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Trump intensifica a pressão sobre Maduro: até onde pretende chegar?

Ninguém arrisca prever em qual direção, nos próximos meses, talvez semanas, os ventos vão soprar na Venezuela

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 nov 2025, 06h00 • Atualizado em 21 nov 2025, 12h33
  • Um grande teatro montado pelos Estados Unidos no Caribe está tirando o sono de governantes e analistas, pela dificuldade de entender até onde o governo de Donald Trump pretende chegar na proteção, nas palavras do secretário de Defesa (ou da Guerra, como prefere), Pete Hegseth, da “nossa pátria”, do “nosso hemisfério” e da “nossa vizinhança” — nessa ordem. Em nome do ambicioso e plural objetivo, o maior porta-aviões do planeta acaba de chegar à região, incrementando a frota americana presente desde agosto nos mares acima da América do Sul, apoiada por 15 000 soldados e marinheiros — sem falar na CIA, autorizada por Trump a montar “ações secretas” na Venezuela. Nicolás Maduro, tratado como líder de uma quadrilha de narcotraficantes, é, claramente, o alvo da movimentação militar, justificada como uma operação bélica contra “as drogas que estão matando nosso povo” — de novo, nas palavras de Hegseth. Posto o cenário, fica a questão: o que vai acontecer agora?

    POPULISMO - Maduro: entre apelos ao patriotismo e pedidos de paz (em inglês)
    POPULISMO - Maduro: entre apelos ao patriotismo e pedidos de paz (em inglês) (./AFP)

    A ameaça maior é de uma ação militar direta contra a Venezuela, que poderia arrastar a Casa Branca para uma das “guerras eternas” que causa arrepios na nação MAGA. Trump declarou recentemente que já “meio que” decidiu os planos relativos ao regime de Maduro, sem mais detalhes. Sejam lá quais forem, devem girar em torno da chamada Operação Lança do Sul, capitaneada pelo USS Gerald R. Ford, capaz de transportar até noventa aeronaves, entre caças e helicópteros, que navega acompanhado de destróieres com mísseis guiados e se soma no Caribe a um submarino nuclear, entre outras naves de combate. Até agora, a potente esquadra vem sendo usada para disparar contra embarcações precárias supostamente transportando drogas (nenhuma prova foi apresentada), em ataques que já destruíram 21 barcos — bolas de fogo mostradas em vídeos do governo — e mataram 83 pessoas, todas traficantes, a se confiar na palavra do Departamento de Defesa. “Os dias de Maduro como presidente estão contados?”, perguntou uma entrevistadora a Trump há poucos dias. “Eu diria que sim”, respondeu. Em seguida, manifestou-se disposto a conversar “em algum momento” com Maduro (“Eu converso com todo mundo”).

    A controvertida operação militar, que não tem autorização do Congresso americano (obrigatória) e é vista com desconfiança pelas organizações internacionais, se encaixaria na guerra sem trégua que a Casa Branca diz deslanchar contra os cartéis do narcotráfico, vários deles reclassificados como grupos terroristas — o que amplia consideravelmente o poder de ação americano. Estão na lista de Organização Terrorista Estrangeira dois bandos venezuelanos, um real e outro nem tanto. O Tren de Aragua, quadrilha violenta que se alastrou pela América Latina e Estados Unidos, tem na sua conta tráfico de pessoas, armas e drogas, além de subornos e sequestros. Já o Cártel de los Soles, adicionado agora ao rol como sendo comandado por Maduro em pessoa, seria um nome informal para agrupar os generais (soles vem dos sóis que indicam a patente na farda) que sustentam o governo em troca de uma ampla gama de atividades ilegais, das quais o próprio ditador se beneficia (há uma recompensa americana de 50 milhões de dólares por informações que levem à sua captura).

    JOGO AMBÍGUO - O republicano: enquanto fala em “dias contados” para Maduro, acena com possibilidade de diálogo
    JOGO AMBÍGUO - O republicano: enquanto fala em “dias contados” para Maduro, acena com possibilidade de diálogo (Chip Somodevilla/Getty Images)
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    Os métodos da Casa Branca no Caribe trazem à memória a “diplomacia das canhoneiras” do passado, quando as potências usavam sua força naval para intimidar nações menores — a própria Venezuela foi alvo de um bloqueio de 1902 a 1903. Nada a ver, afirma o governo americano. “É uma operação antidrogas. Se pararem de enviar barcos com drogas, o problema acaba”, disse o secretário de Estado, Marco Rubio. O discurso tem pouca sustentação nos fatos. Ao que se sabe, traficar drogas não tem grande destaque entre os muitos pecados da ditadura Maduro. O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU indica, por exemplo, que a rota do fentanil, maior responsável pelas overdoses nos Estados Unidos, não passa nem remotamente pela Venezuela.

