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“Deixo a vida me levar”: os aprendizados de Fátima Bernardes

A apresentadora que trocou o 'Jornal Nacional' pelo entretenimento elogia a imprensa e diz ser a favor do aborto e da legalização das drogas

Por Sofia Cerqueira - Atualizado em 19 Jun 2020, 13h15 - Publicado em 19 Jun 2020, 06h00

Pela primeira vez desde o início carreira, a apresentadora Fátima Bernardes, 57 anos, passou um mês inteiro em casa, sem estar de férias nem de licença médica. Inquieta, do tipo que já teve crises de ansiedade no passado, achou que seria um drama, mas não foi: dividiu o trabalho doméstico com o namorado, o deputado Túlio Gadêlha (PDT-PE) — ela na cozinha, ele na limpeza da piscina —, e com os trigêmeos, que passam uma semana com a mãe e outra com o pai, William Bonner, do Jornal Nacional — que ela apresentou por quase catorze anos ao lado do ex-marido. De exercício, só aulas de ioga on-line. Fátima orgulha-se de haver deixado de ser obsessiva no planejamento de cada minuto da agenda. Já está de volta ao palco do Encontro (sem plateia), onde não se furta a emitir opiniões polêmicas e críticas, inclusive ao governo. Nesta entrevista por vídeo a VEJA, sentada na sua sala, ela se manifestou a favor do aborto e da legalização das drogas — embora nunca tenha posto um cigarro na boca ou tomado um copo de cerveja. “Pode pôr aí que você entrevistou a pessoa mais estranha da sua vida”, brincou.

Os últimos meses foram muito duros? Não cheguei a ter crises, mas trato a ansiedade há anos. A primeira vez que passei mal foi em um avião, voltando dos Estados Unidos, quando meus filhos tinham 2 anos. O público não percebeu, mas em 2007 tive uma crise em pleno Jornal Nacional. Comecei a sentir palpitações, meu rosto ficou vermelho, suava muito e fui deitando na bancada. Nem consegui dar boa-noite. Por sorte, era o último bloco. Foi uma época complicada, já queria ter meu programa e não sabia se aprovariam, e meu corpo começou a dar sinais de esgotamento.

Faz uso de medicamentos controlados? Naquela época comecei a me tratar com um psiquiatra, que também é psicanalista e me acompanha até hoje. Durante dois anos e pouco, precisei tomar remédio para ansiedade direto.

Superou o medo de avião? Melhorei, mas vou ter de conviver com isso a vida toda. Na Copa de 2002, os voos pela Coreia eram tão ruins que cogitei voltar no meio. Agora, em tempos normais, quando o Túlio não pode vir ao Rio, viajo para o Recife, onde é sua base. Tomo duas gotinhas de um ansiolítico, visto a capa da Mulher-Maravilha e vou. Pode ser uma bengala, mas tem dado certo.

Com tanta coisa acontecendo, às vezes dá vontade de estar na bancada do JN? Não. Tenho um papel importante no Encontro quando falo de feminicídio, converso com pessoas que perderam familiares na pandemia e ajudo a entender que isso vai passar. A decisão de sair foi amadurecida. Sinto orgulho do que está sendo feito no JN.

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A imprensa está cumprindo seu papel? Está. Ela é fundamental para jogar luz sobre os fatos, trazer à tona a verdade, expor ataques às instituições e combater fake news. É muito bom ver que o público, como mostram as pesquisas, se reencontrou com o jornalismo. Eu me sinto viva neste processo.

A senhora já foi vítima de fake news. Sente medo da repercussão de mentiras? Medo, não, indignação. Inventaram que eu tinha reformado a casa e dado 350 000 reais ao Adélio Bispo, autor da facada em Bolsonaro. Fiz um post desmentindo. Em outra ocasião, discuti no ar a questão da ética médica, circulou nas redes que eu defendia bandidos e rebati no próprio programa. A investigação em torno das fake news é urgente. É inacreditável como se apoderam dos canais de informação e veiculam o que bem entendem, de forma desonesta e irresponsável.

“A investigação das fake news é urgente. Fico indignada de ver como se apoderam dos canais de informação e veiculam o que bem entendem, de forma desonesta e irresponsável”

Qual era, a seu ver, o objetivo da pessoa que usou indevidamente o CPF do seu filho para receber o auxílio emergencial do governo? Acho que era criar tumulto e desestabilizar a imprensa, em especial o William. Tudo aponta para uma ação orquestrada. Fomos procurados por um repórter, que provavelmente recebeu uma denúncia, porque não iria, do nada, buscar o nome do meu filho na lista. Levamos o caso à Justiça.

A senhora já cobrou no ar uma postura mais solidária do presidente Bolsonaro em relação às vítimas da Covid-19. Tinha em mente que causaria polêmica? Nem pensei nisso. Fiquei indignada com a falta de compaixão daquele “Me chamo Messias, mas não faço milagre”. E cobrei.

Em outro episódio, Bolsonaro mandou dois jornalistas calar a boca e a senhora disse que a imprensa não se calaria. Viu ali uma demonstração de autoritarismo? Não faltam demonstrações de que o governo tem dificuldade de lidar com o contraditório. Em uma campanha tão importante, a de conscientização para as pessoas ficarem em casa, a imprensa foi fundamental, mas não houve uma parceria do governo, que teria sido muito útil para o país.

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Existe algum assunto proibido no seu programa? Até agora, não.

Teme a volta da censura? Temo e acho que todo mundo deve temer, agora e sempre. Não dá para relaxar.

