Trump voou oito vezes em jatinho de Epstein, uma delas com mulher de 20 anos
Nova leva de documentos do caso divulgada pelo Departamento de Justiça dos EUA cita presidente em e-mails, mas não implica delito
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou nesta terça-feira, 23, uma nova leva de documentos sobre o caso Jeffrey Epstein, que foi julgado e condenado por manter uma rede de exploração e tráfico sexual de mulheres, muitas delas menores de idade, antes de de suicidar na cadeia em 2019. Os materiais citam diversas vezes o nome do presidente Donald Trump, que cultivou longeva amizade com o financista, indicando que ele viajou no jatinho de Epstein em ao menos oito voos diferentes — em um deles, acompanhado apenas do colega e de uma mulher de 20 anos.
Não há indicação se a mulher foi vítima de algum crime, e a menção a Trump não implica qualquer delito criminal.
A nova leva de documentos vem após uma divulgação semelhante, na sexta-feira passada, de 13 mil páginas que detalham as investigações sobre o bilionário pedófilo. As publicações vêm na esteira de uma recém-aprovada lei, fruto de raríssimo esforço bipartidário no Congresso, que obriga o governo a divulgar os materiais.
Viagens e ligações perigosas
Um dos e-mails revelados nesta terça afirma que Trump consta como passageiro no jato particular de Epstein em oito voos entre 1993 e 1996. O remetente e o destinatário foram ocultados, mas no final do e-mail consta o nome do procurador assistente dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York – também ocultado.
“Donald Trump viajou no jato particular de Epstein muito mais vezes do que foi relatado anteriormente (ou do que tínhamos conhecimento)”, diz a mensagem, enviada em 7 de janeiro de 2020. Ela faz parte de uma troca de e-mails cujo assunto é “RE: Registros de voos de Epstein”.
Em um voo em 1993, segundo a troca, Trump e Epstein são os únicos dois passageiros listados; em outro, os únicos três passageiros são os dois amigos e uma mulher de 20 anos — o nome dela foi omitido.
Em outras duas ocasiões, estavam no jatinho, de acordo com o e-mail, duas mulheres que podem ter sido testemunhas no caso contra a cúmplice e namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell. Em 2022, ela foi condenada a 20 anos de prisão, em regime semiaberto, por crimes que incluem conspiração para aliciar menores a se envolverem em atos sexuais ilegais, bem como tráfico sexual de menores.
“Nosso presidente gosta de garotas jovens”
Outro documento divulgado nesta terça é uma carta que parece ter sido enviada por Jeffrey Epstein a Larry Nassar, o médico da equipe de ginástica dos Estados Unidos condenado por abusar sexualmente de dezenas de jovens atletas. O financista estava na prisão na data de envio, assinalada abaixo de sua assinatura: 13 de agosto de 2019.
“Caro L.N., como você já sabe, peguei o caminho mais curto para casa. Boa sorte! Compartilhamos uma coisa… nosso amor e cuidado por jovens mulheres, na esperança de que elas alcancem seu pleno potencial. Nosso presidente também compartilha nosso amor por garotas jovens e núbeis. Quando uma jovem bonita passava, ele adorava ‘agarrá-la’, enquanto nós acabamos nos contentando em agarrar comida nos refeitórios do sistema (penitenciário). A vida é injusta. Atenciosamente, J. Epstein.”
Embora não mencione Trump pelo nome, em 2019, o republicano cumpria o segundo ano do primeiro mandato presidencial.
Sem citar a carta de Epstein a Nassar, ou os e-mails a respeito de registros de voos, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirmou em uma postagem no X que alguns dos documentos divulgados nesta terça “contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump”.
Pressão de todos os lados
Trump foi amigo de Epstein por quase 15 anos, mas o presidente afirmou que eles se desentenderam por volta de 2004 – quatro anos antes do financista ser preso pela primeira vez, sob acusação de abuso sexual de menores.
Durante sua campanha presidencial no ano passado, Trump prometeu abrir arquivos relacionados ao caso Epstein, que sua base de apoiadores, conhecida como MAGA (“Make America Great Again”), transformou em bandeira moral e conspiração política com sua ajuda — segundo ele, poderosos do Partido Democrata estariam afundados até o pescoço com a rede criminosa do financista.
No início deste ano, porém, seu governo provocou reação negativa depois que o Departamento de Justiça anunciou que não divulgaria nenhum material relacionado a Epstein e afirmou não ter encontrado “nenhuma lista incriminatória de clientes”, apesar da procuradora geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, ter alegado anteriormente que tal documento estava em sua mesa.
O anúncio gerou indignação tanto entre democratas quanto republicanos – inclusive vários apoiadores de Trump – e reacendeu questionamentos sobre os laços passados entre o presidente e Epstein. O chefe da Casa Branca negou repetidamente qualquer conhecimento ou envolvimento nas atividades criminosas de Epstein.





