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“Há beleza na velhice”, diz Alexandre Kalache, especialista em longevidade

Um dos mais respeitados nomes do mundo na área diz que o Brasil precisa correr para dar conta do envelhecimento da população

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 30 jan 2026, 06h00 • Atualizado em 30 jan 2026, 11h39
  • O gerontólogo carioca Alexandre Kalache, de 80 anos, começou a se interessar pelos impactos do envelhecimento na sociedade há cinco décadas, quando ele e o Brasil ainda eram jovens. Como pesquisador da prestigiada Universidade de Oxford, no Reino Unido, e diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), cargo que ocupou entre 1995 e 2008, previu que o país não estava pronto para um aumento do número de idosos em movimento tão acelerado, correndo sério risco de ser incapaz de oferecer qualidade de vida aceitável para a chamada terceira idade, além da dificuldade de o sistema de Previdência manter a aposentadoria de volumoso grupo. O Brasil registra, atualmente, 15% da população com mais de 60 anos. Em 1975, eram 5% e estima-se serem 30% em 2050. Internacionalmente respeitado, Kalache falou a VEJA a respeito do futuro grisalho — que reserva imensos obstáculos, sem dúvida, mas também magníficas oportunidades.

    Quais desafios o Brasil, que envelhece em ritmo tão acelerado, terá de enfrentar no futuro? A principal questão brasileira é ter envelhecido antes de se tornar uma nação próspera. Na prática, as pessoas estão vivendo muito mais, o que é um fato a ser celebrado. Mas o país não se preparou para tal fenômeno, que tem um impacto gigantesco nos sistemas de saúde e Previdência e no próprio PIB. Também a mão de obra encolhe, já que essa multidão de cabeça branca sai do mercado sem que haja reposição em igual velocidade. Nesta era, os brasileiros estão tendo menos filhos, daí a população jovem diminuir em ritmo tão acelerado. Em 2050, haverá o dobro de idosos, que representarão 30% da população.

    Qual, então, o caminho a percorrer para minimizar tais efeitos? A França levou 145 anos para duplicar sua população e nós registraremos o mesmo em apenas dezenove. São oito gerações a menos para se adaptar. Não é pouco. É preciso começar já a criar políticas para esticar o tempo das pessoas na ativa, garantindo-lhes condições compatíveis com sua idade. Mas devemos, antes de tudo, fazer uma profunda reflexão sobre o que é ser velho. No Brasil, o grupo da terceira idade ainda é visto como um peso para a sociedade, uma turma de segunda categoria.

    Por que isso ainda ocorre no país? O etarismo ou idadismo, termo cunhado nos anos 1960 pelo meu mentor nos estudos da longevidade, o americano Robert Butler, é um preconceito que contém a mesma carga negativa do racismo ou do machismo. O que observo é que os jovens brasileiros têm a ideia de que valem mais do que os velhos. Por isso, os tratam com certo desdém.

    “Envelhecemos e continuamos tendo desejo, mas a vida sexual se transforma. As ideias mais tradicionais sobre como ser feliz na cama são substituídas pelo toque, pelo carinho”

    Segundo seus estudos, como essa mentalidade se reflete entre os mais velhos? Eles acabam internalizando o preconceito e se posicionando como se, de fato, fossem inferiores na ordem das coisas. Até a classe médica frequentemente reproduz essa visão estigmatizada, atribuindo quase tudo à passagem do tempo, sem levar a sério as queixas desses pacientes. “É coisa de velho, é assim mesmo”, dizem. Isso tende a prejudicar o próprio tratamento.

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    O senhor está dizendo que falta preparo aos médicos para lidar com a clientela grisalha? Com certeza. Apenas 10% das escolas de medicina oferecem geriatria no currículo. Há um déficit de 28 000 deles, e essa lacuna só cresce. A solução é promover treinamento pesado, abrangendo todo o pessoal que trabalha na área da saúde — do enfermeiro ao dentista, incluindo profissionais voltados para os males da mente. Inúmeros idosos, aliás, se sentem profundamente solitários, algo que não pode passar em branco.

    Como combater o problema da solidão nessa etapa? Hoje, 4 milhões de idosos moram sozinhos e outros 8 milhões vivem com um único parceiro. Mesmo assim, não se está livre da solidão, até porque o cônjuge, a essa altura, nem sempre faz aquela companhia que verdadeiramente preenche. E é justamente nesse ponto da vida que as pessoas mais necessitam de afeto. A boa notícia é que elas podem encontrar, mais maduras, diversas formas de satisfação e prazer. O sexo faz, sim, parte da velhice dos tempos atuais.

    O que muda na rotina sexual nesse estágio da existência? Envelhecemos e continuamos tendo desejo, mas o exercício da vida sexual se transforma. As ideias mais tradicionais sobre como ser feliz na cama são substituídas pelo toque, pelo carinho. As pessoas vão descobrindo aos poucos novos caminhos e se libertando com cada vez mais frequência do pensamento engessado de que sexo é coisa de jovem. Não é um processo fácil.

    Ainda existe um tabu sobre o tema? Sim. Muita gente tem vergonha de tratar do assunto. O tabu pesa mais sobre as mulheres. Quando dão sinais de que mantêm uma rotina sexual ou aparecem com namorado, recebem mais olhares tortos do que os homens. Como se aquilo fosse errado para uma mulher madura. E não acontece só no Brasil, não. Até em países mais avançados, em que os idosos encontraram seu espaço na sociedade há mais tempo, se observa preconceito dessa natureza. O lado bom é que há evolução.

