Trump estuda ataque cirúrgico e ofensiva mais ampla contra o Irã se diplomacia falhar
Negociações de última hora em Genebra tentam evitar confronto enquanto EUA concentram dois porta-aviões na região
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse a assessores que poderá autorizar um ataque militar limitado contra o Irã nos próximos dias e, caso a medida não leve Teerã a abandonar seu programa nuclear, considerar uma ofensiva mais ampla ao longo dos próximos meses, segundo autoridades americanas ouvidas sob condição de anonimato pelo jornal The New York Times.
A ameaça ocorre às vésperas de uma rodada considerada decisiva de negociações entre representantes dos dois países, marcada para quinta-feira em Genebra. O encontro é visto como a última tentativa diplomática para evitar um conflito aberto.
De acordo com relatos de integrantes do governo, Trump vem pressionando por uma ação inicial que sirva de demonstração de força e deixe claro à liderança iraniana que Washington exige o fim total da capacidade de enriquecimento de urânio com potencial bélico.
Alvos sob análise e dúvidas internas
Entre os alvos em análise estariam quartéis-generais da Guarda Revolucionária Islâmica, instalações nucleares e estruturas ligadas ao programa de mísseis balísticos. Caso o ataque limitado não produza os efeitos desejados, Trump teria dito a auxiliares que manteria em aberto a possibilidade de uma ofensiva mais ampla destinada a enfraquecer o regime do aiatolá Ali Khamenei.
A viabilidade de tal objetivo, no entanto, é questionada dentro da própria administração. Avaliações militares indicam que ataques aéreos isolados dificilmente seriam suficientes para provocar a queda da liderança iraniana.
Em reunião na Sala de Situação da Casa Branca, Trump discutiu cenários com o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o chefe do Estado-Maior Conjunto.
Segundo relatos, Vance, historicamente mais cauteloso em relação a intervenções externas, não se opôs frontalmente a um ataque, mas pressionou por esclarecimentos sobre riscos e complexidade da operação.
Planos que incluíam o envio de forças especiais para destruir instalações subterrâneas foram, por ora, deixados de lado devido ao alto risco e à necessidade de permanência prolongada em território iraniano.
Proposta de “saída honrosa” e papel da AIEA
Nos bastidores, surge uma proposta intermediária para evitar a escalada militar.
A ideia, atribuída a Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, permitiria ao Irã manter um programa extremamente limitado de enriquecimento de urânio exclusivamente para fins médicos, como a produção de isótopos para tratamento de câncer.
O Irã já realiza esse tipo de atividade no Reator de Pesquisa de Teerã, instalado ainda na década de 1960, quando o país era governado pelo xá aliado dos Estados Unidos, no âmbito do programa “Átomos para a Paz”.
Pelo arranjo, Teerã poderia alegar que preserva seu “direito” ao enriquecimento previsto no Tratado de Não Proliferação Nuclear, enquanto Washington afirmaria que as instalações com potencial militar seriam desativadas.
Ainda não está claro se as duas partes aceitariam a fórmula. Trump tem defendido publicamente a meta de “enriquecimento zero”. Já o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, reiterou que o país não abrirá mão do que considera seu direito soberano de produzir combustível nuclear.
Pressão militar inédita desde o Iraque
Enquanto a diplomacia tenta ganhar fôlego, os Estados Unidos ampliam sua presença militar na região. Dois grupos de porta-aviões, além de dezenas de caças, bombardeiros, aeronaves de reabastecimento e baterias antimísseis, foram posicionados a distância de ataque do território iraniano.
Trata-se da maior concentração de forças americanas no entorno do Irã desde os preparativos para a invasão do Iraque, em 2003.
Autoridades americanas têm apresentado justificativas variadas para uma eventual ação: impedir que o Irã produza uma arma nuclear, conter seu arsenal de mísseis, frear o apoio a grupos como Hamas e Hezbollah e responder à repressão interna contra protestos.
Especialistas europeus ouvidos à margem da Conferência de Segurança de Munique demonstraram ceticismo quanto à eficácia da pressão militar para forçar Teerã a abandonar um programa que se tornou símbolo de resistência nacional.
Uma intervenção americana, avaliam analistas, também pode provocar reação nacionalista no Irã, inclusive entre setores críticos ao regime.
O desfecho dependerá, agora, da capacidade de Washington e Teerã encontrarem uma fórmula que permita a ambos declarar vitória política sem cruzar o limiar da guerra.





