Zelensky pede que Trump visite Kiev e diz que Ucrânia não cederá território à Rússia
Em discurso pelos quatro anos da invasão, presidente afirma que Putin não venceu a guerra e cobra pressão internacional contra Moscou
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apelou nesta terça-feira, 24, para que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visite Kiev e veja “com os próprios olhos” os efeitos da guerra, ao marcar o quarto aniversário da invasão russa em larga escala iniciada por Vladimir Putin em 24 de fevereiro de 2022.
Em pronunciamento de 18 minutos, divulgado junto a imagens inéditas do bunker presidencial na rua Bankova — onde ele e seus assessores se refugiaram nas primeiras horas do ataque russo— Zelensky afirmou que Moscou fracassou em seus objetivos centrais.
“Ele não venceu esta guerra. Preservamos a Ucrânia e faremos tudo para alcançar a paz. E garantir justiça”, disse, referindo-se a Putin.
O presidente ucraniano também declarou que o país não trairá sua população em eventuais negociações com o Kremlin. “Queremos uma paz forte, digna e duradoura”, afirmou. “Não podemos anular todos esses anos de luta, coragem e dignidade.”
Recado a Trump
Zelensky aproveitou o discurso para reforçar o convite a Trump, que ainda não visitou a Ucrânia desde que voltou à Casa Branca. Segundo ele, uma viagem poderia deixar claro “quem é o agressor e quem deve ser pressionado”.
“Só vindo à Ucrânia, vendo nossa vida e nossa luta, sentindo nosso povo e a dimensão dessa dor, é possível entender do que realmente se trata esta guerra”, disse.
Nos últimos meses, Trump tem adotado um tom ambíguo em relação ao conflito e, segundo relatos da imprensa americana e europeia, sinalizou disposição para pressionar Kiev a aceitar concessões territoriais no leste do país. Especialmente na região do Donbass, parcialmente ocupada por forças russas desde 2014 e ampliada após 2022.
Zelensky rejeitou publicamente qualquer cessão de territórios que não estejam sob controle total de Moscou. Em negociações mediadas pelos EUA, a Ucrânia insiste em garantias de segurança de longo prazo antes de qualquer acordo.
Durante encontro no Salão Oval no ano passado, o vice-presidente americano, JD Vance, acusou o governo ucraniano de promover “visitas de propaganda” a líderes estrangeiros, crítica negada por Kiev.
Guerra de desgaste
No discurso, Zelensky afirmou que, incapaz de derrotar a Ucrânia no campo de batalha, Putin intensificou ataques contra infraestrutura civil.
“Ele está lutando contra prédios residenciais e usinas de energia”, disse. Nas últimas semanas, bombardeios com mísseis balísticos e drones atingiram o sistema elétrico ucraniano, deixando milhões de pessoas sem luz durante um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos.
Dados das Nações Unidas indicam que milhares de civis morreram desde o início da invasão, além de dezenas de milhares de militares de ambos os lados. O conflito provocou ainda a maior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Apoio europeu
Zelensky recebeu em Kiev, nesta terça, líderes europeus, entre eles a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e chanceleres e primeiros-ministros de países nórdicos e bálticos.
O grupo deve visitar instalações energéticas atingidas por ataques russos e discutir novas medidas de apoio militar e financeiro.
Desde 2022, a União Europeia concedeu à Ucrânia o status de país candidato ao bloco e aprovou sucessivos pacotes de sanções contra Moscou.
Paralelamente, os EUA permanecem como principais fornecedores individuais de ajuda militar a Kiev, embora o apoio venha enfrentando resistência crescente no Congresso americano.
Memória e simbolismo
O vídeo divulgado por Zelensky mostra também a deposição de flores na Praça Maidan, em homenagem aos militares mortos desde o início da guerra.
O presidente relembrou ainda um dos episódios mais marcantes dos primeiros dias da invasão, quando, diante da oferta americana para deixar o país, respondeu: “Preciso de munição, não de carona.”