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    Houve um avanço de cunho mais filosófico sobre a passagem do tempo? Isso é claro. Não à toa, criei o termo “gerontolescência”, já adotado por diversos de meus pares mundo afora. A palavra se refere à transição da idade adulta para a velhice, período em que os indivíduos costumam se libertar de amarras e descobrir uma liberdade que nunca experimentaram antes, ousando fazer o que nunca fizeram. Minha geração, na juventude, se trancava no quarto com a namorada, e os pais não sabiam como reagir. Agora somos nós, os velhos, que estamos naquele mesmo quarto. E os netos não sabem o que fazer.

    Como encarar a aposentadoria dentro desse novo contexto? A ideia de que a gente aprende tudo quando é jovem, trabalha duro a vida inteira e depois se torna um aposentado sem nenhum afazer é ultrapassada, um pensamento com raízes no século XIX. Precisamos agora refazer esse roteiro, já que a existência é mais longa e saudável. Por que não estudar e se requalificar para partir para uma reinvenção no mundo do trabalho? Na minha visão, não cabe mais uma aposentaria repentina e radical, que pode trazer um súbito vazio. Proponho um outro modelo.

    Qual modelo? Uma opção é diminuir gradualmente as horas de trabalho e aumentar as de lazer, sem um choque. Não faz sentido cumprir um batente de 9h às 17h num dia e, no seguinte, não saber mais o que fazer com tanto tempo livre. Uma outra estratégia, que já começa a ser adotada, é se dar vários sabáticos ao longo da vida — inclusive na maturidade, indo e voltando ao universo do trabalho.

    O senhor chama a atenção em seus artigos para o atual fenômeno da “crise do cuidado”, em que idosos se veem desassistidos, sem familiares para prestar ajuda. Como resolver isso? Quando eu era jovem, minhas primas brigavam para ver quem passava a noite com um parente doente. Mas era um outro Brasil: as mulheres não haviam ingressado no mercado de trabalho. Hoje, ocupam todo tipo de cargo, e ainda se espera delas que sigam com a mesma responsabilidade, ainda que não tenham aquele tempo livre de antes. A sobrecarga é brutal e aí não há dúvida: a mentalidade dos homens precisa mudar. Por incrível que pareça, a antiga ideia de que cuidar é “coisa de mulher” resiste.

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    “A indústria quer vender a ilusão de que é possível deter o tempo, o que considero charlatanismo. A busca frenética pela juventude eterna é fútil e reflete uma ansiedade social”

    Qual sua avaliação sobre a alternativa de alojar os idosos em casas voltadas para eles? As famílias brasileiras ainda sentem vergonha de instalar um parente idoso em um asilo. Mas está provado que, em muitos casos, essa é uma boa solução, desde que o local passe por um crivo de qualidade, claro. Em lugares como esses, os mais velhos podem encontrar companhia, vida social e tratamento de alto nível para problemas de saúde. Curioso é que em vários cantos do mundo a visão sobre essas instituições é positiva. As pessoas aqui precisam ser honestas: se não conseguem dar a atenção necessária, devem reconhecer isso e terceirizar os cuidados. A negligência e o abandono estão muito mais presentes dentro de casa, encobertos. É um mal silencioso.

    As pessoas revelam ainda muito medo de envelhecer? Apesar de todo o avanço, observo, sim, um grande medo em relação à passagem do tempo. Acham que ficar velho é um mal. Eu mesmo, quando era diretor da Organização Mundial da Saúde, lutei contra a inclusão da terceira idade na classificação internacional de doenças. Consegui barrar o que representaria um retrocesso. Muita gente, porém, é incapaz de reconhecer a beleza desse período e tenta frear o processo a todo custo, de forma artificial.

    Como isso mais ocorre? Esse afã está embutido na crescente busca por procedimentos estéticos para rejuvenescer, muitas vezes prejudiciais. Virou uma epidemia. Quem quer fazer uma intervenção pontual para melhorar a autoestima e se sentir bem que vá em frente: é uma decisão de cada um. O problema são as engrenagens de uma indústria que quer vender a ilusão de que é possível deter o tempo, o que considero um charlatanismo. A busca frenética pela juventude eterna é fútil e reflete uma ansiedade social.

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    As redes sociais contribuem para a obsessão de querer parar o tempo? O brasileiro já é hedonista e vive imerso em uma cultura voltada para o belo e o efêmero. As redes só fazem contribuir para isso. Uma turma de influenciadores vive de sedimentar a ideia de que a velhice é indesejável ao vender produtos que se dizem milagrosos para evitá-la a todo preço. Tudo isso acaba tendo o efeito de fazer as pessoas não aproveitarem o que o tempo presente pode trazer de bom, preocupadas que estão com rugas, colágeno e um padrão único de beleza.

    O senhor foi convidado para ir ao Vaticano no ano passado para falar sobre longevidade aos cardeais. Como receberam suas ideias? O encontro foi pensado pelo papa Francisco, que tinha uma visão bastante moderna do envelhecimento. Mesmo após sua morte, o Vaticano fez questão de manter a palestra que acabei dando em Roma. Um dos pontos que o pontífice havia enfatizado em uma mensagem que me enviou foi sua forte preocupação com as condições em que a humanidade estava envelhecendo. Para ele, o mais importante era que essa etapa viesse cercada de cuidados e dignidade. Faço minhas suas sábias palavras.

    Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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