura jornalística de um pré-candidato. O Doria tem São Paulo, o estado mais poderoso da federação. Bolsonaro está viajando a todo momento, em parte, para acompanhar as hecatombes que estão acontecendo, como as enchentes. E o Lula tem sempre aquela massa fiel que está com ele dentro daquelas ideias dele. Mas a campanha, propriamente dita, ainda não deslanchou. O eleitor não sabe o que a Simone Tebet, do MDB, pensa, o que o candidato do União ou de um dos outros partidos pensa. Há muita coisa para acontecer.

“A campanha de 2022 ainda não alcançou o grande público. Falta muito até outubro. Em 1989, Fernando Collor só veio a aparecer com força apenas a partir de agosto daquele ano”

Moro, que hoje está no Podemos, ainda pode ir para o União Brasil? É fato que as conversas existiram e continuam a acontecer. No momento em que a gente zerar o processo, com todas as correntes caminhando juntas, o Moro poderá participar e será um player importante. Trocar de partido, porém, é uma decisão dele. Por aqui, não tem porta fechada. Ao contrário. Eu me empenho todos os dias para ver se a gente chega a um consenso.

Então, a preferência do senhor é que Moro migre para o União Brasil? Minha preferência é o União Brasil ter um candidato próprio.

Pode ser alguém do quadro atual ou alguém que venha a entrar no partido? Em política é difícil prever o que vai acontecer. Como dizia o Marco Maciel, política é igual às nuvens: “Você fotografa agora, sopra o vento e elas já se dispersam”.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta foi realmente descartado para essa posição? Tem alguns nomes que vamos submeter muito em breve, entre eles o de uma mulher. Só posso adiantar isso. Em relação ao Mandetta, um quadro muito importante do União, ele optou por ser candidato a senador por Mato Grosso do Sul. Temos de respeitar suas decisões.

É real a possibilidade de uma grande aliança envolvendo União Brasil, MDB e PSDB? Estamos empenhados em fazer essa aliança acontecer, mesmo que seja como uma grande coligação, debaixo de um guarda-chuva que abrigue todos que propugnem a defesa da democracia, todos que aceitem abrir mão de sua candidatura em favor do país. Em breve, com o avanço das negociações, vamos criar um critério para estabelecer quem será o melhor candidato dessa aliança. A ideia é que todos se aglutinem em nome desse candidato, que representará esse grupo de partidos.

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Um dos entraves para uma aliança maior para a disputa presidencial são os caciques do MDB do Nordeste. Eunício Oliveira, Renan Calheiros e outros são próximos de Lula. Como isso vai ser resolvido? Estamos conversando com grandes lideranças do MDB. Em um encontro recente, Renan não esteve presente, mas estiveram nesse dia o senador Marcelo Castro (PI), o Baleia Rossi (presidente nacional do MDB) e o Isnaldo Bulhões (AL). Vieram representando toda a cúpula da legenda. Então, só tenho de tomar como oficial as decisões que esse grupo nos trouxe.

O senhor conta mesmo com o PSDB dentro dessa aliança? Incluo também o PSDB. O Doria disse que estaria também atrelado a esse projeto. Assim como o Podemos, do Moro.

O senhor não está confiante demais a respeito das chances de uma candidatura única da terceira via? Tenho certeza de que essa terceira via vai marchar unida em torno de um só nome. Ninguém apostava que nós faríamos a fusão com o DEM e nós fizemos. Essa desconfiança que alguns analistas têm hoje, eu ouço dentro da minha própria casa, do meu próprio partido. Mas vai acontecer. Quem está fazendo mais esforço pela terceira via somos nós. A gente já deu uma prova inequívoca de que queremos realmente aglutinar forças democráticas para defendermos um projeto de país. O Brasil precisa disso. E assim faremos.

