UE defende que transição na Venezuela ‘deve incluir’ Machado e González
Líderes da oposição venezuelana, que segundo pesquisas venceram as eleições de 2024, silenciaram diante de ação surpresa dos EUA para capturar Maduro
A União Europeia afirmou nesta segunda-feira, 5, que qualquer transição política na Venezuela precisa incluir os líderes da oposição, María Corina Machado e Edmundo González Urrutia, apesar do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter descartado a possibilidade de participação deles.
“Os próximos passos envolvem o diálogo rumo a uma transição democrática, que deve incluir Edmundo González e María Corina Machado”, declarou a porta-voz Anitta Hipper.
Quando se manifestou sobre a operação militar americana que capturou Nicolás Maduro no último sábado 3, Machado teve cautela. Em nota intitulada “chegou a hora da liberdade”, ela comemorou a ação, dizendo que o ditador cometeu “crimes atrozes” contra os venezuelanos, se recusou a aceitar uma saída negociada e “o governo dos Estados Unidos cumpriu sua promessa de fazer valer a lei”. No entanto, afirmou que González, que concorreu às eleições no país em seu lugar depois que sua candidatura foi barrada pelo regime, “deve assumir de imediato seu mandato constitucional”.
A oposição e diversas pesquisas independentes atestam que ele venceu o pleito de julho de 2024, quando Maduro se declarou reeleito. Os Estados Unidos, a União Europeia e diversos países da América Latina reconheceram González como presidente eleito. O Brasil não foi tão longe, mas não reconheceu a vitória de Maduro.
A corda bamba da UE
Enquanto pede uma transição democrática, a União Europeia tenta se equilibrar para não irritar os Estados Unidos, que foram vagos sobre os próximos passos após a deposição de Maduro. No domingo 4, a chefe da diplomacia do bloco europeu, Kaja Kallas, pediu “calma e moderação por parte de todos os atores” e instou ao respeito ao direito internacional. A declaração foi apoiada por 26 dos 27 Estados-membros (apenas a Hungria, aliada próxima de Trump, optou por não participar).
“A UE recorda que, em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados”, disse a declaração divulgada por Kallas. “Respeitar a vontade do povo venezuelano continua a ser o único caminho para a Venezuela restaurar a democracia e resolver a crise atual”, acrescentou.
Em paralelo, numa coletiva de imprensa no sábado, Trump afirmou que os Estados Unidos governariam a Venezuela por tempo indeterminado, sem estabelecer detalhes sobre os aspectos práticos de tal administração ou cronograma para novas eleições, até que uma transição “segura, adequada e sensata” possa ser concretizada.
Sugeriu ainda que Machado, a principal voz da oposição venezuelana e a crítica mais ferrenha de Maduro, não teria condições de liderar um governo de transição.
Por ora, o governo da Venezuela caiu nas mãos de Delcy Rodríguez, a vice de Maduro, que deve ser empossada como presidente interina nesta segunda-feira. Embora ela tenha chamado a operação americana de uma “atrocidade que viola o direito internacional” e pedido a libertação do ditador, o governo Trump insistiu que Rodríguez “fará tudo o que os Estados Unidos pedirem”.
No domingo, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que os Estados Unidos vão avaliar a situação com base em ações, não palavras. “Vamos ver o que vai acontecer”, disse ele.
O chefe da diplomacia americana reiterou que Washington tem influência sobre o país devido ao regime de sanções econômicas e que haverá consequências se os governantes de lá “mantiverem laços com narcotraficantes”. Rubio também afirmou ser difícil definir um cronograma para novas eleições na Venezuela, argumentando que grande parte da oposição está no exílio e que desafios de curto prazo precisam ser abordados primeiro.





