Aldo Rebelo: “Quero ser alternativa à polarização”
Pré-candidato a presidente, ex-ministro do governo Dilma critica a esquerda e afirma que não houve tentativa de golpe dos bolsonaristas
O jornalista Aldo Rebelo já foi um dos principais quadros da esquerda brasileira. Quando era filiado ao PCdoB, comandou a articulação política no primeiro mandato de Lula, cargo do qual saiu para ser eleito presidente da Câmara dos Deputados. Na gestão de Dilma Rousseff, chefiou outras três pastas, inclusive a Defesa, na qual teve de lidar com as resistências iniciais a seu nome por parte dos militares. Nos últimos anos, no entanto, Rebelo foi se afastando aos poucos dos antigos aliados, até assumir uma secretaria na gestão de Ricardo Nunes (MDB), reeleito prefeito de São Paulo com o apoio de Jair Bolsonaro. Foi o suficiente para que o outrora comunista de carteirinha caísse nas graças de políticos e eleitores da direita. Um ativo com o qual ele conta para a próxima eleição. Agora filiado ao Democracia Cristã, o antigo PSDC de José Maria Eymael, Rebelo disputará a Presidência da República no papel de azarão, defendendo a retomada do desenvolvimento, a redução da carga tributária e a desobstrução institucional do país. Num contraponto à esquerda, também defenderá a família e reforçará laços com os conservadores. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Por que o senhor decidiu lançar sua pré-candidatura à Presidência da República? Quero ser uma alternativa à divisão artificial do país, que é cada vez mais rejeitada. Ninguém que vai roubar o seu celular pergunta se você votou em Lula ou em Bolsonaro. Quando você para num posto de gasolina para abastecer, não há bombas diferentes para petistas e bolsonaristas. A violência, o custo de vida, as incertezas sobre o rumo do país atingem todo mundo. Se os problemas são comuns, por que a solução não pode ser também? O Brasil nunca se dividiu por razões ideológicas. O que move a população é a busca de soluções para os desafios da sobrevivência. Tanto que o Nordeste, que antes votava no PFL, elegeu o Lula em 2022. Tanto que o Rio Grande do Sul, que antes votava no PT, migrou para Bolsonaro na última eleição. Nos dois casos, foi uma busca por alternativas.
Nas duas últimas corridas presidenciais, nenhuma candidatura conseguiu romper a polarização entre os favoritos. Por que pode ser diferente em 2026? Nas eleições municipais de 2024, vários candidatos que não preenchiam o figurino da polarização foram eleitos em capitais, mostrando que, quando a alternativa aparece, a população abraça. No caso da próxima eleição, essa alternativa ainda não apareceu. O Gilberto Kassab, presidente do PSD, apresentou três nomes, os governadores Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior, que ainda não são candidaturas, mas promessas. O problema é que, se você tem três, não tem nenhum. Eu estou há muito tempo fora da vida pública. Pouca gente sabe que sou candidato. Minha esperança é que os debates e as entrevistas possam oferecer uma plataforma que me torne um pouco mais conhecido.
“Quero ser alternativa à polarização. Ninguém que vai roubar o seu celular pergunta se você votou em Lula ou em Bolsonaro. As incertezas sobre o país atingem todo mundo”
Dá para ser competitivo num partido pequeno, com poucos recursos à disposição? Qual era o tamanho do partido do presidente Collor, o PRN? Era minúsculo. Qual era o tamanho do partido do presidente Bolsonaro, o PSL? Ninguém lembrava que existia. No Brasil, as ideias sempre tiveram mais força do que as siglas, e hoje mais do que nunca, porque o valor das legendas foi muito depreciado pelos malfeitos da política. É difícil encontrar um partido que não tenha se metido num monte de confusão. Se nessa trajetória eu puder apresentar as minhas ideias para retirar o Brasil do pântano em que ele se encontra, é possível que as pessoas passem a ouvir com algum interesse.
Qual será o tema central de sua campanha? O presidente Lula só tem duas agendas na economia: aumentar a despesa, porque está perto da eleição, e aumentar imposto para bancar o crescimento da despesa. No Brasil, aumentar imposto é o caminho do fracasso e gera duas consequências imediatas. A primeira é a inadimplência, porque o empresário vai preferir pagar o seu funcionário a pagar o imposto. A segunda consequência, se o empresário tentar pagar os dois, é quebrar. É preciso ampliar a base da arrecadação por meio, inclusive, da redução da carga tributária. Ao invés de ter 100 empresas pagando X, você pode ter 1 000 pagando X menos 1. Por que as empresas brasileiras estão exportando a partir do Paraguai? Porque o imposto de exportação lá é muito menor do que o nosso. A carga tributária no Brasil tem sido um inibidor do investimento.
Qual a sua sugestão de ajuste fiscal? Não existe alternativa para fazer o ajuste pelo lado da despesa. O país já cortou tudo, não tem mais recurso para universidades, Forças Armadas, agências etc. O Brasil está literalmente parado. Por isso, é preciso fazer o ajuste pela receita, removendo os obstáculos para os investimentos e o crescimento. Qualquer presidente que vá aos Estados Unidos, à China e à Europa atrairá grandes investidores. A minha agenda tem como prioridade a retomada do desenvolvimento econômico.
