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Venezuela: sob a direção Trump, o país de Maduro não é mais o mesmo

A abertura da exploração de petróleo a empresas estrangeiras e um projeto de anistia mostram os novos ventos

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 6 fev 2026, 13h29
  • Pouco mais de um mês depois da operação militar americana que resultou na captura de Nicolás Maduro e da primeira-­dama Cilia Flores, hoje presos e aguardando julgamento por tráfico de drogas em Nova York, a Venezuela é palco de uma experiência inédita em tempos modernos: um país com governo próprio, nacionalista e de esquerda, clara e abertamente tutelado por outro, intervencionista e de direita, e tentando se pôr de pé na corda bamba desse nó ideológico. Obedecendo a Donald Trump, mas fazendo de conta que é tudo ideia sua, a presidente interina, Delcy Rodríguez, encaminhou ao Congresso dois projetos de lei extraordinários, recebidos com euforia pela população: um que reverte a nacionalização da indústria petrolífera, já aprovado, e outro que anistia os quase 1 000 presos políticos, em fase de tramitação. “Com o chavismo no poder, mas sujeito aos desígnios de Washington, ela mantém uma espécie de estabilidade tutelada”, analisa Guillermo Aveledo Coll, professor de estudos políticos da Universidade Metropolitana, em Caracas.

    No âmbito econômico, a Assembleia Nacional aprovou uma reforma ditada pelo governo Trump na Lei de Hidrocarbonetos, revogando a nacionalização de 1976 e se afastando do modelo estatizante adotado por Hugo Chávez. A estatal PDVSA continua a existir, mas empresas privadas poderão operar no setor de forma independente, e não como acionistas minoritários, com porcentagem de royalties mais flexíveis e menos impostos — na medida para atrair os 10 bilhões de dólares em investimentos que Trump quer arrancar das reticentes petroleiras americanas. “O governo espera enviar um sinal suficientemente forte às empresas privadas de petróleo e gás de que pode haver compensação e ganhos no longo prazo com a retomada dos negócios na Venezuela. A atratividade dessa oferta, bem como sua durabilidade e legalidade no longo prazo, ainda estão por ser comprovadas”, adverte David Gold­wyn, presidente da consultoria Gold­wyn Global Strategies.

    APELO - Trump e María Corina: na esperança de eleição, ela deu a ele sua medalha de Nobel da Paz
    APELO - Trump e María Corina: na esperança de eleição, ela deu a ele sua medalha de Nobel da Paz (Daniel Torok/Casa Branca//)

    A Casa Branca não deixa dúvidas sobre quem está no comando. Agências americanas cuidaram das tratativas para que 17,6 milhões de barris de petróleo bruto venezuelano — a commodity que sustenta o país — fossem exportados em janeiro, sendo 8,9 milhões de barris destinados aos Estados Unidos. A receita de 500 milhões de dólares resultante da transação foi depositada por Washington em um fundo e dele transferida, em parcelas, para Caracas, com destinação predefinida. “Assim permitimos que a Venezuela use seu petróleo para gerar recursos que paguem professores, bombeiros e policiais e mantenham o governo funcionando”, explicou candidamente o secretário de Estado, Marco Rubio, em depoimento ao Senado. A própria Delcy Rodríguez, caprichando na arte de mandar recado para todos os lados na mesma frase, declarou que “a Venezuela amadureceu com o impacto da agressão dos Estados Unidos” e elogiou os canais de diálogo abertos — Washington pretende reabrir a embaixada americana no país e o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi recebido com rapapés em Caracas.

    Pesquisa recém-divulgada pela The Economist mostra que só 13% dos venezuelanos questionam a ação militar americana e mais da metade têm uma visão favorável dos Estados Unidos. Mais: quatro em cada cinco acreditam que a situação política estará melhor em um ano. Um dos incentivos para o otimismo é a lei de anistia, que abrange processos de 1999 até agora, incluindo todo o período de governos alinhados ao chavismo. O projeto também fará da notória prisão Helicoide, centro de abusos e torturas, um espaço para esportes e serviços sociais. A libertação de presos políticos começou em 8 de janeiro — até o momento, segundo a organização Foro Penal, 344 pessoas foram soltas e 687 permanecem detidas.

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    EQUILIBRISTA - Delcy, a pragmática: “A Venezuela amadureceu com a agressão americana”
    EQUILIBRISTA – Delcy, a pragmática: “A Venezuela amadureceu com a agressão americana” (Efrain Gonzalez/Presidência da Venezuela//)

    O medo instilado por Maduro entre os venezuelanos diminuiu, mas não desapareceu. Diosdado Cabello, ministro do Interior e homem forte do chavismo, ainda controla as forças de segurança e os coletivos paramilitares, e até hoje só se fala mal do governo aos sussurros. “Vivemos uma normalidade tensa e paralisante. Em janeiro, cada dia parecia um domingo sem fim”, disse a VEJA uma venezuelana que pediu para manter anonimato por segurança. Dois terços da população acham que novas eleições deveriam ser convocadas em um prazo de seis meses a um ano, e a líder oposicionista María Corina Machado está na fila — para agradar, deu até sua medalha de Nobel da Paz a Trump. Mas não há indícios de que isso vá acontecer tão cedo. “Tudo está indo muito bem com a Venezuela”, garante o presidente americano. E não se fala mais nisso.

    Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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