Tempestade de inverno atinge mais de 40 milhões nos EUA e paralisa Nova York e Boston
Nevasca se intensifica na Costa Leste, cancela 5.500 voos e deixa centenas de milhares sem energia; autoridades decretam emergência
Por Ernesto Neves 23 fev 2026, 08h51 • Atualizado em 23 fev 2026, 08h56
Uma poderosa tempestade de inverno se intensificou na manhã desta segunda-feira 23 na Costa Leste dos Estados Unidos, despejando neve em ritmo acelerado e paralisando grandes áreas metropolitanas no início da semana de trabalho.
Mais de 40 milhões de pessoas permaneciam sob alerta de nevasca, segundo o National Weather Service.
As condições oficiais de nevasca foram registradas nos aeroportos de Newark Liberty e Teterboro, em Nova Jersey, com rajadas superiores a 56 km/h por pelo menos três horas e visibilidade inferior a 400 metros.
O fenômeno deve se expandir ao longo do dia, especialmente em Long Island e em partes de Connecticut, Rhode Island e Massachusetts.
Em algumas áreas de Nova York, Nova Jersey e Delaware, mais de 30 centímetros de neve caíram em apenas 12 horas.
Regiões da Nova Inglaterra podem acumular mais de 60 centímetros, enquanto a área metropolitana de Nova York deve registrar ao menos 45 centímetros.
Transporte colapsa e voos são cancelados
A tempestade deixou mais de 260 mil consumidores sem energia no corredor do Meio-Atlântico, principalmente em Nova Jersey e Delaware, segundo dados do site PowerOutage.
O impacto sobre o transporte foi imediato. A NJ Transit suspendeu todos os trens, ônibus e linhas leves.
A Long Island Rail Road interrompeu totalmente o serviço, enquanto a Metro-North opera com horários reduzidos. O metrô de Nova York circula com atrasos, e algumas linhas foram suspensas. Ônibus municipais também operam de forma limitada.
A circulação de veículos não essenciais foi proibida em Nova York até o meio-dia e em Nova Jersey até as 7h. Nos três principais aeroportos da região de Nova York, a maioria dos voos foi cancelada.
Em todo o país, mais de 5.500 voos comerciais programados para esta segunda já haviam sido suspensos, segundo a plataforma FlightAware.
Na Filadélfia, todo o sistema de ônibus metropolitanos foi interrompido. A Amtrak cancelou serviços, incluindo a linha Downeaster, que liga o Maine ao Nordeste, e trechos ao sul de Nova York.
As escolas públicas de Nova York, que atendem cerca de 900 mil alunos, decretaram “snow day”, com cancelamento inclusive das aulas remotas.
Acúmulo recorde e tempestade “clássica”
Em Freehold, Nova Jersey, o acúmulo chegou a 48 centímetros nas primeiras horas da manhã. No Central Park, referência climática oficial da cidade de Nova York, foram registrados 23 centímetros em 1h.
Meteorologistas afirmam que o episódio se consolidou como um clássico “nor’easter”, sistema típico da Costa Leste caracterizado por ventos vindos do nordeste e forte umidade oceânica.
Segundo o Serviço Nacional de Meteorologia, a tempestade pode entrar para a lista das maiores já registradas na cidade desde 1869. Caso atinja 60 centímetros no Central Park, será a quarta maior da história local.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que a cidade não enfrentava um evento dessa magnitude há pelo menos uma década.
A prefeitura mobilizou mais de 2.600 trabalhadores de saneamento para operar arados e espalhar sal nas vias, além de equipes de emergência e assistência à população em situação de rua.
População vulnerável e críticas à gestão
A situação das pessoas em situação de rua voltou ao centro do debate público. Durante a última onda de frio, ao menos 20 mortes foram registradas, algumas associadas à exposição prolongada às baixas temperaturas. A prefeitura intensificou a abertura de centros de aquecimento e ampliou equipes de abordagem social.
Em bairros do Queens, alguns moradores de acampamentos improvisados disseram preferir permanecer nas ruas a ir para abrigos públicos. Organizações de assistência alertam para o risco elevado durante eventos de nevasca com ventos fortes.
Previsões que mudaram em horas
Meteorologistas destacaram que o sistema surpreendeu até especialistas. Na sexta-feira, os principais modelos climáticos indicavam apenas neve leve na maior parte das cidades costeiras. Em poucas horas, porém, as projeções mudaram drasticamente, apontando para uma tempestade de grande intensidade.
Os dois principais modelos usados nos EUA, o GFS americano e o ECMWF europeu, passaram a convergir para um cenário de rápida intensificação ao largo do Meio-Atlântico, com ventos fortes e precipitação volumosa.
Mudança climática e extremos
Especialistas ouvidos pelo jornal ressaltam que o aquecimento global não elimina tempestades de neve intensas. O aumento da temperatura média permite que a atmosfera retenha mais umidade, o que pode intensificar precipitações quando as condições permanecem abaixo de zero.
Segundo pesquisadores da Universidade de Toronto e da Stony Brook University, o número total de tempestades intensas pode diminuir ao longo das décadas, mas eventos extremos continuam possíveis e, em alguns casos, mais concentrados.
Autoridades recomendam que moradores permaneçam em casa, mantenham kits de emergência com água e alimentos para ao menos três dias e evitem deslocamentos desnecessários.
Em caso de bloqueio em veículos, especialistas alertam para o risco de intoxicação por monóxido de carbono e recomendam não manter o motor ligado por longos períodos.
A previsão indica que a neve deve diminuir ao longo da terça-feira, com elevação gradual das temperaturas, o que pode acelerar o degelo. Até lá, a Costa Leste enfrenta um dos mais severos episódios de inverno dos últimos anos.