O que pode ser feito para atingir esse objetivo? O problema do Brasil não é falta de recursos. O problema do Brasil é a interdição institucional promovida pelas corporações que administram o país. Quando o Supremo revoga uma decisão do Congresso sobre matéria tributária, como foi o caso do decreto legislativo suspendendo o aumento do IOF, há uma clara invasão de atribuição do Congresso. O STF também pode, numa decisão monocrática, paralisar uma obra essencial como a Ferrogrão (projeto ferroviário para ligar o Mato Grosso ao Pará, considerado vital para o escoamento da produção). O Ministério Público, uma ONG, o Ibama, a Funai podem fazer a mesma coisa. No Brasil, há uma corrida de obstáculos insuperável.
O senhor pode citar um exemplo? O governo Lula revogou o decreto sobre hidrovias na Amazônia por pressão de meia dúzia de ONGs. Enquanto a China transporta pelas suas hidrovias 5 bilhões de toneladas por ano, nós não conseguimos transportar mais do que cento e poucos milhões de toneladas. Quando o governo revoga o seu próprio decreto, a mensagem que ele envia para o investidor é que nem na palavra do governo o investidor pode acreditar. Cria-se no mundo a leitura de que o Brasil é um país onde não há segurança jurídica. É preciso desinterditar, desbloquear o Brasil com medidas duras.
Os empresários reclamam muito da insegurança jurídica. O que é possível fazer para resolver essa questão? A primeira medida é enfrentar o STF. Isso não se faz com bravata, mas com atitudes que mudem a correlação de forças no tribunal, como o aumento do número de ministros. Se o presidente Lula nomear Jorge Messias para o STF (a indicação já foi feita, mas aguarda análise do Senado), ele terá indicado onze ministros em seus três mandatos. Somados aos cinco escolhidos pela presidente Dilma, chega-se a dezesseis, alguns dos quais já aposentados. Com essa correlação de forças, o país é ingovernável. Qualquer governo com outra orientação política provavelmente terá decisões revogadas pelo Supremo. O que pode ser feito, como já houve no passado, é aumentar o número de ministros do tribunal para dezessete.
Por que o senhor é crítico da atuação das ONGs? Algumas ONGs e órgãos públicos não levam em consideração o interesse do país. O licenciamento de uma obra, por exemplo, deve ponderar a questão ambiental, mas também os impactos sociais e econômicos. Uma hidrelétrica pode inundar uma área, mas também gerar energia para hospitais, escolas, atividade agrícola e iluminação para populações carentes. Além disso, o projeto vai gerar quantos empregos, renda, tributos? Só que no Brasil o impacto ambiental reina absoluto, sem que sejam analisados os aspectos sociais e econômicos. Muitas ONGs não protegem nada, a não ser seus próprios interesses. Os indígenas estão abandonados. Houve o escândalo da subnutrição dos Yanomami, que não têm acesso a serviço importante de saúde, de educação, de luz elétrica, de infraestrutura, de nada. O desenvolvimento econômico ajudaria a mudar essa situação.
“Uma parte da esquerda no Brasil acha que a família é uma instituição conservadora. É um erro grave. Para os pobres, a família é o Estado de bem-estar social, é uma proteção social”
Num cenário internacional tão conturbado, como o senhor avalia a política externa brasileira? Não acho que a política externa hoje seja a expressão da nossa tradição diplomática. O Brasil tem mantido nos governos Lula uma posição de indiferença e às vezes de hostilidade em relação aos Estados Unidos. No caso do Flávio Bolsonaro, o grupo tem mais hostilidade ao Irã e quase que um apoio incondicional aos Estados Unidos e a Israel, o que não deve ser a posição do Brasil. Como consequência, o Brasil internaliza uma agenda que divide o país e que não apresenta nenhum caminho para a solução do conflito.
Não é estranho as opiniões de um ex-militante comunista serem mais celebradas pela direita? A esquerda está perdendo contato com o sentimento popular e se tornando uma classe média laica, acadêmica. As pessoas votaram no presidente Bolsonaro porque imaginam nele o portador de valores que a população defende. O nacionalismo é uma coisa natural da nossa população. O Bolsonaro espelhou isso. Da mesma forma os valores da família. Uma parte da esquerda acha que a família é uma instituição conservadora. É um erro grave. Para os pobres, a família é o Estado de bem-estar social. Quando o menino vem do Nordeste para São Paulo, ele não fica numa pensão do governo. Ele fica na casa de um tio, de um primo, de um irmão. A família é uma proteção social. A esquerda perdeu, ou parte dela perdeu, essa perspectiva.
Como o senhor analisa o desfecho do processo que condenou, entre outros, o ex-presidente Bolsonaro? Não houve tentativa de golpe. O que aconteceu não preencheu nenhum requisito de um manual de golpe. Golpe precisa de apoio institucional. No caso de 1964, os partidos políticos, acho que com exceção do PTB, apoiaram o golpe, os governadores relevantes apoiaram, o que existia de excelência no jornalismo brasileiro apoiou. A CNBB apoiou. Não foi o padre da paróquia de Arapiraca, foi a CNBB em manifesto pedindo golpe. Qual igreja apoiou essa tentativa de golpe do 8 de Janeiro? Que governador? Que grupo empresarial? Isso é uma coisa completamente absurda. O Supremo precisava de um pretexto para tirar o presidente Lula da eleição de 2018 e depois precisava de outro para tirar o presidente Bolsonaro da eleição de 2026.
É favorável à anistia aos condenados por tentativa de golpe? A anistia é uma tradição brasileira, mas parece que o tema hoje também está ideologizado, não é para todos. Isso não pacifica o Brasil. Você não faz anistia para inocentar alguém, mas para superar um passivo e tratar do que é mais relevante para o país.
Em quem votou no segundo turno da eleição passada? Eu votei no candidato que considerava o menos danoso ao país naquele momento.
Ele tem nome? O voto é secreto.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