Como foi o período de isolamento social? Fiquei apreensiva. O dia em que o programa saiu do ar, 16 de março, foi difícil. Pensei: meu Deus, sou ansiosa, como vai ser dentro de casa? Mas, olha, fiquei melhor do que imaginava. Claro que sou privilegiada por ter quintal, estar com os meninos e com o Túlio. Mas fazia tempo que não cuidava da cozinha, lavava roupas e varria a casa. Até arrisquei pintar o cabelo sozinha. Voltei a gravar um mês depois, mas só saio para ir à TV.

A senhora mudou: se expõe mais, quebra protocolos, opina sobre política. O que provocou a virada? Acho que é por causa do espaço que tenho agora. No telejornal, onde as notícias são cronometradas, é mais difícil. Hoje faço um programa meu e, quando vejo no nosso painel os assuntos em destaque nas redes sociais, me manifesto. Não é uma postura partidária. Só digo o que sinto e me ponho no lugar do telespectador.

Depois de a senhora e Túlio Gadêlha atravessarem a quarentena sob o mesmo teto, pensam em oficializar a união? A gente não fala nessa possibilidade. Seria complicado porque ele trabalha em Brasília e vive em Pernambuco, e o programa e meus filhos estão no Rio. Mas se tem uma coisa que aprendi com essa relação é não querer planejar ou antecipar tudo. Passamos o máximo de tempo juntos e está maravilhoso.

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Quando a senhora assumiu o namoro com um rapaz 25 anos mais novo, houve muitos comentários. Estava preparada? No começo, fiquei surpresa. Quando conheci o Túlio, por intermédio de uma amiga, estava numa fase de organizar a vida após um casamento de 26 anos. Naquele momento, estava mais preocupada em entender o que eu sentia do que com o que falariam. A maioria das manifestações foi de aprovação, mas claro que tem gente que não aceita. Não me abalei. Optei por ser feliz.

São frequentes as postagens de fotos de vocês juntos. Como se explica, sendo uma pessoa tão discreta na vida pessoal? Não sei se eu mudei ou me adaptei à nova realidade. Não tinha a intenção de expor o namoro. Só que logo na primeira vez que a gente saiu e foi ao cinema um paparazzo fez fotos e vi que seria impossível preservar a história. Então decidimos que, para não ficarem na nossa cola, seria melhor nós mesmos escolhermos e postarmos o que queríamos.

O que a Fátima de hoje faz que a de cinco anos atrás não faria? Não planejar absolutamente tudo que vou fazer. Era inimaginável, em outros tempos, acordar num fim de semana sem saber cada detalhe da agenda. O fato de ter um programa ao vivo, no qual falo de improviso, me ajudou a exercitar isso no lado pessoal. Deixo a vida me levar.

Depois que Ludmilla cantou uma música sobre maconha no seu programa, a classificação etária mudou de livre para 10 anos. Achou justo? De jeito nenhum. Nunca exibi cenas impróprias nem estimulei o consumo de álcool ou drogas. Quando abordo temas sensíveis, é sempre com muita responsabilidade. Não acho que uma música como aquela vai estimular qualquer coisa e não me arrependo de tê-la apresentado.

Como a senhora se posiciona em relação à descriminalização das drogas? É um assunto com prós e contras, mas sou a favor da legalização. Além de frear o tráfico e diminuir a violência, facilitaria o uso medicinal da maconha, um tema que enfrenta preconceito. Eu sou bem careta. Nunca experimentei droga. Nunca tomei um copo de chope na vida. No máximo bebo um pouquinho de vinho socialmente. Mas acredito firmemente no direito de escolha das pessoas para sua própria vida.

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“Sou careta, nunca fumei nem tomei um copo de chope na vida. Mas sou a favor da legalização das drogas e do aborto. Acredito no direito de escolha das pessoas para sua própria vida”

É a favor do aborto? Sou, pelo mesmo motivo. Pessoalmente, com a estrutura que sempre tive em família, não faria. Mas ninguém tem o direito de decidir sobre as opções do outro.

E do feminismo? Sou feminista, sim, por ter lutado por meus espaços desde sempre. Quando fui fazer o Jornal da Globo, por exemplo, as apresentadoras não narravam gol. Eu era louca por futebol e consegui mudar isso.

Considera-se de esquerda? Não gosto da qualificação direita ou esquerda. Eu me considero humanista, com ideias progressistas.

Em uma live recente, a senhora trocou o nome do seu namorado pelo de Bonner e as redes sociais ficaram congestionadas de memes. A patrulha virtual a tira do sério? Faz parte. As pessoas ficam vendo e esperando alguma coisa errada. Quem nunca, depois de um relacionamento longo, fez esse tipo de troca? Não teve o menor problema com o Túlio.

A pergunta inevitável para quem aparece todo dia na TV: já fez plástica? Olha, envelhecer não é fácil. Sou feliz, gosto de mim como estou, é bacana olhar para trás e ver tudo o que aconteceu. Mas fisicamente, no dia a dia, percebo as mudanças. A pele que eu tinha não volta, não tem jeito. Aplico Botox desde os 42 anos. Não fiz plástica ainda porque tenho medo de não me reconhecer depois. Quando me olhar no espelho e ficar triste, vou fazer, sim.

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A senhora, se quisesse, poderia parar de trabalhar e viver de publicidade. Pensa em se aposentar? De jeito nenhum. O trabalho é vital para mim.

Publicado em VEJA de 24 de junho de 2020, edição nº 2692

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