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Tragédia no fim da linha

Morre mais uma criança, a segunda em dezembro, detida em alojamentos precários e superlotados para imigrantes ilegais na fronteira com o Novo México

Na véspera do Natal, o pequeno guatemalteco Felipe Gómez Alonzo, de 8 anos, acordou tossindo muito. Levado ao pronto-socorro de um hospital, recebeu o diagnóstico de resfriado simples. Quando ele já ia embora, tiraram sua temperatura e perceberam que tinha febre de 39,4 graus. O garoto ficou mais uma hora e meia em observação, até ser liberado com uma receita de antibiótico e anti-inflamatório. Às 19 horas, Felipe vomitava sem parar, mas seu pai, Agustín Gómez, “recusou” outra ida ao hospital. Às 22 horas, “letárgico e nauseado”, ele retornou ao pronto-socorro, onde morreu doze minutos antes do Natal. Gómez estava alojado havia seis dias em um campo para refugiados ilegais da divisão de Proteção Alfandegária e de Fronteira (CBP, na sigla em inglês) do governo americano, o órgão responsável pelo cronograma da agonia do menino.

Felipe foi a segunda criança em menos de três semanas a perder a vida nas instalações precárias montadas em lugares ermos para recolher quem é pego entrando ilegalmente nos Estados Unidos — um contingente que triplicou nos últimos meses, não porque chegue muito mais gente, mas porque as patrulhas, seguindo orientação de uma administração que faz dos imigrantes indesejados uma ameaça nacional, estão atuando com muito mais rigor. Antes dele, em 8 de dezembro, morreu a menina Jakelin Caal Maquin, de 7 anos, ao dar entrada em um hospital com febre alta, dois dias depois de ela e o pai, Nery Caal Cruz, terem sido detidos. Falou-se em desidratação, mas Caal Cruz garantiu que ela havia recebido “água e comida” suficientes no longo percurso. Jakelin foi enterrada no dia do Natal em sua aldeia, nas montanhas da Guatemala.

Tanto Jakelin quanto Felipe tinham sido recolhidos, com os pais, a alojamentos no Estado do Novo México. Trata-se de instalações erguidas há vinte anos ou mais, quando poucas mulheres e menos ainda crianças eram vistas entre os que cruzavam a fronteira sem documentação. “São acomodações só para adultos. Tipo delegacia, um local de curta estada, até eles serem soltos ou mandados para a prisão”, explica Kevin McAleenan, chefe da CBP. Nesses alojamentos, superlotados nos últimos tempos, os detidos dormem em colchonetes no chão, têm seus pertences apreendidos e recebem uma coberta de plástico reflexivo para se aquecer nas hieleras (geladeiras), como são chamados os abrigos.

Segundo os dados divulgados pelas patrulhas de fronteira, 25 172 pessoas, entre adultos e crianças viajando em família, foram detidas por entrar nos Estados Unidos de forma ilegal em novembro passado, contra 7 016 no mesmo mês de 2017 — isso às vésperas do inverno americano. Muitos pais trazem filhos pequenos na esperança de ter mais chance de ficar no país, o que praticamente não acontece desde o início do governo de Donald Trump, que na manhã de Natal voltou a condenar as levas recentes de imigrantes: “Há drogas, há tráfico de pessoas. Não podemos permitir isso”. Ao darem entrada nos alojamentos, os menores são examinados, no máximo, para que se verifique se têm sarna, piolho e varíola. Na quarta 26, após as duas mortes, a CBP baixou uma ordem para que todas as crianças sob seus cuidados — cujo número o órgão não divulga — passem por um exame médico completo.

Quando a medida foi anunciada, Trump estava longe — ele e a mulher, Melania, viajaram de surpresa para o Iraque, onde fizeram uma visita às tropas americanas lá estacionadas. O Twitter dos dois encheu-se de fotos e mensagens sobre o passeio. Nem uma palavra foi dita, no entanto, a respeito de outra notícia sobre o presidente divulgada pelo The New York Times: como se suspeitava, Trump livrou-se de servir na Guerra do Vietnã graças a um atestado fajuto. O documento, assinado pelo médico Larry Braunstein em 1968, afirmava que ele tinha fascite plantar, o popular esporão. Agora, duas filhas do médico revelaram ao jornal que Braunstein alugava o local de sua clínica do pai do presidente, Fred, e fez o atestado em troca de favores. “Meu pai ganhou acesso a Fred Trump. Se alguma coisa estava errada no prédio, era só ligar e tudo se resolvia rapidamente”, conta Elysa Braunstein. Vá-se tentar justificar isso às tropas no Iraque.

Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615