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Túnel sob o monumento britânico Stonehenge causa polêmica

A construção intensifica o dilema entre preservar intactos os tesouros da Antiguidade ou permitir ajustes modernos que facilitem seu acesso

Por Caio Saad Atualizado em 11 dez 2020, 09h25 - Publicado em 11 dez 2020, 06h00

Misterioso círculo de pedras fincadas no sul do Reino Unido há 5 000 anos, sem propósito definido e por isso mesmo foco de teorias que vão de visitas de alienígenas e artimanhas de Merlin, o mago das lendas arturianas, passando por todas as vertentes do esoterismo, o monumento de Stone­henge atrai 800 000 visitantes todos os anos. Invariavelmente, a multidão chega ao local e faz caras e bocas em busca da melhor selfie, o que nem sempre é tarefa tão fácil: perto dali, bem no ângulo das câmeras, uma estrada estreita e movimentada é palco de engarrafamentos o dia todo. Pensando em aliviar o trânsito e, ao mesmo tempo, tornar mais agradável a vista dos turistas, o governo está tocando a construção de um túnel rodoviário de quatro faixas que passará exatamente embaixo de Stonehenge — projeto de 2,2 bilhões de dólares que está dando o que falar. Pego na linha tênue que separa a preservação de edificações antigas do desejo de tornar essas maravilhas acessíveis ao maior número possível de pessoas, o túnel é alvo de intenso bate-boca entre ambientalistas e historiadores, de um lado, e autoridades, de outro.

O English Heritage, entidade que cuida do exuberante patrimônio britânico, é a favor — os turistas poderão “se reconectar com a paisagem pré-­histórica” sem ser atrapalhados pelos caminhões que entopem a A303, de duas pistas. “Desviar a estrada barulhenta e inoportuna dentro de um túnel vai ajudar as próximas gerações a entender e apreciar melhor o monumento”, acredita sua diretora, Kate Mavor. A Stonehenge Alliance, grupo criado para impedir a obra, argumenta na direção contrária, com veemência. “Trata-se de uma decisão escandalosa e vergonhosa”, disse Tom Holland, presidente da aliança que reúne acadêmicos e ONGs. Segundo Holland, o problema não é propriamente o túnel, que se situará a 40 metros de profundidade, mas sim as pistas de acesso a ele, cujo percurso, aberto com maquinário pesado, tem potencial para destruir até 500 000 artefatos espalhados pela região detentora da mais densa e importante concentração no país de túmulos cobertos de rochas. “É de partir o coração. Estou pasmo que o governo tenha aprovado a obra sabendo de tudo o que já descobrimos”, indigna-se David Jacques, chefe do projeto arqueológico Blick Mead, que se dedica a desvendar como era a vida de seres humanos na área de Stonehenge durante a Era do Gelo.

A briga entre a preservação intacta e aquela que admite intervenções modernas no meio ambiente faz parte do debate sobre a melhor forma de cuidar de quase todos os monumentos da Antiguidade ainda de pé. No Egito, o governo retomou um polêmico projeto, discutido há uma década, de construir duas estradas de oito faixas cada para ligar o sítio onde estão plantadas as pirâmides à capital, Cairo, e facilitar as visitas de turistas ao encurtar a rota até os túmulos faraônicos. As obras começaram na surdina e ainda não chegaram aos monumentos, mas foram detectadas pelo Google Earth, arrepiando ambientalistas e arqueólogos diante dos danos quase certos a tesouros arqueológicos que permanecem enterrados na areia e ainda não descobertos.

MAIS TRÂNSITO - Pirâmides do Egito: estradas para levar mais turistas -
MAIS TRÂNSITO – Pirâmides do Egito: estradas para levar mais turistas – iStock/Getty Images

No mesmo Egito, especialistas temem pela conservação de quatro esfinges de arenito colocadas em uma rotatória movimentada na Praça Tahrir, no Cairo — além de suspeitar que as estátuas foram postas ali para dificultar novos protestos no local, centro de passeatas e choques contra o governo durante a chamada Primavera Árabe, em 2010. Na Índia, o Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo moderno, é alvo de embates sobre como proceder para proteger seus mármores brancos, hoje amarelados pela fuligem de fábricas e curtumes vizinhos, e os alicerces de madeira fincados em águas cada vez mais poluídas. Machu Picchu, no Peru, passa por problema semelhante. Planos mirabolantes para estimular o turismo, que envolvem um teleférico, hotel de luxo, complexo de lojas e restaurantes e uma ponte com acesso direto à cidade sagrada dos incas, foram até agora barrados por acadêmicos e ambientalistas. Lá, ao contrário, eles conquistaram um recuo das autoridades: alguns pontos mais desgastados pela circulação de pessoas agora são fechados a turistas.

No Reino Unido, a Stonehenge Alliance segue apelando a recursos legais para tentar impedir a obra do túnel, que foi reprovada por uma comissão do próprio governo, e tem até meados deste mês para apresentar sua reivindicação final. Ao longo das últimas décadas, mais de cinquenta propostas foram apresentadas para tentar solucionar o engarrafamento da A303, uma estrada do século XVIII aberta para tráfego de carruagens. Há lances pitoresco no imbróglio. Até Arthur Pendragon, um druida que diz ser a reencarnação do rei das lendas, promete: vai se deitar na frente das escavadeiras e impedir seu trabalho. Muitas pedras ainda hão de rolar nos projetos que envolvem esse e outros tesouros da humanidade.

Publicado em VEJA de 16 de dezembro de 2020, edição nº 2717

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