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Um quarto de século perdido

O CNA, partido de Mandela, ganha mais uma eleição, mas terá menos força para recuperar o país, atolado na corrupção e no fosso social entre ricos e pobres

Na emblemática cena de 1990 em que Nelson Mandela deixa a prisão caminhando de mãos dadas com a mulher, Winnie, é possível avistar logo atrás do casal a figura de Cyril Ramaphosa, já então um nome de destaque no movimento anti-apartheid e nas negociações que levaram à libertação do líder negro sul-africano. Ramaphosa viria a se tornar o candidato favorito de Madiba, como Mandela era chamado, para substituí-lo na Presidência da África do Sul ao término de seu mandato, em 1999. Não aconteceu. Ele só chegou ao cargo em fevereiro do ano passado, para um mandato-tampão, depois que Jacob Zuma foi obrigado a renunciar, abatido por uma sucessão de acusações de corrupção. Ao ser reconduzido à Presidência nas eleições de quarta-feira 8, passados 25 anos desde o fim do regime segregacionista, Ramaphosa enfim cumpriu o desejo de Mandela, mas em clima bem diferente daquele dos tempos de esperança.

Seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), varrido por denúncias que vão de extorsão a negócios escusos, está rachado e, apurados quase 70% dos votos, entra no Parlamento com cerca de 56% das cadeiras. Ainda é maioria, mas seu poder é cada vez mais raquítico. Os desmandos no CNA facilitaram o crescimento de partidos de oposição, cujas campanhas bateram na tecla por governos mais limpos. O maior deles, a Aliança Democrática, de centro, que levou de surpresa as prefeituras de Joanesburgo e Pretória na eleição de 2016, deve conquistar cerca de 20% dos votos para o Parlamento. Também prevê alcançar seu melhor resultado até hoje — 10% — o Combatentes pela Liberdade Econômica, legenda de esquerda, que promete redistribuir terras e privatizar bancos. O comparecimento dos eleitores foi maior do que em votações recentes, mas 6 milhões de jovens de até 30 anos não se deram ao trabalho de ir às urnas. Para piorar o cenário, a economia patina e as desigualdades entre negros e brancos aumentaram na última década.

VITÓRIA –  Ramaphosa: presidente milionário com imagem de reformista

VITÓRIA –  Ramaphosa: presidente milionário com imagem de reformista (Gianluigi Guercia/AFP)

Ramaphosa, de 66 anos, nasceu em Soweto, o célebre reduto negro na periferia de Joanesburgo, e ascendeu rapidamente na política. No início dos anos 2000, porém, deu uma guinada, foi trabalhar em companhias de mineração e, durante a década seguinte, sem que se saiba muito bem como, acumulou uma fortuna hoje avaliada em 550 milhões de dólares — entrou em 2015 na lista da revista Forbes dos maiores milionários africanos. Voltou à política com fama de reformista bem relacionado com o setor privado, um perfil que faz sucesso entre os eleitores no mundo todo. A dúvida é se conseguirá estancar a sangria da corrupção no partido fundado por Mandela — apesar de inúmeras denúncias e dos processos abertos, inclusive contra Zuma, nenhum político sul-africano foi condenado até agora.

Além de ter a mancha da corrupção, que afastou principalmente a classe média negra, o CNA arca com as consequências da crise na economia. O crescimento do PIB da África do Sul não passa de 0,8% atualmente e, em seu ponto mais alto, não superou os 2% nos últimos anos. O desemprego atinge 27% da população, mas beira os 40% entre os jovens de 15 a 34 anos. Diante disso, explodiram com mais força ainda os indicadores de desnível social na África do Sul — o país é mais desigual até do que o Brasil, segundo relatório do Banco Mundial. Entre 2011 e 2015, a quantidade de sul-africanos abaixo da linha da pobreza, que vinha caindo, deu novo salto com o ingresso de 3 milhões de pessoas, o que elevou a taxa de 36% para 40%.

A África do Sul certamente mudou desde o fim do apartheid, com a introdução de programas do tipo do Bolsa Família, de um imposto sobre grandes fortunas e medidas destinadas a reduzir o abismo econômico entre negros e brancos. Uma das agravantes para o fosso social está na educação. Oito em cada dez alunos da 4ª série não conseguem ler em um nível apropriado. Os conhecimentos em matemática são igualmente fracos. Resultado: uma boa parcela de empregadores reluta em contratar jovens, muitas vezes por causa da desconfiança do desempenho. Na avaliação de John Campbell, especialista em África do Council on Foreign Relations, sediado em Washington, apenas os investimentos em educação serão capazes de garantir a ascensão dos negros, promovendo a qualificação da mão de obra. “Os ricos do país guardam seu dinheiro no banco. Não investem em nada”, disse ele a VEJA. Campbell também aponta uma particularidade importante sobre a performance em inglês. “Há nove línguas oficiais, sendo que três quartos da população sul-africana falam zulu e apenas 9% têm boa compreensão de inglês. Como é possível melhorar a língua nas escolas?”, afirma ele.

Os negros da África do Sul possuem menos propriedades, menos qualificações e ganham menos do que a minoria branca, cuja elite concentra dez vezes mais recursos do que quem está na ponta inferior da escala. Enroscado nesse círculo vicioso, Ramaphosa vai ter muito trabalho para pôr a África do Sul, o país mais industrializado e moderno da África, nos eixos.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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