Tribunal rejeita recurso e desclassifica ucraniano das Olimpíadas de Inverno por capacete
Vladyslav Heraskevych foi banido por usar peça que mostrava fotos de atletas mortos na guerra; TAS reforça que regras limitam manifestações políticas
O atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych está oficialmente fora dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na Itália. Nesta sexta-feira, 13, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS, na sigla em inglês) rejeitou o recurso apresentado pelo competidor contra sua desclassificação da prova masculina, decidida poucas horas antes do início da disputa.
Heraskevych queria competir usando o equipamento com fotos de mais de 20 treinadores e atletas ucranianos mortos desde a invasão russa ao país, iniciada há quatro anos. A homenagem, batizada por ele de “capacete da memória”, foi considerada incompatível com as regras olímpicas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
Ao analisar o caso, o árbitro único designado pelo CAS reconheceu a carga simbólica da iniciativa, mas concluiu que as restrições impostas pelo COI são “razoáveis e proporcionais”. Segundo a corte, as normas permitem manifestações fora da área de competição — como em entrevistas ou nas redes sociais —, mas proíbem declarações no campo de jogo durante provas e cerimônias oficiais.
O advogado do atleta, Yevhen Pronin, criticou a decisão e afirmou que o tribunal “deu razão ao COI” ao aceitar que um competidor possa ser desclassificado mesmo sem conduta antiética ou ameaça à segurança.
Tentativas de negociação
Na prática, o recurso já tinha pouco efeito. Heraskevych foi impedido de largar cerca de 45 minutos antes do início de sua prova, na quinta-feira, e deixou a Vila Olímpica de Cortina d’Ampezzo naquela mesma noite. “Parece que este trem já partiu”, afirmou após a audiência, reconhecendo que não teria mais chance de competir.
A decisão do COI foi tomada após uma reunião de última hora entre o atleta, seu pai e a presidente da entidade, Kirsty Coventry. Segundo ela, a medida seguiu as diretrizes que determinam que o foco das competições deve ser “a celebração do desempenho dos atletas”. “Eu respeito suas convicções, mas isso não muda as regras”, declarou.
O COI argumenta que a limitação existe para proteger atletas de pressões políticas e evitar que o palco olímpico seja usado para manifestações nacionais ou governamentais. A entidade chegou a oferecer alternativas a Heraskevych: competir com outro capacete e exibir o modelo original na zona mista após a prova, ou usar uma braçadeira preta — gesto que, em regra, também é proibido, mas poderia ser autorizado como exceção. Ele recusou.
O caso ganhou contornos ainda mais sensíveis pelo contexto da guerra. Heraskevych já havia criticado a decisão do COI de permitir a participação de russos e bielorrussos como atletas “neutros” em Milão-Cortina. Após a desclassificação, afirmou que a medida “fortalece a propaganda russa”.
“Lado errado da história”
O ucraniano também questionou por que outras homenagens feitas nestes Jogos não resultaram em punição. Citou o patinador artístico americano Maxim Naumov, que exibiu uma foto dos pais mortos em um acidente aéreo, e o snowboarder italiano Roland Fischnaller, que tinha uma pequena imagem da bandeira russa em seu capacete como parte de uma série de bandeiras de sedes olímpicas onde competiu. O COI respondeu que esses casos não violaram as regras porque não configuraram manifestação no momento da competição ou tinham contexto distinto.
O TAS determinou, no entanto, que Heraskevych mantenha sua credencial olímpica. “Nunca imaginei que se tornaria um escândalo tão grande”, disse o atleta. Para ele, a decisão coloca o COI “do lado errado da história”.
Anteriormente, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já havia condenado a decisão de desclassificar o atleta.
“Esporte não significa indiferença, e o movimento olímpico deveria ajudar a parar guerras, não apoiar o agressor”, escreveu ele nas redes sociais. “Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional de desqualificar o atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych é extremamente negativa. Isso certamente não está de acordo com os princípios básicos dos Jogos Olímpicos, que se baseiam na justiça e no apoio à paz”.





