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‘Talibã americano’ é posto em liberdade após 17 anos nos EUA

John Walker Lindh, preso no Afeganistão, em 2001, sairá da prisão por bom comportamento, enquanto a guerra continua

Uma prisão federal do estado de Indiana, nos Estados Unidos, devolveu John Walker Lindh à sociedade nesta quinta-feira, 23. Lindh foi o primeiro jihadista americano que se tornou conhecido. Foi descoberto logo após a invasão do Afeganistão, provocada pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

O homem apelidado de ‘Talibã americano’ foi solto por bom comportamento três anos antes de completar a pena. Está sob liberdade condicional, mas com restrições impostas sobre sua soltura: não pode se comunicar com militantes, só pode falar e escrever em inglês e sua atividade na internet será monitorada. Além de ter o passaporte apreendido durante o período de liberdade condicional, será obrigado a fazer exames psicológicos regulares.

“É uma das condições mais severas para liberdade condicional em casos de terrorismo,” disse a VEJA Jonathan Lewis, pesquisador do Centro sobre Extremismo da George Washington University, fundado em 2015, em Washington.

Indignado com a decisão, o secretário de Estado americano Mike Pompeo classificou a soltura de Lindh como “inexplicável” e disse que a decisão devia ser revista. Mas a lei federal sobre este tipo de sentença prevê a liberdade antecipada por bom comportamento.

O talibã americano John Walker em um maca após sua captura pelas tropas americanas no Acampamento Rhino, em Khandahar, no Afeganistão.

O talibã americano John Walker em um maca após sua captura pelas tropas americanas no Acampamento Rhino, em Khandahar, no Afeganistão. (Getty Images/Getty Images)

Lindh tinha 20 anos, em 2001, quando sua imagem correu o mundo. Olhos vendados, o jovem magro estava deitado em uma maca depois de ter levado um tiro numa revolta de prisioneiros talibãs no norte do Afeganistão. A família do agente da CIA Mike Spann, morto pouco depois de interrogar Lindh na rebelião de presos, protestou contra a sua libertação.

Filho de um funcionário católico do Departamento de Justiça e de mãe budista, Lindh converteu-se ao islamismo depois de ter lido a autobiografia do ativista negro Malcolm X, fundador do grupo Nação do Islã, assassinado em Nova York em 1965. Ele tinha apenas 16 anos e, aos 17, obteve permissão para estudar árabe no Iêmen.

De lá foi para o Paquistão estudar numa madrassa, uma escola religiosa muçulmana, em 2000. Cruzou a fronteira para o Afeganistão, no ano seguinte, e chegou a conhecer Osama Bin Laden, o arquiteto do primeiro ataque terrorista em solo americano, num campo de treinamento militar.

“Lindh não é o primeiro, mas é o mais ‘famoso’ dos extremistas que vão começar a deixar as prisões,” diz Jonathan Lewis.

O Centro sobre Extremismo calcula que 80 a 100 pessoas que cumprem pena nos Estados Unidos por terrorismo ou apoio ao terrorismo serão reintegradas à sociedade até 2023. Para ele, a reintegração é a grande questão do momento porque o sistema jamais enfrentou esse cenário.

“Soubemos investigar e condenar, mas não temos informação suficiente pra prevenir a reincidência,” diz.

Quadro no Centro sobre Terrorismo da George Washington University mostra extremistas presos que coordenaram, com o Estado Islâmico, ações nos EUA.

Quadro no Centro sobre Terrorismo da George Washington University mostra extremistas presos que coordenaram, com o Estado Islâmico, ações nos EUA. (Jonathan Lewis/VEJA)

Estado Islâmico “fenomenal”

Lewis não tem dúvidas de que John Walker Lindh sai da prisão ainda como um radical. O ‘Talibã americano’ se correspondeu com uma estação de TV da Califórnia, onde cresceu, nos anos de 2014 e 2015. Quando a reportagem lhe perguntou sobre o Estado Islâmico, depois de uma onda de degolas de reféns ocidentais, Lindh escreveu que o grupo estava fazendo “um trabalho fenomenal.”

“O Estado Islâmico é claramente muito sincero em cumprir a obrigação longamente negligenciada de estabelecer um califado por meio da luta armada, que é o único método correto”, respondera Lindh.

O problema, para Jonathan Lewis, é a falta de consenso sobre os métodos para “desradicalizar” os ex-detentos.  O cidadão que hoje atende pelo nome de Yahya Lindh esperou dezessete anos pela liberdade. Daqui a três anos, se ele continuar exibindo comportamento, terá liberdade para viver sem qualquer vigilância.