Bolsonaro se elegeu em 2018 pelo PSL. Naquela época, o senhor deixou o partido a cargo do grupo dele. Qual a avaliação que o senhor faz do governo hoje? Quando Bolsonaro veio para o partido, ele tinha de 10% a 12% das intenções de voto. Na ocasião, eu passei o comando para o Gustavo Bebianno. Foi uma estratégia, pois eu era candidato a deputado federal e estava concentrado nesse objetivo. Mas Bebianno ligava para mim diariamente. Vivemos momentos de entraves tão grandes que eu cheguei a fazer uma carta pessoal para Bolsonaro dizendo que eu o apoiaria, mas que ele seguisse por outro caminho. Aflito, o Bebianno ligou para mim, nós nos realinhamos e o público não veio a saber do episódio. O que nós acertamos na vinda de Bolsonaro para o PSL era a defesa do estado de direito e das instituições, além de um claro foco na economia de mercado. Isso não foi feito.

Onde o governo falhou? No decorrer do seu mandato, Bolsonaro afastou-se desses valores, ficando muito conservador. Qual a diferença do conservador para o liberal? O conservadorismo estimula o Estado, uma grande semelhança dele com o socialismo. O liberalismo quer que o Estado seja o que Adam Smith falava, o laissez-faire, deixe o povo fazer, deixe que haja uma competição. Paulo Guedes escondeu-se no biombo do liberalismo para praticar as coisas mais retrógradas na economia. O Salim Mattar deixou o governo porque não conseguiu privatizar nenhuma empresa, mesmo as deficitárias. Queremos que o Estado tenha seus programas sociais, mas tudo dentro do Orçamento. Para isso temos uma proposta de reforma tributária absolutamente espartana para os contribuintes, mas que vai aumentar enormemente a base, onde todos pagam, mas pagam menos.

O senhor se decepcionou com Paulo Guedes? Como muitos brasileiros, sim. Tem coisa até que ele estatizou. Um exemplo: havia uma empresa privada, a seguradora Líder, que era responsável pelo DPVAT. Eles pegaram o DPVAT, que era privado, e o tornaram público. Agora é a Caixa Econômica que paga. Mas como é que o governo está pagando isso? Com a reserva de 4 bilhões de reais que o DPVAT tinha em caixa. E quando acabar a reserva, como vai fazer? Mais recentemente, teve essa história de Auxílio Brasil. Não posso acreditar em Papai Noel. Isso é claramente um projeto eleitoreiro.

“O que nós acertamos na vinda de Bolsonaro para o PSL era a defesa do estado de direito e das instituições, além de um claro foco na economia de mercado. Isso não foi feito”

Recentemente, o senador Flávio Bolsonaro disse que está tendo conversas com o União Brasil para ter o apoio do partido. Isso tem algum fundamento? É natural que todos os players queiram conversar conosco. Isso não significa que vamos nos unir a eles. A informação que passaram foi a de que eles querem falar comigo sobre economia, a nossa proposta de reforma tributária. Não sei se por trás disso há outros interesses. O governo Bolsonaro tem ministros muito malucos. Como entrar num governo com membros que idolatram seu chefe maior, sem ter o menor discernimento de dar um conselho? É um governo cheio de pústulas.

Cerca de vinte parlamentares devem deixar o União para acompanhar Bolsonaro no PL ou outros partidos do Centrão. Isso o preocupa? Nós vamos superar na eleição os 53 deputados que o PSL tinha. Imagino que a gente pode perder agora, na balança de entra e sai, no máximo dez deputados. Vamos ficar com setenta, contando PSL e DEM.

O União Brasil vai ter mais de 1 bilhão de reais neste ano dos fundos Eleitoral e Partidário. Qual sua visão sobre destinar recursos tão vultosos aos políticos num momento de crise do país? No sistema anterior, de financiamento privado de campanhas, existiam as maiores distorções: cumplicidade, comprometimento com as empresas, e o toma lá dá cá. Se não existisse o fundo de campanha, só existiriam dois candidatos: o do presidente e o dos governadores. Com o fundo, eu posso me confrontar com esses candidatos em condições de igualdade.

Publicado em VEJA de 2 de março de 2022, edição nº 2778

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