    Mesmo a cocaína, que tem sua produção centrada na América do Sul, sobretudo Colômbia, Peru e Bolívia, é escoada hoje em dia prioritariamente pelo Equador, via Pacífico — oceano onde a frota americana também afundou supostos traficantes, em ação dirigida, nesse caso, contra outro desafeto de Trump, o presidente colombiano Gustavo Petro, igualmente acusado por ele de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. “No fundo, a pressão americana é por uma mudança de regime. Parece se tratar mais de uma demonstração de força destinada a minar o apoio dos militares e do círculo íntimo de Maduro e fazer com que se voltem contra ele”, diz Christopher Sabatini, pesquisador sênior para a América Latina do think tank Chatham House. Também atua como incentivo para a Casa Branca, na sua cruzada anti-Maduro, a perspectiva de que, em um novo governo, empresas americanas voltem a explorar as imensas reservas de petróleo do país, uma indústria que se encontra praticamente paralisada por sanções e pela incompetência do governo.

    NA MIRA - Barco que transportaria drogas: explosão divulgada em vídeo
    NA MIRA - Barco que transportaria drogas: explosão divulgada em vídeo (@petehegseth/Instagram)
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    Os Estados Unidos não reconhecem Maduro como presidente da Venezuela e não aceitam o resultado da última eleição, em 2024 — rejeitado internacionalmente, aliás, pelas claras manobras do ditador para fazer de conta que saiu vencedor. O governo brasileiro tampouco aceitou formalmente a apuração anunciada, mas tenta se equilibrar em uma posição mais ou menos neutra. “O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados”, disse em setembro o chanceler Mauro Vieira. Nobel da Paz de 2025, a líder da oposição venezuelana María Corina Machado divulgou, na terça-feira 18, um documento em que afirma que a Venezuela se encontra “no limiar de uma nova era” e reforça que o regime chavista “está chegando ao fim”, projetando uma reaproximação diplomática com países como os EUA e a reinserção de Caracas no cenário internacional. A Venezuela pode voltar a ser um “pilar de segurança democrática e energética no Hemisfério Ocidental”, proclamou em vídeo gravado, segundo ela, em algum lugar do país, onde vive escondida há mais de um ano.

    Maduro, por sua vez, divide-se entre alimentar o mote da defesa da pátria e fazer seguidos apelos pela paz, muitos deles em um inglês tão macarrônico que parece de propósito. Ele ativou um certo Comando Integrado de Defesa, que reúne “todas as instituições públicas do Estado venezuelano, o aparato militar e todo o poder popular”, e mobilizou batalhões bolivarianos formados por civis mal treinados. Ao mesmo tempo, garante que está pronto para uma conversa “cara a cara” com Trump em prol da paz. Em comício no sábado 15, pôs para tocar Imagine, de John Lennon, comandando a plateia em uma dancinha improvisada. Depois, em um programa da TV estatal, apelou: “Call, yes. Peace, yes. War, no. Never, never, war” (Conversa, sim. Paz, sim. Guerra, não. Nunca, nunca).

    INIMIGO - O colombiano Petro: outro acusado pela Casa Branca de “bandido” e “líder do narcotráfico” na América do Sul
    INIMIGO - O colombiano Petro: outro acusado pela Casa Branca de “bandido” e “líder do narcotráfico” na América do Sul (Juan Diego Cano/Pc/AFP)
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    Segundo análise do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, as Forças Armadas venezuelanas operam com “capacidade restrita” e “problemas de preparação” por causa de “sanções internacionais, isolamento regional e uma crise de longa data”. “Militarmente, derrubar Maduro é simples e viável. As principais incertezas são políticas: se o regime ruir, a oposição será forte o suficiente para assumir e controlar o país?”, indaga Chris Park, pesquisador do Center for Strategic and International Studies. Pesquisa recente da Reuters/Ipsos revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico sem o devido processo judicial. Com tantas variantes em jogo, e o sempre imprevisível Trump no comando, ninguém arrisca prever em qual direção, nos próximos meses, talvez semanas, os ventos vão soprar na Venezuela — e, por tabela, em toda a América do Sul.

    Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2025, edição nº 2971

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